Volume III · Os animais e o dano da morte · capítulo 3
Objeções à explicação do dano da morte enquanto impedimento do que é positivo
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
O capítulo examina três objeções à ideia de que a morte é um dano por privação (o problema epistemológico, a assimetria temporal e a dos seres em potencial) e mostra que elas não derrubam a explicação.
Algumas pessoas perguntam: "como saber se a vida que viria seria boa?", "por que não lamentamos o tempo antes de nascer?". O livro mostra que essas perguntas são interessantes, mas não provam que morrer cedo não é ruim.
Não saber com certeza se amanhã fará sol não nos impede de saber que, em geral, vale a pena planejar um passeio. A incerteza sobre o futuro não apaga o que provavelmente perderíamos.
- P1 As objeções apontam a incerteza sobre o futuro, a assimetria entre o tempo antes do nascimento e depois da morte, e os seres que poderiam existir.
- P2 Em geral, podemos estimar se uma vida tende a ser positiva.
- P3 O momento da morte pode ser mudado; o do nascimento, tipicamente não, o que explica a assimetria.
- C Logo, essas objeções não derrubam a explicação do dano da morte como privação.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Não dá para saber se o animal teria uma vida boa, então matá-lo não o prejudica.”
Resposta Na maioria dos casos sabemos bastante: um animal saudável, em boas condições, tende a ter dias bons pela frente. A incerteza também existe para humanos e não autoriza matá-los.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume III, p. 15 da edição em PDF
3.1. O problema epistemológico
Uma objeção à explicação do enquanto é o chamado problema epistemológico16: não podemos ter certeza sobre se a vida que alguém teria pela frente seria predominantemente positiva ou negativa, e então nunca poderemos saber se é melhor continuar vivo ou se é melhor morrer.
Uma resposta a essa objeção é apontar que, apesar de não podermos ter certeza sobre essas coisas, ainda podemos fazer estimativas em termos da probabilidade do que aconteceria. Essas estimativas poderiam ser feitas com base na idade do indivíduo, seu estado de saúde, seus hábitos, a espécie à qual pertence, o contexto em que vive etc.17
3.2. A objeção da assimetria temporal
Outra objeção à explicação do dano da morte enquanto impedimento do que é positivo é baseada no argumento da assimetria temporal: pensamos que somos prejudicados com a morte, mas não que somos prejudicados por não termos nascido antes18. Segundo essa objeção, se a morte fosse um dano devido ao impedimento do que é positivo, deveríamos estar igualmente preocupados por não termos nascido antes, pois isso impediu que experimentássemos várias coisas positivas.
Uma resposta a essa objeção é manter que, embora no sentido lógico seja possível nascer antes, tal coisa não é possível na vida real. Por outro lado, nossa existência futura pode ser prolongada19. Isso, portanto, explica por que é racional se preocupar em evitar de morrer mas não é racional se preocupar com não ter nascido antes. Se pudéssemos fazer com que alguém nascesse antes e isso aumentasse o seu total de experiências positivas, isso seria tão desejável quanto retardar a chegada da morte. Por exemplo se vivêssemos em um planeta que explodirá em seis décadas, mas ainda fosse possível seus habitantes terem vidas significativas até então,
seria melhor nascer o quanto antes, pois nesse caso é o momento do nascimento, e não o da morte, que pode ser mudado20.
3.3. A objeção dos seres em potencial
Outra objeção à explicação do dano da morte enquanto impedimento do que é positivo alega que ela implica que seres em potencial (isto é, seres que poderiam ter existido mas não chegaram a existir) são também prejudicados por não terem existido (desde que a vida que os aguardaria valesse a pena ser vivida). Como isso parece absurdo, conclui a objeção, a explicação do dano da morte enquanto impedimento do que é positivo é inadequada.
Uma possível resposta a essa objeção é manter que a afirmação “o indivíduo x foi prejudicado por ter sido impedido de desfrutar do que é positivo” só faz sentido em relação a seres já existentes, pois somente nesse caso temo indivíduos (e não, várias possibilidades futuras de indivíduos). Por exemplo, se Luciano morre, então, Luciano foi prejudicado por não desfrutar daquilo de positivo que experimentaria se continuasse vivo. Por outro lado, se não temos ainda um indivíduo, mas inúmeras possibilidades de indivíduos futuros, não faz sentido dizer que essa ou aquela possibilidade foi prejudicada por não chegar a existir. Por exemplo, suponhamos que, se um casal concebe um filho neste mês, o indivíduo A nascerá daqui a 9 meses, mas que, se espera o próximo mês, outro indivíduo, B, nascerá. Não faz sentido afirmar que, se decidem esperar o próximo mês, prejudicaram A, uma vez que o indivíduo A não existe (nem nunca existiu, nem nunca existirá; é apenas uma possibilidade) – e vice-versa em relação a B, caso decidam não esperar o próximo mês.
Uma objeção a essa resposta é apontar que, se ninguém é prejudicado caso não chegue a existir, então não temos nenhuma razão para preferir um mundo onde continuam a nascer seres sencientes para ter vidas positivas em vez de um mundo onde não nasce mais nenhum ser senciente. Uma resposta a essa objeção é apontar que ainda poderíamos ter razões para preferir um mundo onde continuam a nascer seres sencientes para ter vidas positivas, mas que essas razões seriam impessoais. Isto é, não seriam razões derivadas da preocupação em evitar de prejudicar esta ou aquela possibilidade futura de ser senciente, e sim, razões derivadas da meta geral de alcançar o melhor resultado.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O "problema epistemológico" diz que...
A objeção da assimetria temporal pergunta...
Para pensar
Você lamenta não ter nascido cem anos antes? Por que lamentaria morrer cem anos antes do que poderia?
Notas do autor 5
Fontes citadas neste texto 3
A lista completa do volume está em referências do Volume III.
- HORTA, O. Un desafío para la bioética: la cuestión del especismo. Tese (Doutorado em Filosofia). Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, 2007.
- LUCRECIO, T. De la naturaleza. Barcelona: Bosch, 1976 [55 a.C].
- MCMAHAN, J. The Ethics of Killing: Problems at the Margins of Life. Oxford: Oxford University Press, 2002.
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