Questão
de Ética
EN

Volume III · Os animais e o dano da morte · capítulo 3

Objeções à explicação do dano da morte enquanto impedimento do que é positivo

3 min de leituraNível intermediário5 notas3 fontes

Selecione um trecho para destacar, anotar ou compartilhar
Primeira vez neste assunto? Leia antes a versão simplificada, em linguagem para quem está começando (2 min).

Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original

O capítulo examina três objeções à ideia de que a morte é um dano por privação (o problema epistemológico, a assimetria temporal e a dos seres em potencial) e mostra que elas não derrubam a explicação.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume III, p. 15 da edição em PDF

3.1. O problema epistemológico

Uma objeção à explicação do enquanto é o chamado problema epistemológico16: não podemos ter certeza sobre se a vida que alguém teria pela frente seria predominantemente positiva ou negativa, e então nunca poderemos saber se é melhor continuar vivo ou se é melhor morrer.

Uma resposta a essa objeção é apontar que, apesar de não podermos ter certeza sobre essas coisas, ainda podemos fazer estimativas em termos da probabilidade do que aconteceria. Essas estimativas poderiam ser feitas com base na idade do indivíduo, seu estado de saúde, seus hábitos, a espécie à qual pertence, o contexto em que vive etc.17

3.2. A objeção da assimetria temporal

Outra objeção à explicação do dano da morte enquanto impedimento do que é positivo é baseada no argumento da assimetria temporal: pensamos que somos prejudicados com a morte, mas não que somos prejudicados por não termos nascido antes18. Segundo essa objeção, se a morte fosse um dano devido ao impedimento do que é positivo, deveríamos estar igualmente preocupados por não termos nascido antes, pois isso impediu que experimentássemos várias coisas positivas.

Uma resposta a essa objeção é manter que, embora no sentido lógico seja possível nascer antes, tal coisa não é possível na vida real. Por outro lado, nossa existência futura pode ser prolongada19. Isso, portanto, explica por que é racional se preocupar em evitar de morrer mas não é racional se preocupar com não ter nascido antes. Se pudéssemos fazer com que alguém nascesse antes e isso aumentasse o seu total de experiências positivas, isso seria tão desejável quanto retardar a chegada da morte. Por exemplo se vivêssemos em um planeta que explodirá em seis décadas, mas ainda fosse possível seus habitantes terem vidas significativas até então,

seria melhor nascer o quanto antes, pois nesse caso é o momento do nascimento, e não o da morte, que pode ser mudado20.

3.3. A objeção dos seres em potencial

Outra objeção à explicação do dano da morte enquanto impedimento do que é positivo alega que ela implica que seres em potencial (isto é, seres que poderiam ter existido mas não chegaram a existir) são também prejudicados por não terem existido (desde que a vida que os aguardaria valesse a pena ser vivida). Como isso parece absurdo, conclui a objeção, a explicação do dano da morte enquanto impedimento do que é positivo é inadequada.

Uma possível resposta a essa objeção é manter que a afirmação “o indivíduo x foi prejudicado por ter sido impedido de desfrutar do que é positivo” só faz sentido em relação a seres já existentes, pois somente nesse caso temo indivíduos (e não, várias possibilidades futuras de indivíduos). Por exemplo, se Luciano morre, então, Luciano foi prejudicado por não desfrutar daquilo de positivo que experimentaria se continuasse vivo. Por outro lado, se não temos ainda um indivíduo, mas inúmeras possibilidades de indivíduos futuros, não faz sentido dizer que essa ou aquela possibilidade foi prejudicada por não chegar a existir. Por exemplo, suponhamos que, se um casal concebe um filho neste mês, o indivíduo A nascerá daqui a 9 meses, mas que, se espera o próximo mês, outro indivíduo, B, nascerá. Não faz sentido afirmar que, se decidem esperar o próximo mês, prejudicaram A, uma vez que o indivíduo A não existe (nem nunca existiu, nem nunca existirá; é apenas uma possibilidade) – e vice-versa em relação a B, caso decidam não esperar o próximo mês.

Uma objeção a essa resposta é apontar que, se ninguém é prejudicado caso não chegue a existir, então não temos nenhuma razão para preferir um mundo onde continuam a nascer seres sencientes para ter vidas positivas em vez de um mundo onde não nasce mais nenhum ser senciente. Uma resposta a essa objeção é apontar que ainda poderíamos ter razões para preferir um mundo onde continuam a nascer seres sencientes para ter vidas positivas, mas que essas razões seriam impessoais. Isto é, não seriam razões derivadas da preocupação em evitar de prejudicar esta ou aquela possibilidade futura de ser senciente, e sim, razões derivadas da meta geral de alcançar o melhor resultado.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume III
Ver todo o tema

Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

O "problema epistemológico" diz que...

A objeção da assimetria temporal pergunta...

Para pensar

Você lamenta não ter nascido cem anos antes? Por que lamentaria morrer cem anos antes do que poderia?

Notas do autor 5
  1. 16 Para uma discussão sobre essa questão, ver (2002, p. 107). ↩
  2. 17 Ver (2007, p. 591, 736) ↩
  3. 18 Ver (1976 [55 a.C.], p. 972-976). ↩
  4. 19 Para essa resposta em detalhes, ver Horta (2007, p. 602-603). ↩
  5. 20 Esse exemplo é dado por Horta (2007, p. 605). ↩
Fontes citadas neste texto 3

A lista completa do volume está em referências do Volume III.

  • HORTA, O. Un desafío para la bioética: la cuestión del especismo. Tese (Doutorado em Filosofia). Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, 2007.
  • LUCRECIO, T. De la naturaleza. Barcelona: Bosch, 1976 [55 a.C].
  • MCMAHAN, J. The Ethics of Killing: Problems at the Margins of Life. Oxford: Oxford University Press, 2002.

Textos recomendados

Continue no tema Os animais e o dano da morte.

Navegue pelos diferentes temas