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Volume III · Os animais e o dano da morte · capítulo 9

Seriam os animais não humanos pouco prejudicados com a morte?

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O capítulo mostra, com exemplos como o de Bia e a viagem às pirâmides, que a força das nossas razões para buscar o bom e evitar o ruim não depende da conexão psicológica; logo, ela não mostra que os animais são pouco prejudicados com a morte.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume III, p. 33 da edição em PDF

9.1. O apelo à conexão psicológica

Por vezes é defendido que os animais não humanos (ou, pelo menos, muitos deles) são pouco prejudicados com a morte porque, alegadamente, não possuem uma forte com o seu futuro. O que se quer dizer com conexão psicológica é o grau com que são mantidas memórias, traços de caráter, crenças, desejos, intenções etc.

Entretanto, podemos perguntar: por que, para alguém ser bastante prejudicado com a morte, precisaria ter uma conexão psicológica forte com o seu futuro? Uma explicação defende que é porque a conexão psicológica determina a identidade de alguém (isto é, é o que faz com que alguém seja o mesmo indivíduo ao longo do tempo). Vimos já os problemas com essa explicação no capítulo 8. Neste capítulo discutiremos outra explicação, por vezes oferecida. Essa explicação afirma que a conexão psicológica é relevante para determinar a força das razões prudenciais de um indivíduo, mesmo que não seja relevante para determinar sua identidade44.

9.2. O apelo às razões prudenciais

O que se quer dizer com razões prudenciais? São as razões que alguém possui para evitar eventos negativos e para buscar eventos positivos que poderiam acontecer consigo próprio. De acordo com a posição que vamos discutir, a força das razões que alguém possui para evitar ou buscar determinado evento que ocorreria consigo no futuro seria determinada multiplicando-se o quão bom ou ruim é esse evento pela conexão psicológica que manteria com o seu "eu futuro"45.

Segundo essa abordagem, por essa razão, se os animais não humanos tiverem pouca conexão psicológica, não são muito prejudicados com a morte, mesmo que ela os prive de ter experiências bastante satisfatórias.

Vimos no capítulo 7 que uma maneira de questionar esse argumento é negar que os animais não humanos tenham pouca conexão psicológica com o seu futuro. Entretanto, neste capítulo abordaremos outro tipo de crítica: veremos dois contraexemplos que desafiam a ideia de que a conexão psicológica seja importante para a força das razões prudenciais46.

9.3. A força das razões para evitar eventos negativos depende da conexão psicológica?

O primeiro contraexemplo diz respeito à força das razões para evitar eventos negativos.

O caso do mal maior

Imaginemos que Ana descobre que é impossível evitar o mal de Alzheimer no final da sua vida e que, depois de um ano, a doença terá destruído toda a conexão psicológica com quem ela é agora. Além disso, descobre também que sofrerá de uma segunda condição, que lhe trará muita dor. Contudo, é possível escolher em que momento a segunda condição acontecerá: ou depois de o Alzheimer tê-la feito perder toda a sua conexão psicológica, ou antes de ter a doença, enquanto ainda retém uma conexão psicológica forte com quem ela é agora. Entretanto, há uma diferença: se escolher que a segunda condição ocorra depois de perder totalmente a conexão psicológica, a dor será muito mais severa.

Ao que parece, do próprio ponto de vista de Ana, é preferível escolher que a dor aconteça enquanto ela ainda possui uma conexão psicológica forte consigo agora, simplesmente porque a dor será menor. Se o grau de conexão psicológica fosse relevante para determinar a força das razões que alguém tem para buscar evitar um evento negativo que aconteceria consigo próprio no futuro, teríamos de dizer que é preferível para Ana passar pela dor muito mais intensa, escolhendo que ela ocorra depois da perda total da conexão psicológica. Se esse não é o caso, então parece que a força das razões prudenciais para evitar um evento negativo não depende do grau de conexão psicológica.

9.4. A força das razões para buscar eventos positivos depende da conexão psicológica?

O segundo contraexemplo visa mostrar a mesma coisa, mas em relação à força das razões prudenciais para buscar eventos positivos (e, consequentemente, para evitar a morte).

