Questão
de Ética
EN

Volume XII · O essencial sobre ética animal · capítulo 8

O debate sobre a proposta de ajudar os animais selvagens (parte 2)

17 min de leituraNível básico2 notas3 fontes

Selecione um trecho para destacar, anotar ou compartilhar
Primeira vez neste assunto? Leia antes a versão simplificada, em linguagem para quem está começando (2 min).

Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original

A segunda parte das objeções à ajuda aos animais selvagens nega a nossa responsabilidade ou questiona a praticidade; o quadro responde a cada uma e inclui a simulação do debate sobre a matança altruísta e o debate sobre a expansão da natureza.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume XII, p. 28 da edição em PDF

Nesta seção veremos a última parte das objeções mais comuns à proposta de diminuir o sofrimento e as mortes dos que tem origem em e as respostas que têm sido dadas a elas. Discutiremos agora objeções que negam que sejamos moralmente responsáveis por fazer algo, ou que questionam a praticidade de tal proposta.

Objeção Como a objeção tem sido respondida

É errado ajudar, Mesmo se fosse esse o caso, isso significaria apenas que não há dever de pois a humanidade ajudar (e não, que é errado ajudar). Ajudar poderia ser ainda é moralmente permissível, ou mesmo louvável. Além disso, poderia ser dito que somos responsável apenas moralmente responsáveis por uma decisão toda vez que ela for por práticas determinante para os resultados serem dessa ou daquela maneira, e isso humanas. não se limita a práticas humanas. Por exemplo, se os médicos têm (VII, cap. 21) obrigação de atender vítimas de doenças causadas naturalmente, então é falso que somos moralmente responsáveis apenas por práticas humanas.

