Volume III · Os animais e o dano da morte · capítulo 8
Discutindo a alegação de que os animais são substituíveis
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
A ideia de que os animais são substituíveis, isto é, de que matar um não é errado se outro de vida igualmente boa nascer no lugar, falha: autorizaria pais a substituir filhos e confunde ser "o mesmo" qualitativamente com ser o mesmo indivíduo.
Se um cachorro morre e você ganha outro igualzinho, o primeiro continua tendo perdido a vida dele. Cada um é único para si mesmo, mesmo que pareça igual a outro.
Se alguém quebra o seu celular e lhe dá outro modelo igual, você está compensado. Mas uma vida não é um aparelho: quem morreu não recebe a vida do outro.
- P1 A tese diz que matar um animal é compensado pelo nascimento de outro com vida igualmente boa.
- P2 Se valesse, autorizaria matar crianças desde que outras nascessem para substituí-las.
- P3 Matar quem já existe prejudica alguém; deixar de criar um novo ser não prejudica ninguém que já exista.
- C Logo, os animais não são substituíveis.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Se eu não comer, esses animais nem nasceriam. Um morre, outro nasce: fica tudo igual.”
Resposta Para o animal morto, nada fica igual: ele perde a vida. O raciocínio permitiria a pais matar filhos desde que tivessem outros.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume III, p. 30 da edição em PDF
Por vezes é defendido que não há nada de errado em matar animais não humanos, desde que tenham levado uma vida significativa até então, sejam mortos de maneira indolor e sejam substituídos por outros que nasceriam para ocupar o seu lugar e levar vidas igualmente positivas (e assim o ciclo continuaria). Esse argumento por vezes é utilizado para defender o uso de animais para consumo. É comumente dito que consumir os animais é beneficiá-los, pois "de outra forma não nasceriam". Chamemos essa posição de defesa da substituição.
Uma maneira de responder a essa posição é apontar que os animais criados para consumo vivem vidas repletas de sofrimento extremo e são mortos de maneiras brutais, e outros animais os substituem nascendo para viver naquele mesmo inferno. Portanto, seria ridículo dizer que foram beneficiados por nascerem em tal contexto. Porém, o proponente da substituição poderia dizer que a sua proposta é justamente reformar o sistema de para que aquelas condições ideais aconteçam na prática e os animais vivam vidas boas. É claro, é duvidoso que isso seria possível na prática. Entretanto, independentemente disso, também é possível desafiar a ideia de que os animais são mesmo nas condições ideais que o argumento assume. É isso que veremos neste capítulo.
Comecemos por perguntar por que alguém pensaria que os animais são substituíveis. Uma das razões é a crença de que os animais não são prejudicados com a morte. Mas, novamente, podemos perguntar: por que alguém pensaria isso? Neste capítulo examinaremos uma das explicações mais frequentemente dadas pelos proponentes da substituição: a explicação centrada na identidade (no capítulo 9 discutiremos outra explicação por vezes dada: a explicação centrada nas razões prudenciais).
A explicação centrada na identidade afirma que o que faz alguém ser o mesmo indivíduo ao longo do tempo é sua 40. Com base nisso é defendido que seres que não possuem um sentido temporal de si (isto é, não possuem memórias nem conseguem se imaginar no futuro) são substituíveis41. A razão para isso seria que, se um ser que não possui um sentido temporal de si não é o mesmo indivíduo ao longo do tempo, então tanto faz
manter esse corpo vivo ou matá-lo e fazer nascer outro: de qualquer maneira, o indivíduo que existe agora é aniquilado (a diferença será apenas se o novo indivíduo nascerá neste mesmo corpo ou em outro).
Uma primeira crítica possível a esse argumento é apontar que, mesmo se ele fizesse sentido, só poderia justificar a substituição de seres que não possuem conexão psicológica alguma, e esse não é o caso da vasta maioria dos animais (se é que é o caso de algum).
Já uma segunda crítica é direcionada à própria ideia de que a identidade de um indivíduo é determinada pela sua conexão psicológica. A crítica sugere que essa ideia confunde dois sentidos do termo "o mesmo"42. Faz sentido afirmar que alguém que perdeu suas memórias "não é mais o mesmo" qualitativamente, isto é, no sentido de ser muito diferente psicologicamente do que era antes. Contudo, isso não significa que seja outro indivíduo numericamente a ocupar aquele corpo e que o indivíduo anterior foi aniquilado. Não é outra consciência a experimentar o mundo: é o mesmo indivíduo, só que não se lembra. Se for assim, então a conexão psicológica não determina a identidade numérica de um indivíduo.
