Volume II · Considerando os seres sencientes · capítulo 2
O que é o argumento da sobreposição das espécies?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Se a falta de certas capacidades e relações em alguns humanos não justifica tratá-los pior, a mesma falta nos animais também não justifica; e ela costuma ser motivo para cuidar mais, por aumentar a vulnerabilidade.
Existem bebês e pessoas que não falam, não raciocinam como adultos ou não têm família. A gente não deixa de cuidar delas por isso: cuida até mais. Se é assim com essas pessoas, também deve ser com os animais.
Se um hospital atendesse um bebê que não sabe falar, mas negasse atendimento a um cachorro ferido "porque ele não fala", estaria usando dois pesos e duas medidas.
- P1 As capacidades e relações usadas para excluir os animais não estão presentes em todos os humanos.
- P2 A falta delas em bebês e em certos humanos não justifica tratá-los pior.
- P3 Se a falta dessas características não justifica tratar humanos pior, ela também não justifica tratar animais pior.
- C Logo, essas capacidades e relações não justificam desconsiderar os animais.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Mas esses humanos são exceções.”
Resposta O argumento não depende de quantos humanos estão nessa situação: basta que existam e que, com razão, não aceitemos maltratá-los. As espécies se "sobrepõem" quanto a essas capacidades.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume II, p. 12 da edição em PDF
O argumento da sobreposição das espécies, apesar de possuir um nome um tanto estranho e complicado, é um argumento de fácil entendimento. Além disso, é um dos principais argumentos em defesa do respeito pelos animais não humanos. Ele surge como resposta às tentativas de justificar a desconsideração pelos animais não humanos que apelam a capacidades ou relações. Isso tudo será explicado em detalhes a seguir.
Muitas vezes, é defendido que o que torna corretas as práticas que causam sofrimento e morte aos animais não humanos, e também o que torna correto não dar-lhes a ajuda de que precisam, é o fato de os animais não humanos carecerem de certas capacidades ou de certas relações.
Por exemplo, é comumente dito que os animais não humanos não merecem o respeito que os humanos merecem porque carecem de capacidades cognitivas complexas. Em outras vezes, é dito que está certo não ajudar os animais porque eles não estão em condições de nos ajudar (isto é, não temos relações de solidariedade mútua com eles), ou porque não contribuem para a nossa sociedade (isto é, não temos relações políticas para com eles). Já em outras vezes é dito que o que torna correto torturar e matar os animais é o simples fato de termos o poder de fazer isso e eles não terem poder para se defender, estando totalmente vulneráveis.
O argumento da 5 começa por observar que, seja lá qual capacidade ou relação for escolhida como critério para excluir os animais não humanos da esfera de (ou para dar-lhes uma consideração menor), sempre haverá humanos que não as possuem e, portanto, seriam também desfavorecidos por tais critérios.
Esse é o caso, por exemplo, de bebês, crianças até certa idade e vítimas de determinadas doenças ou acidentes que impedem o desenvolvimento ou o exercício daquelas capacidades e relações. Tais humanos não possuem as capacidades cognitivas complexas que os humanos adultos tipicamente possuem. Também, infelizmente, vários deles não estão em relações de solidariedade mútua (pelo contrário, estão abandonados), e também não estão em condições
de contribuir para a sociedade. Além disso, não exercem poder sobre ninguém (pelo contrário, assim como os animais não humanos, estão totalmente vulneráveis).
O argumento da sobreposição das espécies observa então que, se a falta daquelas capacidades ou relações nesses humanos não pode justificar tratá-los pior do que os humanos adultos normais - muito menos fazer a eles o que é feito tipicamente aos animais não humanos - então a falta daquelas capacidades ou relações nos animais não humanos tampouco poderia justificar tratá-los pior do que os humanos adultos normais, muito menos justificar a desconsideração típica que recebem.
Além disso, a falta daquelas capacidades e relações naqueles humanos normalmente é vista como uma razão para dar-lhes um cuidado ainda maior, pois aumenta sua vulnerabilidade. Assim, a falta daquelas capacidades e relações nos animais não humanos também é uma razão para dar-lhes um cuidado maior, e não, uma razão para tratá-los pior ou para desconsiderá-los.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Por que o argumento se chama "sobreposição das espécies"?
Segundo o capítulo, a falta daquelas capacidades costuma ser vista, em humanos, como razão para...
Para pensar
Que características você usaria para separar quem pode ser explorado de quem não pode? Algum humano ficaria do lado errado?
Notas do autor 1
Fontes citadas neste texto 7
A lista completa do volume está em referências do Volume II.
- BENTHAM, J. Introduction to the principles of moral and legislation. Oxford: Oxford University Press, 1996 [1789].
- EHNERT, J. The argument from species overlap. Blacksburg: Virginia Polytechnic Institute and State University, 2002.
- HORTA. O. The Scope of the Argument from Species Overlap. Journal of Applied Philosophy, v. 31, p. 142-154, 2014.
- MILLER, H. B. A terminological proposal. Society for the Study of Ethics and Animals Newsletter, v. 30, 2002.
- PORFIRIO. Abstinence from animal food. London: Thomas Taylor, 1823 [ca. 280].
- SINGER, P. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1979].
- WILSON, S. The Species-Norm Account of Human Status. Between the Species, v. 13, n. 5, 2005.
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