Não temos relação próxima com esses animais. Por isso, a humanidade não tem obrigação de destinar recursos para ajudá-los. (VII, cap. 21)A ausência de relação próxima é insuficiente para mostrar que a humanidade não tem obrigação de destinar recursos para ajudá-los, pois nossa decisão por ajudar ou não ajudar, mesmo que à distância, influencia diretamente em sua situação (o mesmo acontece em relação a vítimas humanas de desastres naturais em locais distantes, por exemplo). Também não temos relação de proximidade com os animais explorados, mas isso não faz com que deixemos de ter obrigação de não prejudicá-los, pois nossa decisão à distância afeta-os diretamente. Entretanto, o mesmo é verdade em relação aos animais que estão na natureza.
Há um dever geral de ajudar, mas não essa causa em especial. (VII, cap. 21)Rejeitaremos essa posição se aceitarmos que devemos priorizar as causas proporcionalmente ao número de vítimas, ao montante total de sofrimento e ao grau com que a causa é negligenciada. Segundo esses critérios, a causa que visa diminuir o sofrimento dos animais selvagens deveria receber uma grande atenção.
A proposta é exigente demais. (VII, cap. 21)Tal proposta exigiria muito pouco de cada pessoa, pois quem faria as intervenções seriam os profissionais que já trabalham nesse campo (como biólogos e etólogos). Cada pessoa teria apenas o dever de chamar a atenção para a importância dessa questão e reivindicar que recursos fossem empregues em tratá-la. Os profissionais das ciências da vida, por sua vez, continuariam a fazer o seu trabalho normalmente, com a diferença que agora suas pesquisas seriam direcionadas por uma preocupação direta com o bem dos animais.
Ajudar os animais domesticados é prioritário, pois temos uma dívida histórica para com eles por conta da domesticação. Por isso, não devemos ajudar os animais selvagens. (VII, cap. 22).Mesmo se ajudar os animais domesticados fosse prioritário, isso não fundamentaria negar o dever de ajudar os animais selvagens (muito menos proibir ajudá-los). Além disso, se a prioridade depende do quão grave é a situação das vítimas e do número de vítimas, isso não necessariamente coincide com o critério da dívida histórica. Cada animal selvagem experimenta também sofrimento extremo, e estão em quantidade vastamente maior do que os domesticados. Por fim, também poderia ser argumentado que temos uma dívida histórica para com os animais selvagens, pois os benefícios de que desfrutamos surgiram de intervenções na natureza, e deixamos os animais selvagens sujeitados aos processos naturais.
Essa proposta deve ser rejeitada porque envolveria esterilização, e os animais têm direito de não sofrer interferência no próprio corpo contra sua vontade. (VII, cap. 29).Três respostas. (1) Há formas de minimizar os danos naturais que não envolvem esterilizar: vacinar, tratar doenças, fornecer água, comida, abrigo, socorro em desastres naturais, não recriar as condições para a maximização dos nascimentos etc. (2) Respeitar o alegado direito à não esterilização resultaria em muito mais sofrimento e mortes do que não respeitá-lo (pois implicaria a maximização de seres que nasceriam apenas para sofrer e morrer prematuramente), e violaria então a integridade física e a vida de (muitos) terceiros. (3) A esterilização de animais como cães e gatos (que tem em média 4 ou 5 filhotes por ninhada) é amplamente aceita por defensores dos animais. No caso dos animais selvagens que têm milhares ou milhões de filhotes por ninhada, temos razões muito mais fortes para justificar a esterilização.
Não há o que fazer para ajudar. (VII, cap. 26).Os animais já vem sendo ajudados com vacinação e tratamento de doenças, em incêndios e em outros desastres naturais, com assistência a animais órfãos, resgate de animais presos e programas para atender as necessidades básicas dos animais31.
Não há o que fazer em larga escala (VII, cap. 18, 24, 31, 36, 37).Muitas coisas poderiam ser feitas em larga escala. Por exemplo, poderiam ser estudados quais elementos no ambiente tendem a reduzir a produtividade primária (e, por conseguinte, o sofrimento total). Além disso, poderiam ser evitadas as práticas humanas que contribuem para que os processos naturais maximizem a quantidade de nascimentos (e, por conseguinte, o sofrimento). Só isso já reduziria enormemente a quantidade de animais que nasceria apenas para sofrer.
Não há como ajudar todos. Logo, não devemos ajudar nenhum. (VII, cap. 25).Sim, é verdade que não há como ajudar todos. Mas, para cada animal ajudado, a ajuda faz toda diferença. Também não há como ajudar todos os animais domesticados, nem todos os humanos, mas isso não implica que não devemos ajudá-los. Algo assim só é dito no caso da ajuda a animais não humanos por conta da prevalência do especismo. Cada um de nós não rejeitaria ser ajudado só porque não é possível ajudar a todos os que precisam. Portanto, tal posição viola a imparcialidade.
