Volume III · Os animais e o dano da morte · capítulo 7
Os animais teriam uma conexão psicológica menor?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Mesmo que a conexão psicológica com o futuro importasse para o dano da morte, mentes mais simples podem ter uma conexão proporcionalmente maior, pois os seus conteúdos variam menos; e ter conexão forte nem parece necessário para ser muito prejudicado.
Algumas pessoas dizem que os animais "não se lembram" de quem foram, então morrer não é grave. Mas uma mente mais simples pode mudar menos ao longo do tempo, ficando até mais "ligada" a si mesma.
Uma estante com dez livros que mantém nove deles de um ano para o outro mudou menos do que uma biblioteca com mil livros que manteve quinhentos. Ter menos não quer dizer manter menos em proporção.
- P1 A objeção diz que os animais têm conexão psicológica fraca com o futuro, e por isso são pouco prejudicados com a morte.
- P2 Mentes mais simples tendem a variar menos, o que pode significar maior proporção de conteúdos em comum.
- P3 Além disso, alguém que viveu pouco e teria um bom futuro é muito prejudicado ao morrer, seja qual for a sua conexão psicológica.
- C Logo, a conexão psicológica não mostra que os animais são pouco prejudicados com a morte.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “O animal vive no presente, não tem um "eu" futuro.”
Resposta Mesmo assim ele terá experiências no futuro, e é delas que a morte o priva. E viver mais no presente pode até significar uma continuidade psicológica maior.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume III, p. 28 da edição em PDF
Por vezes é defendido que, para alguém ser bastante prejudicado com a morte, tem de manter uma forte com o seu futuro36. Por conexão psicológica quer-se dizer o grau com que são mantidas memórias, traços de caráter, crenças, desejos, intenções etc.
Proponentes dessa visão afirmam que os animais não humanos (ou, pelo menos, muitos deles), por possuírem uma menor complexidade cognitiva, possuem uma conexão psicológica muito fraca e, portanto, quase não são prejudicados com a morte: "é quase como se o futuro que perdem ao morrer fosse o futuro de outro alguém37". Essa ideia por vezes é utilizada para defender que não haveria nada de muito errado em matá-los ou em deixar de salvar suas vidas.
Uma crítica possível a essa visão é questionar a afirmação de que, para alguém ser gravemente prejudicado com a morte, é necessário manter uma conexão psicológica forte com o seu futuro. Voltaremos a essa crítica no capítulo 9.
Neste capítulo veremos outro tipo de crítica possível a essa posição: questionar a afirmação de que seres com menores capacidades cognitivas possuem pouca conexão psicológica com o seu futuro38. Veremos a seguir um exemplo que ilustra essa crítica39.
Suponhamos que A no instante T1 tenha 10 conteúdos mentais e no instante T2 tenha também 10, mantendo 9 dos que já estavam em T1 e trocando um único conteúdo. Já B também tinha 10 conteúdos mentais em T1, e em T2 manteve todos os 10, mas ganhou outros 90.
| Indivíduo | Conteúdos mentais em T1 | Conteúdos mentais em T2 | Conteúdos em comum | Novos conteúdos | Proporção mantida |
| A | 10 | 10 (9+1) | 9 | 1 | 90% |
| B | 10 | 100 (10+90) | 10 | 90 | 10% |
Se o grau de conexão psicológica for medido a partir da quantidade de conteúdos mentais em comum, B tem maior conexão psicológica (10 conteúdos em comum, em comparação a 9 conteúdos de A).
Por outro lado, se o grau de conexão psicológica depende é da proporção de conteúdos mentais em comum, é A quem possui maior conexão psicológica (manteve 90% de seus conteúdos mentais, enquanto B manteve apenas 10%), apesar de a mente de B ser mais complexa.
Com base nisso poderia ser dito que, se o que o conceito de conexão psicológica visa expressar é o quão parecido psicologicamente alguém é entre um instante e outro, então a forma adequada de medi-la é em termos da proporção de conteúdos mentais em comum, e não de sua quantidade.
Se é assim, então seres cognitivamente menos sofisticados não necessariamente possuem pouca conexão psicológica com o seu eu futuro. Pelo contrário: dada a proporção dos conteúdos mentais de seres cognitivamente menos complexos variar menos, é possível que estejam conectados psicologicamente aos seus futuros de maneira muito mais forte do que estão os seres cognitivamente mais complexos.
Assim, mesmo se o grau de conexão psicológica for relevante para a magnitude do , isso não implica que animais não humanos ou humanos com menores capacidades cognitivas sejam pouco prejudicados com a morte — muito pelo contrário. Além disso, como vimos, também é possível questionar a tese de que o grau de conexão psicológica é relevante para a magnitude do dano da morte. Veremos essa crítica no capítulo 9.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
No exemplo do capítulo, B tem 10 conteúdos em comum e A tem 9. Por que isso não encerra a questão?
O capítulo diz que a conexão psicológica...
Para pensar
Você é "a mesma pessoa" que era aos três anos? Morrer naquela idade teria sido um prejuízo pequeno?
Notas do autor 4
- 36 Ver, por exemplo, a visão de (2002). ↩
- 37 Essa afirmação, na verdade, é feita por McMahan (2002, p. 170) para se referir à morte de crianças pequenas, mas ele aplica a mesma tese para a morte de muitos tipos de animais não humanos. ↩
- 38 Essa crítica pode ser encontrada em (2007, p. 752) e (2016, p. 22). ↩
- 39 Esse exemplo foi adaptado de Faria (2016, p. 22). ↩
Fontes citadas neste texto 3
A lista completa do volume está em referências do Volume III.
- FARIA, C. Animal Ethics Goes Wild: The Problem of Wild Animal Suffering and Intervention in Nature. Tese (Doutorado em Filosofia). Barcelona: Universitat Pompeu Fabra, 2016.
- HORTA, O. Un desafío para la bioética: la cuestión del especismo. Tese (Doutorado em Filosofia). Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, 2007.
- MCMAHAN, J. The Ethics of Killing: Problems at the Margins of Life. Oxford: Oxford University Press, 2002.
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