Volume II · Considerando os seres sencientes · capítulo 3
O que é senciência e por que ela é importante?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Senciência é a capacidade de ter experiências positivas e negativas; é ela que faz alguém ser "alguém" e não "algo", e por isso poder ser prejudicado pela presença do que é ruim ou pela ausência do que é bom.
Uma pedra não sente nada: se você chutar uma pedra, nada de ruim acontece com ela. Um gato sente: se você chutar um gato, ele sofre. Sentir é o que faz alguém poder ser machucado ou ficar feliz.
Senciência é como haver "alguém em casa". Uma casa vazia pode pegar chuva sem que ninguém se molhe; uma casa com morador, não.
- P1 Para ser prejudicado ou beneficiado, é preciso que as coisas possam ser experimentadas como boas ou ruins.
- P2 A senciência é a capacidade de ter essas experiências.
- P3 Logo, só seres sencientes podem ser prejudicados ou beneficiados.
- C Portanto, a senciência é o que importa para a consideração moral.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Mas uma árvore também pode ser prejudicada quando cortamos.”
Resposta Sem experiência, não há alguém para quem o corte seja ruim. A árvore pode ser danificada como um carro é danificado, mas não prejudicada no sentido moral.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume II, p. 14 da edição em PDF
Se o que é relevante para saber a quem dar consideração moral é saber quem é passível de ser prejudicado e beneficiado, então é importante investigar o que torna alguém passível de ser prejudicado e beneficiado. É aí que reside a importância da senciência6.
O termo "" é utilizado no debate em ética animal como um sinônimo de consciência. Diz respeito a toda e qualquer experiência que alguém poderia ter, desde as mais simples. Também diz respeito a qualquer outro estado mental que alguém poderia ter, como desejos, intenções, memórias etc. É aquilo que faz com que haja alguém, um indivíduo habitando um corpo, e não meramente um corpo vivo, vazio. É o que separa, de um lado, um humano, um cão, um peixe e uma abelha7 e, de outro, um sapato, uma planta, uma bactéria e um fungo. Assim, a senciência determina quem é passível de ser prejudicado ou beneficiado porque é ela, em primeiro lugar, que determina quando há alguém e não, meramente, algo.
Além disso, outra característica da senciência, essencial para haver a possibilidade de prejuízo e benefício, é que as experiências possuem o que se chama de 8 - isto é, elas podem ser experimentadas como positivas ou negativas. Isso também é o que faz com que os seres sencientes prefiram se encontrar em determinada condição e não em outra (isto é, é o que faz com que tenham desejos, preferências).
Por essa razão, há duas maneiras básicas pelas quais um ser senciente é prejudicado: com a presença daquilo que lhe for negativo (como acontece quando sofre, por exemplo) e pela ausência daquilo que lhe for positivo (como acontece quando morre ou é, de alguma outra maneira, impedido de desfrutar algo que o beneficiaria).
Analogamente, há duas maneiras básicas pelas quais um ser senciente é beneficiado: com a presença daquilo que lhe for positivo (como acontece quando sente prazer, por exemplo) e pelo impedimento daquilo que lhe for negativo (como acontece quando um sofrimento é aliviado, por exemplo).
É por essa razão que os animais não humanos precisam de consideração. Não é porque pertencem ao reino animal, ou porque estão vivos em um sentido biológico (como estão as plantas, por exemplo). É porque são alguém e porque são capazes de ser prejudicados ou beneficiados.
Portanto, para saber quais seres considerar, é importante saber quais são sencientes. Como podemos investigar isso? Abordaremos esse tópico a seguir.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Quais são as duas maneiras básicas de prejudicar um ser senciente?
Por que a senciência importa para a ética?
Para pensar
Como você explicaria a diferença entre "estragar" um objeto e "machucar" alguém?
Notas do autor 3
- 6 Para exemplos de defesas do critério da senciência, ver (1996[1989], p. 282n); (2002 [1979], p. 67); (2018a) e (2021, p. 57-61). ↩
- 7 Sobre senciência em invertebrados, ver Smith (1991); (2001); Mather e Anderson (2007); (2014) e (2019a, 2021d, 2022b). ↩
- 8 Para uma definição de valência, ver Fridja (1986, p. 207). ↩
Fontes citadas neste texto 12
A lista completa do volume está em referências do Volume II.
- BENTHAM, J. Introduction to the principles of moral and legislation. Oxford: Oxford University Press, 1996 [1789].
- BROOM, D. M. Sentience and animal welfare. Wallingford: CABI, 2014.
- CUNHA, L. C. Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente. Curitiba: Appris, 2021.
- FRIDJA, N.H. The Emotions. Cambridge: Cambridge University Press, 1986.
- HORTA, O. Moral Considerability and the Argument from Relevance. Journal of Agricultural and Environmental Ethics, v. 31, n. 3, p. 369-388, 2018a.
- MATHER, J. A. Animal suffering: An invertebrate perspective. Journal of Applied Animal Welfare Science, v. 4, p. 151-156, 2001.
- MATHER, J. A.; ANDERSON, R. C. Ethics and invertebrates: A cephalopod perspective. Diseases of Aquatic Organisms, v. 75, p. 119-129, 2007.
- SINGER, P. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1979].
- SMITH, J. A. A question of pain in invertebrates. ILAR Journal, v. 33, p. 25-31, 1991.
- ÉTICA ANIMAL. Senciência em invertebrados: uma revisão da literatura neurocientífica. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 20 ago. 2019a.
- ÉTICA ANIMAL. Senciência em invertebrados: uma revisão das evidências comportamentais. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 20 jul. 2022b.
- ÉTICA ANIMAL. Uma fisiologia ilustrada do sistema nervoso de invertebrados. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 3 set. 2021d.
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