Devemos primeiro resolver os problemas que os humanos causam aos animais. Se não conseguimos resolver nem os problemas que os humanos causam aos animais, que dirá resolver os danos causados por processos naturais. (VII, cap. 25).Se nossa meta é ajudar da maneira mais eficiente possível não devemos nos basear na origem do dano (se é ou não causada por humanos), e sim, na quantidade de benefício que poderia ser produzido com cada estratégia. Não é necessário resolver todos os (ou mesmo algum dos) problemas causados por humanos para fazer algo pelos animais vítimas de processos naturais. Ajudar animais vítimas de processos naturais não é necessariamente mais difícil do que ajudar animais vítimas de práticas humanas. Na verdade, em alguns casos pode ser mais fácil, pois a resistência pode ser menor. O que devemos fazer é investigar onde nossos recursos, se aplicados, produziriam um bem maior (por exemplo, ajudariam mais vítimas, ou ajudariam as que estão na pior situação etc.), e não, investigar se o dano teve origem em práticas humanas ou em processos naturais.
O problema tem tantas vítimas que, mesmo que conseguíssemos ajudar em larga escala, ainda seria uma porcentagem pequena do problema (VII, cap. 25).A porcentagem não importa, e sim, a quantidade real de benefício que poderíamos produzir. Por exemplo, suponha que com um mesmo recurso podemos, ou ajudar 90% dos animais do problema A, ou ajudar em igual medida 0,1% dos animais do problema B (que estão todos em uma situação igualmente ruim à dos animais do problema A). Se nos guiarmos pela porcentagem, ajudaremos os 90%. Mas, suponhamos que o problema A tenha um trilhão de animais, e o problema B tenha um quatrilhão. O ponto é: 90% de um trilhão são 900 bilhões, enquanto 0,1% de um quatrilhão é um trilhão. Resolver 0,1% do problema B é ajudar 100 bilhões de animais a mais, com o mesmo recurso.
E difícil prever as consequências de longo prazo. Ajudar poderia piorar as coisas ainda mais. Melhor não tentar ajudar. (VII, cap. 24).Se é difícil prever as consequências de longo prazo, então não podemos saber que com certeza não ajudar tem as melhores consequências. O que teríamos de fazer é cada vez mais pesquisar a fundo como se dão as interações nos ecossistemas (dos animais entre si e com o seu entorno). Fazendo isso, aumentaria cada vez mais o nosso conhecimento sobre a probabilidade dos desdobramentos de consequências de longo prazo, o que permitiria planejar programas de ajuda cada vez mais seguros e eficientes.
A natureza já se equilibra, e isso coincide com o que é melhor para os animais. Melhor não intervir. (VII, cap. 24).Na verdade, naturalmente as populações flutuam enormemente, de maneira quase sempre irregular. Além disso, uma situação pode ser estável e ser terrivelmente ruim para os animais afetados. Por exemplo, situações nas quais ao longo de gerações sobrevivem em média apenas dois filhotes por ninhada são equilibradas nesse sentido mas, dados os tamanhos gigantescos das ninhadas, é também um cenário no qual são maximizados o sofrimento e as mortes prematuras.
Mas, se houvesse menos equilíbrio, haveria ainda mais sofrimento (VII, cap. 24).Não necessariamente. Tudo depende de como o grau de equilíbrio ou desequilíbrio influenciaria outros fatores que afetam diretamente os animais (como a quantidade de nascimentos e em quais espécies, disponibilidade de alimentos e de abrigo, quantidade de doenças e de conflitos etc.). Assim, se o objetivo é o melhor para os animais, devemos investigar diretamente esses fatores, e não o grau de equilíbrio. Além disso, como os ecossistemas tendem a se equilibrar em altos níveis de produtividade de plantas e de animais, as perturbações provavelmente tendem a reduzir, em vez de aumentar o sofrimento.
Não devemos ajudar esses animais porque fazê-lo impediria que os genes mais adaptados prevalecessem. (VII, cap. 23).Os traços mais eficientes em passar os genes adiante não necessariamente beneficiam seus portadores ou seus descendentes. Por exemplo, o traço de maximizar a quantidade de filhotes é muito eficiente em maximizar a transmissão genética, mas nascer membro de uma espécie que se reproduz dessa maneira é ter suas chances de sobrevivência drasticamente diminuídas. Além disso, a quantidade de sofrimento e de mortes naturais é tão gigantesca que, mesmo se ajudar os animais implicar em os membros das gerações futuras não terem os genes mais adaptados possíveis, isso ainda teria provavelmente um saldo muito menos negativo do que deixar a natureza seguir o seu curso. Ademais, várias formas de intervenção não impediriam que os genes mais adaptados prevalecessem, como é o caso da esterilização e da pesquisa sobre quais tipos de elementos no ambiente resultam em menor quantidade de nascimentos nas espécies cujos membros comumente têm vidas negativas. Por fim, se fosse aceitável o que a objeção propõe, todos nós deveríamos ser largados à própria sorte para que só os humanos mais adaptados passassem os genes adiante.
Essa proposta não pode ser cientificamente bem informada. (VII, cap. 19, 27).Os dados da ciência da ecologia têm sido usados predominantemente para alcançar metas antropocêntricas e ambientalistas, mas poderiam ser usados também para orientar programas que visam prevenir o sofrimento dos animais. Além disso, à medida que progredisse o desenvolvimento da área da biologia do bem-estar32 (que estudaria os animais em seus ambientes do ponto de vista do que lhes afeta positiva ou negativamente, e não enquanto componentes de ecossistemas ou exemplares de espécies) haveria cada vez mais dados que poderiam informar cientificamente os programas de ajuda.
