Volume IV · O debate sobre a exploração animal · capítulo 14
Mas, o veganismo não causa ainda mais mortes do que consumir animais?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
A alegação de que o veganismo mata mais animais pela agricultura não tem evidência e ignora que os animais criados comem muito mais plantações; além disso, só num mundo que considera os animais alguém se esforçará para reduzir mortes indiretas.
Algumas pessoas dizem que plantar mata bichinhos no campo, então ser vegano mataria mais. Mas os animais de criação comem uma quantidade enorme de plantas, então a carne exige muito mais plantação, e mais bichinhos mortos.
Reclamar que andar a pé pisa em formigas e por isso preferir ir de trator é esquecer que o trator pisa em muito mais.
- P1 O argumento diz que a agricultura para dietas veganas causa mais mortes do que o consumo de animais.
- P2 Não há evidência disso, e a criação de animais exige muito mais área plantada para ração.
- P3 Mesmo que fosse verdade, as consequências de longo prazo de defender a consideração pelos animais seriam melhores.
- C Logo, o argumento não justifica rejeitar o veganismo.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Vegano também mata, na colheita morrem ratos e insetos.”
Resposta A pecuária precisa de muito mais lavoura para alimentar os animais, além de matar os próprios animais criados. E só quem leva os animais em conta vai querer reduzir também essas mortes indiretas.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume IV, p. 61 da edição em PDF
Por vezes é defendido que, ao contrário do que poderia parecer à primeira vista, o causa ainda mais mortes do que o consumo de animais. De acordo com essa alegação, isso seria assim devido às mortes de animais causadas como efeito colateral da agricultura, como as mortes acidentais de pequenos animais nas colheitas e durante o transporte de vegetais, e mesmo mortes intencionais como no uso de pesticidas durante o plantio150.
A resposta geralmente oferecida a essa objeção aponta que, quanto maior o número de pessoas veganas, menos plantações seriam requeridas, pois boa parte dos grãos produzidos no mundo é utilizada para engordar os animais que os humanos exploram para consumo.
Entretanto, um proponente da objeção poderia apontar que, se cada pessoa apenas consumir animais aquáticos pescados diretamente no mar, não haveria necessidade alguma de plantar e isso, no cômputo geral, alegadamente resultaria em menos mortes do que um mundo vegano.
Uma possível resposta aqui é questionar que, no cômputo geral, fazer isso resultaria em menos mortes do que haveria em um mundo vegano. Entretanto, independentemente disso, há outra resposta possível, que aponta para a importância de se levar em conta todas as consequências, e não apenas algumas. Essa resposta será explorada em mais detalhes a seguir.
Poderia ser apontado que a objeção está a levar em conta apenas as consequências diretas de cada forma de consumo, negligenciando a influência de cada visão de mundo que é passada adiante com cada tipo de atitude. Defender o consumo de animais é reforçar a visão de que eles são recursos à nossa disposição. Defender o veganismo, por outro lado, reforça a visão de que os animais são seres com quem deveríamos nos preocupar.
É somente em um mundo onde os animais recebem que haverá pessoas preocupadas em minimizar as mortes indiretas decorrentes da agricultura e em tentar melhorar a situação dos animais em geral. Definitivamente, defender o consumo de animais não contribui para que esse mundo seja possível (pelo contrário, atrapalha). Portanto, esses dois
tipos de atitudes têm consequências muito distintas em longo prazo, devido ao ideal que reforçam.
As consequências da influência que as visões de mundo exercem são muito maiores do que as consequências diretas do consumo de cada pessoa, pois se estendem ao longo de muitas gerações. As consequências do consumo existem até o momento em que a pessoa morre. Já as consequências da visão de mundo que ela promove continuam por muito tempo depois de ela morrer.
Por essa razão, o impacto positivo indireto que um modo de vida vegano possui, de reforçar a consideração pelos animais, é ainda maior do que o impacto positivo direto de evitar que mais animais nasçam para sofrer e morrer. É claro, essas consequências indiretas positivas só existem se alguém enfatizar que não consome produtos de origem animal por respeito aos animais (não consumir produtos de origem animal por razões antropocêntricas ou não possui o mesmo efeito positivo indireto de reforçar a consideração moral pelos animais).
Portanto, mesmo que fosse verdade que a prática do veganismo matasse mais animais devido ao dano indireto causado no plantio, nas colheitas e no transporte (e, diga-se de passagem, não há evidências de que essa quantidade de mortes é maior do que as mortes decorrentes da ), ainda assim, se computarmos as consequências da visão de mundo que cada prática ajuda a passar adiante, é mais provável que defender o veganismo ainda teria melhores consequências no total ao longo do tempo.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O que o capítulo diz sobre a evidência de que o veganismo mata mais?
Em que tipo de mundo haverá pessoas preocupadas em minimizar mortes indiretas na agricultura?
Para pensar
Se o seu objetivo fosse matar o menor número de animais, que dieta você escolheria? Por quê?
Notas do autor 1
Fontes citadas neste texto 1
A lista completa do volume está em referências do Volume IV.
- MCWILLIANS, If Vegans Replaced Plants With Insects, They'd Harm Fewer Animals. Huffpost, 14 nov. 2014.
Textos recomendados
Continue no tema O debate sobre a exploração animal.
A preocupação com espécies justifica o consumo de animais?
A ideia de que comer animais preserva espécies domesticadas supõe que espécies importam por si, que…
A alegação de que é melhor deixar para depois a luta pelos animais
"Primeiro os humanos, os animais depois" falha: cada pessoa faz diferença para os animais afetados, não há…
Os animais já não são protegidos pela lei?
A exploração animal não é fruto de leis desrespeitadas: ela é legal. Os animais têm, juridicamente, o…