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Volume II · Considerando os seres sencientes · capítulo 3

O que é senciência e por que ela é importante?

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Senciência é a capacidade de ter experiências positivas e negativas; é ela que faz alguém ser "alguém" e não "algo", e por isso poder ser prejudicado pela presença do que é ruim ou pela ausência do que é bom.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume II, p. 14 da edição em PDF

Se o que é relevante para saber a quem dar consideração moral é saber quem é passível de ser prejudicado e beneficiado, então é importante investigar o que torna alguém passível de ser prejudicado e beneficiado. É aí que reside a importância da senciência6.

O termo "" é utilizado no debate em ética animal como um sinônimo de consciência. Diz respeito a toda e qualquer experiência que alguém poderia ter, desde as mais simples. Também diz respeito a qualquer outro estado mental que alguém poderia ter, como desejos, intenções, memórias etc. É aquilo que faz com que haja alguém, um indivíduo habitando um corpo, e não meramente um corpo vivo, vazio. É o que separa, de um lado, um humano, um cão, um peixe e uma abelha7 e, de outro, um sapato, uma planta, uma bactéria e um fungo. Assim, a senciência determina quem é passível de ser prejudicado ou beneficiado porque é ela, em primeiro lugar, que determina quando há alguém e não, meramente, algo.

Além disso, outra característica da senciência, essencial para haver a possibilidade de prejuízo e benefício, é que as experiências possuem o que se chama de 8 - isto é, elas podem ser experimentadas como positivas ou negativas. Isso também é o que faz com que os seres sencientes prefiram se encontrar em determinada condição e não em outra (isto é, é o que faz com que tenham desejos, preferências).

Por essa razão, há duas maneiras básicas pelas quais um ser senciente é prejudicado: com a presença daquilo que lhe for negativo (como acontece quando sofre, por exemplo) e pela ausência daquilo que lhe for positivo (como acontece quando morre ou é, de alguma outra maneira, impedido de desfrutar algo que o beneficiaria).

Analogamente, há duas maneiras básicas pelas quais um ser senciente é beneficiado: com a presença daquilo que lhe for positivo (como acontece quando sente prazer, por exemplo) e pelo impedimento daquilo que lhe for negativo (como acontece quando um sofrimento é aliviado, por exemplo).

É por essa razão que os animais não humanos precisam de consideração. Não é porque pertencem ao reino animal, ou porque estão vivos em um sentido biológico (como estão as plantas, por exemplo). É porque são alguém e porque são capazes de ser prejudicados ou beneficiados.

Portanto, para saber quais seres considerar, é importante saber quais são sencientes. Como podemos investigar isso? Abordaremos esse tópico a seguir.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume II
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Quais são as duas maneiras básicas de prejudicar um ser senciente?

Por que a senciência importa para a ética?

Para pensar

Como você explicaria a diferença entre "estragar" um objeto e "machucar" alguém?

Notas do autor 3
  1. 6 Para exemplos de defesas do critério da senciência, ver (1996[1989], p. 282n); (2002 [1979], p. 67); (2018a) e (2021, p. 57-61). ↩
  2. 7 Sobre senciência em invertebrados, ver Smith (1991); (2001); Mather e Anderson (2007); (2014) e (2019a, 2021d, 2022b). ↩
  3. 8 Para uma definição de valência, ver Fridja (1986, p. 207). ↩
Fontes citadas neste texto 12

A lista completa do volume está em referências do Volume II.

  • BENTHAM, J. Introduction to the principles of moral and legislation. Oxford: Oxford University Press, 1996 [1789].
  • BROOM, D. M. Sentience and animal welfare. Wallingford: CABI, 2014.
  • CUNHA, L. C. Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente. Curitiba: Appris, 2021.
  • FRIDJA, N.H. The Emotions. Cambridge: Cambridge University Press, 1986.
  • HORTA, O. Moral Considerability and the Argument from Relevance. Journal of Agricultural and Environmental Ethics, v. 31, n. 3, p. 369-388, 2018a.
  • MATHER, J. A. Animal suffering: An invertebrate perspective. Journal of Applied Animal Welfare Science, v. 4, p. 151-156, 2001.
  • MATHER, J. A.; ANDERSON, R. C. Ethics and invertebrates: A cephalopod perspective. Diseases of Aquatic Organisms, v. 75, p. 119-129, 2007.
  • SINGER, P. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1979].
  • SMITH, J. A. A question of pain in invertebrates. ILAR Journal, v. 33, p. 25-31, 1991.
  • ÉTICA ANIMAL. Senciência em invertebrados: uma revisão da literatura neurocientífica. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 20 ago. 2019a.
  • ÉTICA ANIMAL. Senciência em invertebrados: uma revisão das evidências comportamentais. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 20 jul. 2022b.
  • ÉTICA ANIMAL. Uma fisiologia ilustrada do sistema nervoso de invertebrados. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 3 set. 2021d.

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