Não estamos em condições de saber quando uma vida vale ou não a pena. Podemos achar que uma vida não vale a pena e estarmos enganados. Logo, é melhor não intervir. (VII, cap. 32).Imaginemos que nos fosse oferecida a chance de renascermos para viver uma vida repleta de sofrimento extremo. Se não conseguíssemos avaliar que essa vida não vale a pena, ficaríamos em dúvida sobre se vale a pena aceitar tal proposta ou não. A situação da vasta maioria dos animais na natureza é desse tipo. Diante disso poderia ser objetado que, mesmo se a vida de alguém até certo momento foi péssima, ainda é possível melhorá-la. Isso é verdade, mas então essa é uma razão para se tentar ajudar os animais selvagens. Além disso, a meta de melhorar a vida dos seres que já existem não implica rejeitar a meta de prevenir novos nascimentos. Isso porque, quanto maior a quantidade de nascimentos, mais difícil melhorar a vida de cada um dos indivíduos nascidos.
Se as vidas dos animais selvagens são cheias de sofrimento, ajudá-los seria apenas prolongar a sua agonia. Melhor não intervir. (VII, cap. 33).O fato de suas vidas serem repletas de sofrimento deve-se a estarem em um ambiente onde as condições para alguém sobreviver por muito tempo são completamente desfavoráveis. Se criamos condições para que consigam sobreviver por mais tempo, as chances de terem uma vida significativa aumentam. Prolongar suas vidas só resulta em algo pior (do que morrerem) se não fizermos nada para evitar outras formas de sofrimento que estarão sujeitos. Além disso, aquilo que lhes causa sofrimento geralmente também lhes causa a morte. Se oferecermos tratamento para tais males, estaremos a prolongar-lhes a vida, mas também a aumentar os seus níveis de bem-estar. Além disso, também é falso que todas as intervenções prolongam as vidas dos animais: muitas apenas previnem novos nascimentos.
Essa proposta deveria ser rejeitada porque implicaria em proibir tratar o parasitismo (pois fazê-lo mataria muitos para salvar apenas um). (VII, cap. 30).Quando os parasitas não são sencientes, e o hospedeiro é, mesmo que tratar o parasitismo resulte em mais mortes, a situação resultante é melhor, pois a morte não é um dano para tais parasitas. No caso dos parasitas sencientes, teria de ser avaliado se suas vidas seriam minimamente significativas. Se não forem (e não for possível torná-las), então a morte não é para eles um dano maior do que continuarem vivos. Mesmo se em certo caso os parasitas fossem mais prejudicados se morrerem, e a decisão correta for não tratar o hospedeiro, ainda assim, não se poderia fazer oposição alguma à prevenção de futuros casos de parasitismo (por exemplo, por meio de esterilização), pois deixar de produzir novos seres não é o equivalente de matar seres que já existem. Além disso, não tratar o parasitismo provavelmente resultaria em um maior número de mortes e sofrimento ao longo do tempo. Quase a totalidade dos parasitas se reproduz maximizando a quantidade de filhotes. Se forem sencientes, o resultado disso é também a maximização das mortes e do sofrimento para os próprios membros de tais espécies. Não tratar o hospedeiro resultará nos parasitas continuando a se reproduzir e a infectarem novas vítimas. Isso nos dá razões não apenas para tratar vítimas de parasitismo já infectadas, mas, principalmente, para prevenir o parasitismo em geral. Assim, é falso que a proposta de prevenir os danos naturais proibiria tratar casos de parasitismo.
A situação pode ser saldo positivo: o prazer dos poucos animais que vivem muito pode sobrepassar o sofrimento somado da vasta maioria. (VII, cap. 34).Suponhamos que o saldo total fosse positivo. As razões para diminuir o sofrimento não diminuem por causa disso. Por exemplo, as razões para ajudar humanos morrendo de fome nos países pobres não enfraquecem só porque há humanos abastados nos países ricos. Além disso, mesmo quem acredita que tudo o que importa é o saldo total tem razões para priorizar eliminar sofrimento, pois uma unidade extra de recurso produz maiores aumentos no bem-estar quanto pior for a situação de quem o receberia. Assim, priorizar melhorar a situação dos que se encontram em situação negativa é mais eficiente para aumentar o saldo total.
O debate sobre a expansão da natureza
