Volume II · Considerando os seres sencientes · capítulo 6
Questões relativas a merecimento poderiam justificar o especismo?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
O merecimento pode, às vezes, mudar prioridades, mas só para agentes responsabilizáveis que violaram alguma regra; como os animais não são responsabilizáveis, o merecimento não justifica dar-lhes menos peso.
Se alguém faz algo muito errado de propósito, às vezes a gente acha que ele merece uma consequência. Mas um bebê ou um animal não "fazem errado de propósito": eles não sabem o que são regras. Então não dá para dizer que merecem sofrer.
Um juiz pode punir quem cometeu um crime, mas não faria sentido "punir" um cachorro por latir ou um bebê por chorar. O merecimento só se aplica a quem pode responder pelos próprios atos.
- P1 Alguém só merece um dano se for um agente responsabilizável e tiver violado alguma regra.
- P2 Os animais não humanos não são agentes responsabilizáveis.
- P3 Logo, os animais não merecem os danos de que padecem.
- C Portanto, o merecimento não justifica deixar de priorizá-los quando sofrem o dano maior.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Nem sempre o dano maior deve ter prioridade: e se a vítima mereceu?”
Resposta Mesmo aceitando o merecimento, ele vale para quem é responsável pelos próprios atos. Animais, bebês e humanos com certas deficiências não merecem dano algum, pois não podem ser responsabilizados.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume II, p. 25 da edição em PDF
6.1. O princípio da igual consideração
O princípio da 30 defende que prejuízos e benefícios de magnitude similar devem receber igual peso. De acordo com tal princípio atribuir um peso diferenciado a prejuízos e benefícios de magnitude similar dependendo da raça, gênero ou espécie dos afetados por nossas decisões é injustificável, pois nesse caso se está a considerar tendenciosamente o bem de cada indivíduo afetado por nossa decisão. O princípio da igual consideração implica, portanto, que somos injustos para com os animais não humanos não apenas quando os desconsideramos totalmente, mas também quando atribuímos um peso menor ao seu bem, em comparação ao bem dos humanos.
6.2. Questões relativas a merecimento
Poderia ser objetado que nem sempre o prejuízo maior deveria receber peso maior. Por exemplo, se alguém merece31 o prejuízo do qual padece, parece justificado priorizar ajudar outros indivíduos que não merecem o prejuízo do qual padecem, mesmo que estejam sofrendo em menor medida. Diante disso, poder-se-ia pensar o seguinte: se o fator merecimento pode justificar uma exceção ao princípio da igual consideração, por que a espécie a qual pertencem os afetados pela decisão não poderia?
6.3. A ideia de merecimento depende da igual consideração
Uma possível resposta seria afirmar que a ideia de merecimento não é uma exceção ao princípio da igual consideração: pelo contrário, depende dele para fazer sentido. Isso é assim porque um critério não arbitrário para se saber quando alguém merece um prejuízo é saber se esse alguém violou antes o princípio da igual consideração. Por exemplo, imaginemos que os indivíduos A e B estão feridos, mas que A está mais gravemente ferido. Contudo, suponhamos que A se feriu tentando assassinar B, que é inocente. Imaginemos que o motivo pelo qual A tentou matar B é a cor da pele de B.
Nesse caso, parece justificado priorizar socorrer B, mesmo que esteja menos ferido do que A, porque A fez algo para merecer o prejuízo do qual padece. E a razão pela qual faz sentido dizer que A merece o prejuízo do qual ele padece é que seu ato violou antes o princípio da igual consideração ao utilizar como critério de a raça. A raça é irrelevante enquanto critério de consideração moral porque não determina quem é passível de ser prejudicado e beneficiado, nem a magnitude dos prejuízos e/ou benefícios. Contudo, o mesmo pode ser dito dos critérios da espécie, grau de inteligência, tamanho etc.
6.4. Duas dimensões de papéis na moralidade
Existem duas dimensões de "papéis" na moralidade: existem os indivíduos que vão decidir como agir e os indivíduos que serão afetados por suas decisões. Só faz sentido responsabilizar alguém por suas decisões se esse alguém possuir determinadas capacidades cognitivas a ponto de entender o que está fazendo. Por outro lado, para alguém ser afetado por uma decisão, basta ser passível de ser prejudicado e beneficiado.
O critério do merecimento faz referência aos indivíduos que são responsabilizáveis (ainda que tenha implicações no modo adequado de tratar esses indivíduos quando estiverem na condição de serem afetados pelas decisões de outras pessoas). É porque alguém responsabilizável se comportou de determinada maneira que faz sentido dizer que fez algo para merecer um dano ou benefício. Não há nada análogo no caso da espécie a qual alguém pertence, pois nascer como membro dessa ou daquela espécie não é uma questão de mérito ou demérito.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O critério do merecimento faz referência a...
A ideia de merecimento depende...
Para pensar
Existe algum sentido em que um animal possa "merecer" o que acontece com ele em um abatedouro?
Notas do autor 2
Fontes citadas neste texto 4
A lista completa do volume está em referências do Volume II.
- CUNHA, L. C. Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente. Curitiba: Appris, 2021.
- FEINBERG. J. Doing and deserving. Princeton: Princeton University Press, 1970.
- SHER, G. Desert. Princeton: Princeton University Press, 1987.
- SINGER, P. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1979].
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Nem sempre o dano maior deveria receber prioridade (por exemplo, se quem padece do dano merece-o) (II, cap. 6).
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