O caso do bem maior

Imaginemos que Bia ainda é uma criança de cinco anos, e tem o desejo de conhecer as pirâmides do Egito. Contudo, imaginemos que, se viajar agora, enquanto possui uma conexão psicológica forte com quem ela é agora, a viagem será prazerosa, mas que será muito mais prazerosa se ela viajar quando for adulta. Contudo, quando for adulta terá uma conexão psicológica muitíssimo fraca com quem ela é agora (suas memórias, traços de caráter, crenças, desejos, intenções etc. terão mudado bastante).

Parece que Bia tem razões prudenciais para preferir fazer a viagem quando for adulta, simplesmente porque a viagem será muito mais prazerosa. Se isso estiver correto, então a conexão psicológica também não é relevante para determinar a força das razões prudenciais que alguém possui para buscar eventos positivos.

Isso sugere que um indivíduo que possui menor conexão psicológica (ou mesmo que não retenha conexão psicológica alguma) não é necessariamente pouco prejudicado com a morte, pois deixar de experimentar os eventos positivos que a morte impediria não lhe é, por isso, pouco prejudicial. Portanto, um apelo à conexão psicológica não parece conseguir mostrar que os animais não humanos são pouco prejudicados com a morte.

9.5. Discutindo respostas aos exemplos

Para efeito de simplificação, chamemos de abordagem multiplicadora aquela que defende que a força das razões prudenciais para buscar/evitar determinado evento deve ser determinada multiplicando-se o quão bom/ruim seria o evento pelo grau de conexão psicológica que alguém manteria entre o tempo presente e o momento em que o evento ocorreria.

Dossena (2024b, p. 86-7) responde ao Caso do Mal Maior defendendo que, ao contrário do que pode parecer, a abordagem multiplicadora não implicaria escolher passar pela dor mais severa. Segundo o autor, isso seria assim porque tal abordagem também levaria em conta os interesses futuros que alguém teria, desde que seja mantido algum grau de relações de unidade prudencial (no caso, algum grau de conexão psicológica) entre o momento presente e o momento futuro em que o interesse será frustrado, mesmo que essas relações de unidade prudencial sejam fracas. Veremos a seguir três problemas com essa resposta.

O primeiro problema é que no Caso do Mal Maior a dor mais forte ocorrerá após a doença ter feito o indivíduo perder totalmente a conexão psicológica com quem é agora. Assim, nesse caso a condição sugerida pelo autor ("desde que haja algum grau de relações de unidade prudencial") não é cumprida. Mas, se o indivíduo ainda tem razões para preferir evitar que a dor ocorra nessa condição simplesmente porque a dor será mais intensa, então o grau de conexão psicológica não é relevante para a força das razões prudenciais (uma vez que nesse caso o grau de conexão psicológica é igual a zero).

O segundo problema é que tanto o Caso do Mal Maior quanto o Caso do Bem Maior reconhecem que a abordagem multiplicadora levaria em conta todos os eventos positivos e negativos que ocorreriam com o indivíduo dali para frente (e, portanto, levaria em conta seus interesses futuros). Entretanto, é importante lembrar, tal abordagem prescreve multiplicar o quão bom ou ruim seria o evento pelo grau de conexão psicológica mantido pelo indivíduo entre o momento atual e o momento em que o evento ocorreria, com vistas a determinar a força das razões prudenciais. E é nesse sentido que tal abordagem teria de dizer que temos razões prudenciais muito fracas, seja para buscar um evento muito bom, seja para evitar um evento muito ruim, caso tais eventos venham a ocorrer em um momento onde já não mantemos uma conexão psicológica forte com quem somos agora. No Caso do Mal Maior, onde o indivíduo não retém nenhuma conexão psicológica com o momento atual, tal abordagem teria que dizer que o indivíduo não tem razão alguma para evitar a dor mais forte.

O terceiro problema é que, se como o autor reconhece, temos razões para evitar a dor maior, mesmo que no momento em que ela ocorreria teríamos pouca (ou mesmo nenhuma) conexão psicológica com quem somos agora, então a resposta que o autor oferece ao Caso do Mal Maior, em vez de mostrar que o grau de conexão psicológica é importante para a força das razões prudenciais, enfatiza exatamente o contrário (que é exatamente o que o Caso do Mal Maior visa enfatizar): que o que importa para a força das razões prudenciais é saber o quão bom ou ruim seria o evento, e não, o grau de conexão psicológica que manteríamos entre o momento atual e o momento em que o evento ocorreria.