A proposta que visa prevenir o sofrimento dos animais selvagens decorrente de causas naturais implica que expandir o território natural (florestas, por exemplo) é algo negativo. Por isso, ela é absurda. Devemos expandir o território natural porque os seres sencientes precisam dele enquanto recurso. (VII, cap. 37).A preocupação com seres sencientes (da geração atual e/ou futuras) não aprovaria a expansão, pois a quantidade dos seres que nasceriam apenas para sofrer seria sempre muito maior do que a dos que estão vivos agora ou dos que nasceriam para ter vidas positivas e precisariam do meio ambiente enquanto recurso. A única maneira de defender a expansão é a partir de uma visão segundo a qual é melhor uma história de mundo com uma maior quantidade de sofrimento e de mortes prematuras de seres sencientes. Mas, isso é muito difícil de ser defendido. Poderia ser objetado que expandir o território natural pode ser necessário para prevenir a extinção dos humanos, que são os únicos que podem prevenir os danos naturais. Essa é uma preocupação importante, mas também é possível que a presença humana venha a ter saldo negativo no futuro. Por exemplo, se no futuro a humanidade desenvolver a colonização espacial, recriaria em muitos outros locais os processos naturais que resultam na maximização do sofrimento e das mortes. Portanto, é incerto se a presença humana terá saldo positivo ou negativo ao longo da história. Além disso, mesmo que devamos prevenir a extinção humana, isso não implica necessariamente expandir o território natural, pois existem maneiras de prevenir mudanças climáticas sem criar novos ambientes como florestas. Um exemplo é buscar eficiência no uso de energia e por energias renováveis. Em suma, os casos em que a expansão poderia estar justificada são quando todas as outras opções resultariam em algo ainda pior. Se é que existem tais casos, são uma fração pequena das práticas de expansão do território natural.
Simulação do debate sobre a destruição da natureza
A proposta de reduzir o sofrimento dos animais selvagens implica a matança altruísta? Isto é, implica destruir os habitats naturais (por exemplo, por meio da urbanização)? (VII, cap. 36).Há divergência entre os proponentes de reduzir o sofrimento dos animais selvagens sobre se há ou não essa implicação. A seguir está a simulação de um debate que resume os principais argumentos de cada lado.
Contra a destruição A favor da destruição
Ao destruirmos a natureza (por exemplo, com a urbanização), prejudicaremos muitos animais. O ideal seria reduzir nascimentos, vacinações, tratamento de doenças etc.Esperar por soluções não letais (que podem demorar muito, ou mesmo nunca acontecerm) implicaria na morte e no sofrimento de muito mais animais do que a matança altruísta.
A defesa da matança altruísta faria as pessoas acharem absurda a consideração pelos animais. O efeito disso seria pior do que o efeito de esperar por soluções não letais, pois faria os humanos aumentarem os danos que causam aos animais.Mesmo que a defesa da matança altruísta influencie os humanos a aumentarem os danos que causam aos animais, a destruição de habitats preveniria muito mais sofrimento e mortes do que a soma de todos os danos que os humanos causam.
Até o momento, os danos que os humanos causam são menores do que os danos naturais, mas isso pode mudar no futuro se os humanos expandirem o território natural na Terra ou para fora dela. Se a matança altruísta contribuir para que o sofrimento dos animais selvagens seja ainda mais negligenciado, e isso resulte na expansão da natureza, então a matança altruísta seria pior do que esperar por soluções não letais.Isso mostra apenas que não devemos defender a matança altruísta, mas não que ela não deve ser conduzida (por exemplo, a urbanização poderia continuar). Além disso, se o risco maior é os humanos expandirem o território natural, então esse risco é maior se defendemos que é sempre errado destruir o território natural. A matança altruísta deixa bem claro que expandir o território natural não é algo bom.
Se a humanidade já tende a expandir a urbanização, não há necessidade de se defender a matança altruísta e, como defendê-la também apresenta riscos, melhor não defendê-la.Talvez, mas ainda poderíamos incentivar a pesquisa sobre quais usos do solo têm maiores probabilidades de terem saldo positivo para os animais. Poderíamos incentivar essas mudanças e também mudanças nas práticas de consumo, assim como é feito quanto à exploração animal.
A ideia por trás da matança altruísta é tão distante do senso comum que dificilmente seria aceita (ela apenas criaria rejeição à proposta de diminuir o sofrimento dos animais selvagens). Por isso, o risco de defendê-la é tão alto. Assim, melhor manter uma regra absoluta contra a destruição de habitats naturais.Se explicarmos ao público que menos habitats implica menos sofrimento e mortes, isso pode reduzir entusiasmo com políticas conservacionistas e de expansão do território natural. Suspender tais políticas não envolve gasto nem requer atividade alguma, então pode ser mais fácil de o público aceitar isso do que intervenções para reduzir o sofrimento.
Proponentes da destruição podem estar enviesados de maneira otimista em relação às probabilidades de consequências da matança altruísta. Podem estar enviesados desta maneira porque a matança oferece uma solução rápida. Isso pode fazê-los negligenciar as possíveis consequências negativas por conta de como ela influenciará as decisões de futuros agentes.A inclinação contra intervenções violentas pode fazer com que avaliemos enviesadamente as probabilidades de consequências. Além disso, os danos no caso da matança altruísta ocorreriam por ação, e no caso de esperar por soluções não letais ocorreriam por omissão (mas poderiam ser muito maiores). Assim, devemos desconfiar da preferência por esperar por soluções não letais.

