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Volume XII · O essencial sobre ética animal · capítulo 6

A situação dos animais selvagens e a proposta de ajudá-los

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A proposta de ajudar os animais selvagens se apoia em que a força das razões depende da magnitude do dano, não da sua origem; e responde às objeções de que eles vivem bem, de que os ovos destruídos reduzem as vítimas e de que os filhotes quase não sofrem.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume XII, p. 21 da edição em PDF

Como vimos no item anterior, a maior parte dos programas que lida com é movido por ideais . Nestes programas os animais não são valorizados em si, e sim apenas enquanto meio para preservação de espécies e ecossistemas. Contudo, nas últimas décadas, vários autores22 têm defendido que os programas que lidam com animais selvagens deveriam ter como meta o próprio bem dos animais, buscando prevenir e minimizar o seu sofrimento e suas mortes.

Desde o surgimento da ética animal, seja no que diz respeito a animais domesticados ou selvagens, o foco tem sido geralmente os animais prejudicados por práticas humanas. Contudo, um número crescente de autores23 tem chamado a atenção para o modo como os animais são prejudicados por , sobretudo os animais que vivem na natureza, e têm proposto pesquisar meios de diminuir esses danos. O argumento central dessa proposta é o de que, se realmente nos importamos com os animais, não limitaremos nossa preocupação aos danos causados por humanos, pois, para os animais não faz diferença se o que lhes causa mal é um humano ou, digamos, a fome ou doenças. Em termos mais detalhados, o argumento central é o seguinte24: se o que dá razões para evitar prejuízos é o fato de estes serem algo negativo, e se o que dá razões para buscar benefícios é o fato de estes serem algo positivo, então, a força dessas razões depende da magnitude dos prejuízos e benefícios em jogo, e não de se sua origem é antropogênica ou natural. Em outras palavras, temos razões para priorizar evitar o prejuízo maior e para buscar o benefício maior, independentemente de terem origem em práticas humanas ou em processos naturais. Assim, a situação dos animais selvagens vítimas de processos naturais é tão importante quanto seria se fossem danos antropogênicos equivalentes.

Nesta seção e nas próximas duas veremos o debate sobre a proposta de reduzir o sofrimento e as mortes dos animais selvagens25. Neste item discutiremos as objeções26 que afirmam que não há necessidade de ajudá-los e as respostas que têm sido dadas a essas objeções.

Objeção Como a objeção tem sido respondida
Não há necessidade de ajudar os animais na natureza: basta parar de prejudicá-los, pois, se deixarmos a natureza seguir o seu curso, os animais geralmente terão vidas predominantemente positivas. (VII, cap. 3).Os animais na natureza são altamente prejudicados pelos processos naturais. Desnutrição, fome, sede, doenças, lesões físicas, estresse psicológico, eventos meteorológicos hostis, desastres naturais e vários tipos de conflitos entre animais são a norma na natureza. Além disso, a vasta maioria das espécies de animais se reproduz maximizando os filhotes (em ninhadas que vão desde milhares até muitos milhões, dependendo da espécie). Em períodos de aproximada constância populacional, é possível deduzir que, em média, a cada geração está sobrevivendo um único descendente por adulto (isto é, apenas dois por ninhada). Todo o restante da ninhada nasce geralmente apenas para experimentar sofrimento extremo e morrer de modo bastante 27 prematuro. Por conta desses fatores, a quantidade de animais que sofrem e morrem em decorrência dos processos naturais é tão gigantesca que faz até mesmo os números da exploração animal ficarem pequenos em comparação28.
Muitos ovos são destruídos antes de formarem seres sencientes. Assim, poucos animais são prejudicados. (VII, cap. 3).Mesmo que isso acontecesse com a vasta maioria dos ovos, ainda seria uma quantidade gigantesca de indivíduos que nasceria para viver uma vida na qual predomina largamente o sofrimento. Por exemplo, mesmo que 90% dos 2 milhões de ovos da posta de um bacalhau fossem destruídos antes de formarem seres sencientes, os 10% restantes ainda seriam 200.000 indivíduos.
A maioria dos animais morre muito jovem, e nesse estágio ainda são pouco capazes de sofrer. Portanto, são pouco prejudicados pelo que lhes acontece. (VII, cap. 3).Não há evidências de que, por serem muito jovens, sejam pouco capazes de sofrer. Pelo contrário, dado que a maior parte desses animais é precocial, é bem provável que sua capacidade de sentir seja muito aguçada nesse estágio, pois, do contrário, 29 provavelmente tais espécies não mais existiriam. E mesmo que fossem pouco capazes de sofrer, isso não quer dizer que foram pouco desafortunados, pois a morte prematura agrava o dano da morte (viveram vidas curtas e repletas de sofrimento).
Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume XII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Por que, em populações estáveis, quase toda a ninhada morre cedo?

Os filhotes muito jovens são pouco capazes de sofrer?

Para pensar

Quantos filhotes você acha que nascem para cada adulto que você vê na natureza?

Notas do autor 8
  1. 22 Ver por exemplo (1984), (1996), (2003), (2010, 2017), (2015), (2015), (2015), (2016), (2020) e (2022). ↩
  2. 23 Ver nota anterior. ↩
  3. 24 Para o argumento em detalhes, ver o capítulo 5 do Volume VII desta coleção. ↩
  4. 25 Este foi o tema do Volume VII desta coleção. ↩
  5. 26 Para objeções à proposta, ver Taylor (1986), (1980), Baldner (1990), Kirkwood e Sainsbury (1996), (2001), et. al. (2003), Clement (2003), Simmons (2009), Hills (2010) e Groff e Ng (2019). ↩
  6. 27 Para uma análise detalhada sobre essa questão, ver Horta (2010) e Cunha (2022). ↩
  7. 28 Para uma comparação, ver Tomasik (2019). ↩
  8. 29 Sobre senciência em animais juvenis, ver (2022). ↩
Fontes citadas neste texto 23

A lista completa do volume está em referências do Volume XII.

  • BALDNER, K. Realism and Respect. Between the Species, v. 6, n. 1, p. 1-7, 1990.
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  • TAYLOR, P. Respect for nature. Princeton: Princeton University Press, 1986.
  • TOMASIK, B. How Many Animals are There? Essays on Reducing Suffering, 07 ago. 2019.
  • TOMASIK, B. Why digital sentience is relevant to animal activists. Animal Charity Evaluators, 03 fev. 2015.
  • TORRES ALDAVE, M. The Case for Intervention in Nature on Behalf of Animals. A Critical Review of the Main Arguments against Intervention. Relations: Beyond Anthropocentrism, v. 3, n. 1, p. 33-49, 2015.
  • ÉTICA ANIMAL. O desenvolvimento da senciência em animais juvenis. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 12 abr. 2022c.

Aprofunde cada ponto

Os capítulos indicados pelo autor nos quadros acima.

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