O autor reconhece que sua resposta é incompatível com a ideia de que a força das razões prudenciais é uma função entre o valor/desvalor do evento futuro e a força das relações de unidade prudencial (no caso, o grau de conexão psicológica)47. Ele sugere como solução para isso reconhecer que qualquer evento futuro negativo ou positivo já fornece razões prudenciais significativas, mas que, se o grau de conexão psicológica for menor entre o presente e esse futuro, essas razões teriam um peso um pouco menor48.

O problema com essa saída é que, se essas razões teriam um peso menor, então não deveríamos concluir que é melhor evitar o mal maior, uma vez que ele ocorreria depois de termos perdido toda a conexão psicológica. Já o mal menor ocorreria quando ainda temos uma conexão psicológica forte e, segundo a solução oferecida pelo autor, teríamos que dizer que as razões para evitá-lo seriam mais fortes do que para evitar o mal maior.

Além disso, a resposta oferecida pelo autor não explica a importância do grau de conexão psicológica para a força das razões prudenciais. Na verdade, o que a resposta sugere é que, se mantivermos que o grau de conexão psicológica é muito menos relevante para a força das razões prudenciais, então não vamos chegar à conclusão de que é racional escolher passar por uma dor muito maior. Mas, isso não é mostrar que o grau de conexão psicológica é relevante para a força dessas razões, nem mesmo em um grau menor49.

Dossena (2024a, 2024b) fez uma análise bastante honesta e minuciosa, tanto da posição defendida aqui quanto da posição que os contraexemplos que ofereci visam criticar. Entretanto, segundo entendo, as respostas oferecidas pelo autor muito mais se aproximam da posição defendida aqui do que salvam o critério do grau de conexão psicológica. Se é assim, então parece que se mantém de pé a tese de que os indivíduos (incluindo animais não humanos) podem ser gravemente prejudicados com a morte por conta de fatores que tem a ver unicamente com aquilo que perderiam de desfrutar se morressem, independentemente do grau de conexão psicológica que manteriam ao longo do tempo.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume III
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

O exemplo de Bia sugere que...

O capítulo discute as respostas de qual autor aos seus exemplos?

Para pensar

Que coisa boa você planeja para daqui a muitos anos, quando provavelmente será bem diferente de hoje?

Notas do autor 6
  1. 44 Essa visão é defendida por (2002, p. 43, 66-9, 75-80). ↩
  2. 45 McMahan (2002, p. 80). ↩
  3. 46 Exemplos similares podem ser encontrados em (2022, cap. 3.9.6). Um exemplo similar ao primeiro, mas focado também em outros aspectos, pode ser encontrado em (2017, p. 907). ↩
  4. 47 Ver Dossena (2024b, p. 88) ↩
  5. 48 Id. ↩
  6. 49 Dossena (2024b, p. 88) defende a importância de tal critério apontando que ele evita a implicação de que a morte de fetos já sencientes é uma tragédia maior que a morte de crianças, ponto que discutimos no capítulo 6. ↩
Fontes citadas neste texto 5

A lista completa do volume está em referências do Volume III.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Comê-los beneficia-os, pois os faz nascer, e a morte de um é anulada pelo nascimento de outro. (III, cap. 8 e 9; IV, cap. 7).
Se isso justificasse matar alguém, então todos os pais teriam direito de matar os filhos, desde que fizessem nascer outros para substituí-los. O mal de matar alguém que já existe é mais grave do que deixar de produzir novos seres, pois no primeiro caso já há um indivíduo que é prejudicado, enquanto que no segundo caso o que há são apenas inúmeras possibilidades futuras de seres sencientes.
São pouco prejudicados com a morte porque possuem uma conexão psicológica fraca com o seu futuro (pois suas mentes são mais simples). O grau de conexão psicológica depende do grau de memórias, intenções, desejos, etc. em comum entre dois instantes. (III, cap. 9).
Duas críticas: (1) O fato de suas mentes serem mais simples pode implicar uma maior conexão psicológica, pois os seus conteúdos mentais variariam menos, e então a proporção de conteúdos mentais em comum nos diversos momentos seria maior (ainda que a quantidade de conteúdos em comum possa ser menor). (2) Possuir um alto grau de conexão psicológica (ou mesmo alguma conexão psicológica) não é necessário para alguém ser bastante prejudicado com a morte. Por exemplo, se alguém viveu pouco, e teria pela frente um futuro com experiências bastante positivas, parece que é prejudicado em alto grau se morrer (devido à morte impedir essas experiências), e isso independe do grau de conexão psicológica que teria com o seu eu futuro.

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