Volume IV · O debate sobre a exploração animal · capítulo 6
A alegação de que consumir os animais acaba com o sofrimento deles
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Dizer que consumir animais os livra de vidas de sofrimento é uma desculpa: na exploração, o consumo é o que faz nascerem animais para sofrer; e quem a usa não a aplica a humanos nem busca reduzir nascimentos.
Algumas pessoas dizem que comer os animais é um favor, porque a vida deles é ruim. Mas a vida deles é ruim justamente porque as pessoas compram os produtos. Se pararem de comprar, menos animais nascem para sofrer.
Um incendiário que diz que apagar as vítimas é um favor, porque estavam em um prédio em chamas, esquece que foi ele quem pôs fogo.
- P1 O argumento diz que matar os animais é bom para eles, pois os livra de uma vida de sofrimento.
- P2 Na exploração, é a demanda que faz nascerem animais em condições de sofrimento.
- P3 Se a preocupação fosse real, o certo seria deixar de criar animais para sofrer, e não continuar consumindo.
- C Logo, o argumento é uma desculpa para continuar consumindo, e não um motivo real.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Na natureza eles sofreriam mais; pescar e caçar é até um favor.”
Resposta Se fosse por preocupação com eles, buscaríamos formas de reduzir esse sofrimento, não o consumo. E a caça e a pesca não reduzem o número de nascimentos que geram o sofrimento.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume IV, p. 42 da edição em PDF
6.1. Consumir os animais é correto porque acaba com o sofrimento deles?
Por vezes é defendido que devemos consumir os animais por preocupação com eles próprios, alegando-se que. como a vida que os aguardaria seria repleta de sofrimento, consumi-los é fazer-lhes um favor, pois livra-os de tal destino.
De acordo com essa posição isso valeria tanto para os animais criados para serem consumidos (pois, como vimos no capítulo 1, normalmente são criados em condições altamente adversas ao seu bem-estar111) quanto para os que são pescados ou caçados na natureza (pois a vasta maioria dos animais que nasce na natureza têm também vidas repletas de sofrimento).
Isso ocorre na natureza principalmente porque a vasta maioria das espécies de animais possui ninhadas gigantescas, com milhares ou mesmo milhões de filhotes dependendo da espécie (algo comum em anfíbios, répteis, peixes, crustáceos e invertebrados em geral), o que sempre resulta em taxas de sobrevivência baixíssimas. Por exemplo, uma única ninhada de uma rã comum possui em torno de 25 mil filhotes112; a de polvos, centenas de milhares113; as de salmão, bacalhau e atum, milhões114, e a do peixe-lua chega a 300 milhões115. Invertebrados terrestres também podem colocar centenas, milhares ou mesmo milhões de ovos de uma única vez116. Em períodos de aproximada constância populacional é possível medir a taxa de mortalidade prematura a partir do tamanho da ninhada: se a população permaneceu aproximadamente constante durante algumas gerações, então em média sobreviveu apenas um descendente por adulto (isto é, dois por ninhada, e menos do que isso se há adultos que se reproduzem mais de uma vez na vida). Todo o restante nasce geralmente apenas para experimentar sofrimento intenso e morrer de modo bastante prematuro, muitas vezes sem nunca ter tido experiência positiva alguma117.
Por essas razões, de acordo com a posição que vamos discutir, consumir animais, seja os
criados para este fim, seja os que são capturados diretamente na natureza, beneficia-os justamente por causar-lhes a morte.
6.2. O fato de que consumi-los acabaria com seu sofrimento justifica consumi-los?
Comecemos por analisar a alegação de que consumir os animais que são criados para consumo beneficia-os porque livra-os de uma vida repleta de sofrimento. O fato é: se temos razões para acabar com suas vidas porque estas são repletas de sofrimento, então isso nos dá razões ainda mais fortes para evitar que cheguem a nascer nesse contexto. Ao consumi-los, incentivamos tal produção, fazendo com que novos animais nasçam em tal contexto. Assim, apontar para o fato de que a morte de alguém que vive uma vida repleta de sofrimento livra-o de tal sofrimento não tem a implicação de que, então, criar animais para consumo está justificado. Muito pelo contrário: essa é uma forte razão contra a .
Diante disso poderia ser objetado que, no caso dos animais que nascem na natureza, deixar de consumi-los não evita que novos cheguem a nascer, e como não estamos em condições de optar por fazer com que não cheguem a nascer, o melhor que podemos fazer é matá-los (e pescá-los e caçá-los contribuiria para isso, por exemplo). Entretanto, é falso que não estamos em condições de tentar fazer com que não cheguem a nascer. Por exemplo, poderiam ser conduzidos programas para fazer com que nasçam em menor quantidade. Um exemplo seria por meio da administração de contraceptivos e esterilização, algo que já é feito muitas vezes118. Outro exemplo seria pesquisar quais tipos de vegetação, de solo ou outros componentes do ambiente contribuem para que haja uma menor quantidade de nascimentos nas espécies que maximizam a quantidade de filhotes119. Outra opção seria pesquisar quais animais, se estiverem presentes, contribuem indiretamente para que haja um saldo total de sofrimento menor. Por exemplo, herbívoros de grande porte, como elefantes, consomem uma grande quantidade de vegetação que, se estivesse disponível, contribuiria para haver uma maior quantidade de reproduções naquelas espécies de animais cuja vasta maioria nasce apenas para sofrer e morrer prematuramente120. Assim, proteger grandes herbívoros pode
diminuir muito o total de animais que nasceria apenas para sofrer e morrer prematuramente121. Em resumo, há muitas coisas que poderiam ser feitas para diminuir a quantidade de animais que nasceria na natureza para ter uma vida repleta de sofrimento. Além disso, muito provavelmente essas outras coisas, por atacarem a raiz do problema, seriam mais eficientes para diminuir tais populações do que a caça ou pesca.