Nos capítulos 6, 7 e 8 vimos de maneira muito resumida um panorama geral do debate sobre as implicações éticas dos danos que os animais padecem em decorrência dos processos naturais. Como você deve ter percebido, é um debate repleto de nuances, e com questões que desafiam em alto grau a percepção comum sobre esse tema. Por isso, vale muito a pena pensar sobre essas questões com calma e mente aberta antes de rejeitar ou aceitar certa posição. Como mencionado, o Volume VII desta coleção discute cada um desses temas em detalhes, e contém muitas outras indicações de materiais que expandem ainda mais a discussão.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume XII
Ver todo o tema

Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Por que a proposta não é exigente demais para cada pessoa?

Entre os proponentes de reduzir o sofrimento selvagem, a matança altruísta é...

Para pensar

Que exemplo de ajuda a animais selvagens você conhecia antes de ler este quadro?

Notas do autor 2
  1. 31 Para uma lista de programas de ajuda que já vem sendo conduzidos, ver (2023 [2020], p. 69-97). ↩
  2. 32 Sobre biologia do bem-estar, ver e (2020) e et. al. (2021). ↩
Fontes citadas neste texto 3

A lista completa do volume está em referências do Volume XII.

  • FARIA, C.; HORTA, O. Welfare biology. In: FISCHER, B. (org.). The routledge handbook Of animal ethics. New York/London: Routledge - Taylor & Francis group, 2020, p. 455-66.
  • SORYL, A. A.; MOORE, A. J.; SEDDON, P. J.; KING, M. R. The Case for Welfare Biology. Journal of Agricultural and Environmental Ethics, v. 34, n. 7, 2021.
  • ÉTICA ANIMAL. Introdução ao sofrimento dos animais selvagens. Oakland: Ética Animal, 2023 [2020].

Aprofunde cada ponto

Os capítulos indicados pelo autor nos quadros acima.

Textos recomendados

Continue no tema O essencial sobre ética animal.

Navegue pelos diferentes temas