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de Ética
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Volume II · Considerando os seres sencientes · capítulo 7

A rejeição do especismo é compatível apenas com uma visão da ética?

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Rejeitar o especismo não exige aderir a uma teoria ética específica, como o utilitarismo: as mais variadas teorias, que discordam em muito, podem concordar em condenar a exploração dos animais.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume II, p. 27 da edição em PDF

7.1. Para se rejeitar o especismo, é necessário aderir a uma teoria ética específica?

Um equívoco comum é pensar que, para se rejeitar o especismo, é necessário aceitar uma visão específica da ética, como o utilitarismo. Assim, opositores do respeito pelos animais não humanos por vezes tentam argumentar contra o , com o objetivo de concluir que o está justificado.

7.2. A rejeição do especismo é compatível com várias visões de ética

Entretanto, para se reconhecer que as defesas do especismo têm problemas, não é necessário assumir uma teoria específica da ética. Além disso, o princípio da igual consideração é compatível com qualquer visão de ética não tendenciosa32. Isso é assim porque trata-se de um princípio formal. Isto é, ele próprio não prescreve qual é a ação correta (isso é feito pelos vários princípios normativos substanciais de cada teoria ética). O que o princípio da diz é que, seja lá qual princípio substancial adotemos para determinar qual é a ação correta, não há justificativa para sermos tendenciosos em sua aplicação.

Como veremos a seguir, o utilitarismo certamente precisa dar igual consideração a todos os seres e, portanto, precisa rejeitar o especismo. Entretanto, a de todos os seres sencientes e a rejeição do especismo foi defendida a partir das mais variadas teorias da 33. A seguir, veremos um exemplo com três teorias éticas distintas.

7.3. Um exemplo com três teorias éticas diferentes

Imaginemos que resgatamos dois animais, e que há duas maneiras nas quais é possível abrigá-los. Na primeira um dos animais se encontrará em uma condição bem melhor do que o outro, ainda que ambos fiquem em uma condição positiva. Na segunda o primeiro animal não estará tão bem quanto se encontraria na primeira opção, mas o segundo se encontrará melhor do que se encontraria na primeira opção.

Essas opções estão esquematizadas na tabela a seguir, onde S1 e S2 são as possíveis situações para os indivíduos A e B, e os números representam os seus níveis de bem-estar.

SituaçãoIndivíduo AIndivíduo BTotal agregadoNível mínimoDesigualdade
S1+20+10+30+10-10
S2+14+15+29+14-1

Agora, peguemos como exemplo três visões de ética que aceitam a igual consideração, mas que possuem metas distintas: o utilitarismo, o e o .

Utilitaristas diriam que S1 é melhor, pois seu objetivo é maximizar o total agregado. Já proponentes do maximin diriam que S2 é melhor, pois seu objetivo é que o nível mínimo de bem-estar seja o mais alto possível. Igualitaristas, por sua vez, também concordariam que S2 é melhor, mas porque nela o nível de desigualdade é menor.

Então, em que sentido todas essas visões de ética aceitam a igual consideração? No seguinte sentido: se os indivíduos trocassem de lugar essas visões manteriam a mesma decisão. A tabela a seguir exemplifica essa troca:

SituaçãoIndivíduo AIndivíduo BTotal agregadoNível MínimoDesigualdade
S1+10+20+30+10-10
S2+15+14+29+14-1

Nesse caso utilitaristas continuariam mantendo que devemos escolher S1, e proponentes do maximin e igualitaristas continuariam mantendo que devemos escolher S2.

Se alguém se recusa a defender a mesma decisão caso os indivíduos troquem de lugar (por exemplo, por ser especista e desejar sempre priorizar A ou B), então já não alcançará a meta que a teoria ética em questão visa alcançar. Assim, qualquer visão de ética não tendenciosa dá igual consideração a todos os seres sencientes. Portanto, é falso que, para se rejeitar o especismo, é necessário assumir uma teoria ética específica.

Que qualquer teoria ética plausível precisa rejeitar o especismo (e, por consequência, defender a abolição das práticas especistas, como a ) é algo que vem sendo cada vez mais reconhecido. Por exemplo, em 04 de outubro de 2022 foi assinada a Declaração de Montreal Sobre a Exploração Animal. Mais de 500 especialistas em ética e filosofia política de mais de 40 países a assinaram, e declararam o seguinte:

"...Raramente concordamos uns com os outros. Concordamos, no entanto, com a necessidade de uma profunda transformação em nossas relações com os outros animais. Condenamos as práticas que envolvem tratar os animais como objetos ou mercadorias".

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume II
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Atacar o utilitarismo é uma boa forma de defender o especismo?

No exemplo do capítulo, utilitaristas preferem S1 e defensores do maximin preferem S2. O que isso mostra?

Para pensar

Com qual teoria ética você mais se identifica? Ela autoriza dar menos peso à dor de alguém por causa da espécie?

Notas do autor 2
  1. 32 Sobre a compatibilidade do princípio da igual consideração com várias teorias éticas, ver (2022b). ↩
  2. 33 Podemos citar, por exemplo: utilitarismo (SINGER, 2002 [1979]; MATHENY, 2006); teorias de direitos (REGAN, 1983; FRANCIONE, 2000); igualitarismo (GOMPERTZ, 1997[1824]; FARIA, 2014; HORTA, 2016), prioritarismo (HOLTUG, 2007); suficientismo (CRISP, 2003); ética focada no sofrimento (VINDING, 2020); consequencialismo negativo (PEARCE, 2017); ética do cuidado (ADAMS; DONOVAN, 1996); abordagem das capacidades (NUSSBAUM, 2006); ética das virtudes (ROLLIN, 1981; DOMBROWSKI 1985; NOBIS 2002; HURSTHOUSE 2006; ABBATE 2014); kantianismo (FRANKLIN, 2005; KORSGAARD, 2005); neokantianismo (PLUHAR, 1995) e o contratualismo rawlsiano (VANDEVEER, 1979; ROWLANDS, 1998). Já outros autores (CLARK, 1977; SAPONTZIS, 1987) defenderam os animais combinando várias perspectivas da ética. Para um resumo de como várias dessas teorias abordam a questão, ver (2015f) e Cunha (2022b). ↩
Fontes citadas neste texto 2

A lista completa do volume está em referências do Volume II.

  • CUNHA, L. C. A igualdade, suas várias interpretações, e a ética interespécies. In: BARBOSA-FOHRMANN, A. P.; LOURENÇO, D. B.; AUBERT, A. C. P. (orgs.). Estudos e direitos dos animais: teorias e desafios. Porto Alegre: Editora Fi, 2022b, p. 104-128.
  • ÉTICA ANIMAL. Teorias éticas e animais não humanos. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 08 dez. 2015f.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

O critério da senciência só faz sentido em uma ética utilitarista. (II, cap. 7).
O critério da senciência diz apenas quais seres devemos considerar, sem se comprometer com uma maneira específica de determinar a ação correta. De fato, este critério tem sido incorporado pelas mais variadas teorias e 13 correntes da ética contemporânea.

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