Uma possível objeção seria apontar que tudo o que foi sugerido diz respeito a coisas que poderiam ser feitas para prevenir que novos animais nascessem para ter vidas repletas de sofrimento mas que, em relação aos que já nasceram, consumi-los beneficia-os porque faz com que morram, livrando-os de vidas repletas de sofrimento.
Um primeiro problema com essa objeção é que, se a preocupação é realmente com o bem dos animais (como é alegado pela objeção), então em relação aos animais que já nasceram na pecuária industrial o que seria defendido é, por exemplo, ativismo de ação direta para resgatá-los (uma vez que, diferentemente do ato de consumi-los, isso não os mata e nem faz com que novos seres nasçam em tal sistema). Já em relação aos animais que já nasceram na natureza poderia ser estudado como modificar o ambiente para que suas vidas sejam positivas. Isso é algo que poderia ser feito, por exemplo, por estudos na área de 122. Assim, seja lá se estivermos a falar de animais criados para serem explorados, seja lá se estivermos a falar de animais na natureza, apontar que suas vidas são negativas não é suficiente para justificar matá-los, pois a morte só é um benefício se não houver nenhuma outra maneira de melhorar a vida em questão.
Além disso, a principal razão pela qual a vasta maioria dos animais na natureza têm vidas repletas de sofrimento é o fato de morrerem muito prematuramente. Se conseguem viver por mais tempo, normalmente aumentam as possibilidades de experiências positivas. Isso é assim porque normalmente os fatores que lhes causam sofrimento também causam suas mortes. Assim, ao se eliminar uma fonte de sofrimento para um animal, estamos tanto aumentando a probabilidade de ele ter experiências positivas quanto provavelmente aumentando o seu tempo de vida123.
6.3. Conclusão
Seja quanto aos animais criados para serem consumidos, seja quanto aos animais que são capturados na natureza, há outras opções para tentar ajudá-los que não envolveriam matá-los. Isso, por si só, já torna fraca a alegação de que consumi-los está justificado porque acaba com vidas repletas de sofrimento. Além disso, essas outras opções, diferentemente de consumi-los, evitariam que outros animais nascessem para ter vidas repletas de sofrimento (ou, pelo menos, não teriam a implicação de fazer com que mais animais nascessem para ter tal destino).
Isso mostra que a alegação de que devemos consumi-los porque isso os livraria de vidas repletas de sofrimento é, provavelmente, somente uma desculpa para continuar consumindo-os, e não o motivo real pelo qual se defende o seu consumo. Isto é, o que é alegado é uma preocupação com os próprios animais, mas a preocupação real provavelmente é simplesmente o benefício próprio.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Por que, segundo o capítulo, o argumento não se sustenta no caso da exploração?
O capítulo conclui que a alegação provavelmente é...
Para pensar
Se alguém realmente quisesse reduzir o sofrimento dos animais, o que faria em vez de consumi-los?
Notas do autor 13
- 111 Para um relato em detalhes de como sofrem os animais criados para consumo, ver (2017a, p. 65-97). ↩
- 112 Rastogi et al. (1983). ↩
- 113 Boyle e Rodhouse (2005). ↩
- 114 Baum e Meister (1971); Hinckley (1987). ↩
- 115 Froese; Luna (2004). ↩
- 116 Brueland (1995). ↩
- 117 Ver Horta (2010b); (2015b); Animal Ethics (2021, p. 55-9). Para uma discussão detalhada sobre o que deveríamos fazer em relação a essa situação, ver (2022). ↩
- 118 Para uma análise dos programas de esterilização e administração de contraceptivos para redução de populações de animais selvagens na Europa, ver Massei (2023). ↩
- 119 Ver, por exemplo, o estudo realizado por (2018). ↩
- 120 Sobre a relação entre a presença de elefantes e uma redução significativa da biomassa disponível, ver Cumming et al. (1997) e Guldemond; VanAarde (2008). ↩
- 121 Sobre programas de proteção a elefantes e a relação disso com redução do sofrimento dos animais na natureza em geral, ver (2015) ↩
- 122 Sobre biologia do bem-estar, ver Ética Animal (2019b), et. al. (2021) e ; Horta (2022). ↩
- 123 Para uma análise detalhada sobre esse ponto, ver Cunha (2022, p. 259-261) ↩
Fontes citadas neste texto 16
A lista completa do volume está em referências do Volume IV.
- BAUM, E. T.; MEISTER, A. L. Fecundity of Atlantic Salmon (Salmo salar) from two Maine rivers. Journal of the Fisheries Research Board of Canada, v. 28, p. 764-767, 1971.
- BOYLE, P.; RODHOUSE, P. Cephalopods: Ecology and fisheries. Oxford: Blackwell, 2005.
- BRUELAND, H. Highest lifetime fecundity. In: WALKER, T. J. (org.). University of Florida book of insect records. Gainesville: University of Florida, 1995, p. 41-43.
- CUMMING, D. et al. Elephants, Woodlands and Biodiversity in MiomboWoodland in Southern Africa. South African Journal of Science, v. 93, 1997, p. 231-236.
- CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.
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- HORTA, O. Debunking the Idyllic View of Natural Processes: Population Dynamics and Suffering in the Wild. Télos, v. 17, p. 73-88, 2010b.
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- ÉTICA ANIMAL. Dinâmica de populações e o sofrimento dos animais. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 27 out. 2015b.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
A morte os beneficia porque suas vidas, seja na exploração, seja na natureza, seriam repletas de sofrimento. (IV, cap. 6).
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