Vejamos um exemplo para ilustrar esse ponto43. Imaginemos que Ana tem toda a sua conexão psicológica copiada para um novo corpo. Quando o novo corpo começa a funcionar, surge um novo indivíduo: AnaB. Esse novo indivíduo, por ter a conexão psicológica de Ana, acredita que é Ana, e se lembra de tudo o que Ana experimentou até aquele momento como se ela própria tivesse experimentado.
Imagine também que AnaB é idêntica fisicamente à Ana, e tem todos os trejeitos dela. Quando AnaB caminha nas ruas, as pessoas pensam que é Ana. Entretanto, lembre-se que a Ana original não morreu. Estão vivas Ana e AnaB. Se a conexão psicológica determinasse a identidade individual, Ana e AnaB seriam o mesmo indivíduo. Mas, parece claro que são dois indivíduos distintos, apesar de terem a mesma conexão psicológica, pois são duas consciências distintas: o que uma experimenta, a outra não experimenta; as decisões de uma têm efeito apenas sobre o movimento do próprio corpo e não sobre o corpo da outra etc. Isso sugere que não é a conexão psicológica que determina a identidade de um indivíduo.
Vejamos um segundo exemplo. Imagine que, assim como no caso de Ana acima, você terá toda a sua conexão psicológica copiada para um novo corpo, que ainda não entrou em funcionamento. Como no exemplo anterior, a pessoa que estará no novo corpo se lembrará de todas as suas experiências e pensará que é você. Entretanto, aconteceu um imprevisto. Ao copiarem a sua conexão psicológica para o novo corpo eles sem querer apagaram a sua conexão psicológica no seu cérebro. Agora, está vivo o novo indivíduo, no outro corpo, que lembra que é você e pensa que é você. Também está vivo você, que não lembra quem é. A pergunta é: onde você se encontra, no novo corpo ou no antigo?
Parece claro que é no corpo que você já estava, que agora já não tem a conexão psicológica que tinha, pois é você, sua consciência, quem estará ali experimentando tudo o que aquele corpo experimentar dali para frente, mesmo que você não lembre de nada do seu passado. A outra pessoa no novo corpo lembra que é você e pensa que é você, mas está enganada, pois é outra consciência, apesar de ter a mesma conexão psicológica. Assim, esse exemplo também sugere que a identidade de um indivíduo não é determinada pela sua conexão psicológica.
Se o que esses exemplos sugerem estiver correto, então uma das principais defesas da ideia de que certos animais são substituíveis (a explicação centrada na identidade) tem sérios problemas.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
A crítica centrada na identidade diz que o argumento confunde...
O argumento da substituibilidade é usado para defender...
Para pensar
Algum ser vivo que você ama poderia ser "substituído" por outro igual sem perda para ele?
Notas do autor 4
- 40 Essa visão é normalmente atribuída à (1975 [1694], p. 335), mas foi defendida também por vários filósofos no século XX. Para uma lista desses autores, ver Olson (2021). ↩
- 41 Defesas da substituição podem ser encontradas em Ferré (1986, p. 399); (2002 [1993], p. 128-143); (1996, p. 100) e (1999, p. 238-9). ↩
- 42 Sobre essa distinção, ver Noonan e Curtis (2018). ↩
- 43 Essa é uma adaptação de um exemplo oferecido por (1984, p. 199-203). ↩
Fontes citadas neste texto 7
A lista completa do volume está em referências do Volume III.
- FERRÉ, F. Moderation, Morals and Meat. Inquiry, v. 29, p. 391-406, 1986.
- HARE, R. M. Why I Am Only a Demi-Vegetarian. In: JAMIESON, D. (org.). Singer and His Critics. London: Blackwell, 1999, p. 233-246.
- LOCKE, J. An Essay Concerning Human Understanding. Oxford: Clarendon Press, 1975 [1694].
- NOONAN, H; CURTIS, B. Identity. In: ZALTA, E. N. (org.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy, Summer 2018 Edition.
- OLSON, E. T. Personal Identity. In: ZALTA, E. N. (org.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy, Spring 2021 Edition.
- PARFIT, D. Reasons and persons. Oxford: Oxford University Press, 1984.
- SCRUTON, R Animal rights and wrongs. London: Metro, 1996. . SINGER, P. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1993].
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Comê-los beneficia-os, pois os faz nascer, e a morte de um é anulada pelo nascimento de outro. (III, cap. 8 e 9; IV, cap. 7).
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