Volume III · Os animais e o dano da morte · capítulo 4
Quem é incapaz de prazeres intelectuais é pouco prejudicado com a morte?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Dizer que quem não tem prazeres intelectuais é pouco prejudicado com a morte não se sustenta: prazeres intelectuais não são necessariamente mais valiosos, e mesmo que fossem, isso não tornaria os outros prazeres pouco valiosos.
Ler um livro é bom. Abraçar quem a gente ama também é muito bom, e não é "intelectual". Um cachorro não lê, mas adora correr, brincar e ganhar carinho. Perder tudo isso também é perder muito.
Dizer que, por o vinho caro ser melhor, a água não mata a sede é confundir "mais valioso" com "o único valioso".
- P1 O argumento diz que a morte prejudica pouco quem não é capaz de prazeres intelectuais.
- P2 Para isso, teria de mostrar que prazeres não intelectuais são pouco valiosos.
- P3 Mostrar que prazeres intelectuais seriam mais valiosos não mostra isso.
- P4 Além disso, experiências não intelectuais, como estar com quem se ama, podem ser tão valiosas quanto as intelectuais.
- C Logo, os animais não são pouco prejudicados com a morte por não terem prazeres intelectuais.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Um porco não lê nem escuta música; a vida dele vale menos.”
Resposta A vida dele vale para ele, pelas experiências que ele tem. Reencontrar um ente querido depois de anos não é intelectual e pode valer mais que muitas atividades intelectuais.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume III, p. 17 da edição em PDF
Por vezes é defendido que, quanto mais cognitivamente sofisticadas as experiências, mais valiosas elas são e que, por isso, alguém é prejudicado em maior grau se não puder experimentá-las21. Essa visão por vezes é utilizada para defender que, como os animais não humanos não são capazes dos prazeres intelectuais que os humanos adultos normais são capazes, a morte não lhes privaria de algo muito valioso. Segundo essa visão, apesar de os animais não humanos serem prejudicados com a morte, esta seria um dano pequeno a eles e, portanto, não haveria nada de muito errado em matá-los ou em deixar de salvar suas vidas.
O primeiro problema com esse argumento é que é questionável a afirmação de que prazeres intelectuais são necessariamente mais valiosos. Por exemplo, poderia ser dito que uma maneira não arbitrária de averiguar o valor de um prazer é em termos de sua intensidade e de sua duração, em vez de assumir de antemão que determinados tipos de prazeres são necessariamente mais valiosos do que outros.
Nesse sentido, estar perto de alguém de quem se gosta muito (uma experiência não intelectual) e jogar uma partida de xadrez (uma experiência intelectual) podem ser experiências igualmente valiosas para quem as tem, desde que produzam a mesma quantidade de satisfação e durem o mesmo tempo. Por outro lado, a concepção que diz que experiências intelectuais são mais valiosas teria de dizer que, nesse caso, jogar xadrez tem mais valor, mesmo que produza a mesma satisfação (e mesmo que produza menos satisfação!), o que parece tendencioso.
O segundo (e principal) problema é que, mesmo que prazeres intelectuais fossem mais valiosos, isso não implica que prazeres não intelectuais não são valiosos, nem que são pouco valiosos. Portanto, afirmar que prazeres intelectuais são mais valiosos não pode fundamentar a conclusão de que os animais não humanos são pouco prejudicados com a morte. Suas experiências não intelectuais podem ser, assim como acontece no caso humano, muitíssimo gratificantes, e, por isso, podem ser prejudicados com a morte em alto grau por serem impedidos de desfrutá-las.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Qual é o "segundo e principal" problema do argumento?
Para o capítulo, estar perto de quem se gosta e jogar xadrez podem ser...
Para pensar
Quais das experiências mais valiosas da sua vida não foram intelectuais?
Notas do autor 1
Fontes citadas neste texto 3
A lista completa do volume está em referências do Volume III.
- CAVALIERI, P. The Animal Question: Why Nonhuman Animals Deserve Human Rights. Oxford: Oxford University Press, 2001.
- MILL, J. S. Utilitarianism. In: MILL, J. S. Collected Works, vl. X. London: Routledge and Kegan Paul, 1969 [1861], p. 203-59.
- SAPONTZIS. F. In Defense of the Pig. Journal of Animal Ethics, v. 4, n. 1, p. 5-17, 2014.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
São pouco prejudicados com a morte porque não são capazes de prazeres intelectuais, e estes são mais valiosos. (III, cap. 4).
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