Volume VI · A quem devemos consideração moral? · capítulo 5
Se a senciência é o que importa, por que há males que não afetam as experiências?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Danos que não alteram as experiências, como violar alguém inconsciente, podem ser objeção ao hedonismo, mas não ao critério da senciência, que também é compatível com danos às preferências reais ou informadas.
Às vezes alguém é prejudicado sem nunca descobrir, como quando falam mal dele pelas costas. Isso não muda o que ele sente, mas parece errado. O critério da senciência aceita isso: só quem sente tem preferências que podem ser desrespeitadas.
Ler o diário de alguém escondido talvez nunca o faça sofrer, mas desrespeita o que ele queria. Mesmo assim, só faz sentido falar em desrespeito porque há alguém ali que quer coisas.
- P1 Há prejuízos que não alteram a quantidade de experiências positivas e negativas.
- P2 Isso pode ser objeção ao hedonismo, a teoria de que o bem-estar se resume a experiências.
- P3 O critério da senciência diz quem pode ser prejudicado, e é compatível com teorias que incluem preferências.
- P4 Preferências também dependem da senciência para existir.
- C Logo, esses casos não refutam o critério da senciência.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Há males que não afetam a experiência, então a senciência não é tudo.”
Resposta Esses males ainda recaem sobre alguém que sente e prefere. O critério da senciência não se compromete com o hedonismo.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VI, p. 18 da edição em PDF
Como vimos, dar a alguém é evitar prejudicá-lo e buscar beneficiá-lo. O critério da defende que devemos dar consideração moral a todos os (e somente aos) seres capazes de ter experiências. Na base do critério da senciência está a ideia de que, para haver prejuízo e benefício, é necessário ter alguém que seria prejudicado ou beneficiado, e o que faz com que um ser seja alguém (e não, meramente, algo) é a capacidade de ter experiências. Um sapato e uma cadeira são algo, porque não são sencientes. Eu, você, um peixe, um porco e um camarão, por exemplo, somos alguém, porque somos capazes de ter experiências, que é aquilo que faz com que tenhamos uma perspectiva de primeira pessoa (isto é, não somos meros corpos vazios: no nosso caso há alguém a habitá-los).
Uma objeção que por vezes surge ao critério da senciência envolve apontar que há formas de prejudicar alguém que não afetam suas experiências. Imaginemos, por exemplo, que alguém é violentado enquanto está inconsciente e que, ao acordar, nunca saberá do abuso que sofreu. Imagine também que tal abuso não causará nenhuma experiência negativa posterior, nem diminuirá a quantidade de experiências positivas que a vítima teria dali para frente. Isto é, nesse caso o abuso não alterou a quantidade de experiências negativas e positivas que a vítima teria. Por vezes, casos desse tipo são mencionados como uma objeção ao critério da senciência.
Esses casos colocam uma objeção à visão de que todas as formas de prejuízo afetam, de alguma forma, as experiências. Mas, será que também são uma objeção ao critério da senciência? Poder-se-ia pensar que aceitar o critério da senciência implica em ter que aceitar que todas as formas de prejuízo afetam as experiências (produzindo experiências negativas e/ou impedindo experiências positivas). Contudo, apesar de as duas coisas serem compatíveis, aceitar a primeira não implica necessariamente aceitar a segunda. O critério da senciência diz apenas quais seres devemos considerar: não diz quais são as formas pelas quais esses seres são passíveis de ser prejudicados e beneficiados. No exemplo de alguém que é violentado quando está inconsciente, este ainda é um prejuízo a um ser senciente (se fosse, por exemplo, um objeto inanimado, não haveria prejuízo algum).
Tal prejuízo poderia ser explicado, por exemplo, por ser um desrespeito às preferências do ser em questão (às suas preferências reais ou às preferências que teria se tivesse as informações relevantes13). Uma preferência é algo que também depende da senciência para existir.
Para entender melhor este ponto é importante distinguir o seguinte. Uma coisa é o debate sobre qual deveria ser o critério de consideração moral, isto é, o critério que diz quais tipos de entidades devemos considerar moralmente. O critério da senciência é um critério desse tipo. Outra coisa é o debate sobre quais são as formas pelas quais os seres sencientes são passíveis de ser prejudicados e beneficiados. Esse segundo debate se dá entre as teorias do bem-estar14.
Em outras palavras, quem aceita o critério da senciência pode reconhecer que os seres sencientes são prejudicados por experiências negativas e por serem impedidos de ter experiências positivas. Contudo, não necessariamente precisa afirmar que essas são as únicas formas pelas quais os seres sencientes são passíveis de ser prejudicados (ainda que também seja compatível com essa visão).
Em resumo, apontar para a possibilidade de prejuízos que não alterariam a quantidade de experiências positivas e negativas pode ser uma objeção à teoria do bem-estar (pois essa teoria afirma que, para um ser senciente ser beneficiado/prejudicado, precisa haver alguma alteração na quantidade de experiências positivas/negativas que experimentaria). Entretanto, como vimos, isso não forma uma objeção ao critério da senciência, pois, por ser um critério de consideração moral, não tem de necessariamente se comprometer com uma teoria específica do bem-estar. Tratam-se de dois debates diferentes.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Os casos de dano sem alteração da experiência são objeção a...
Uma preferência depende de quê para existir?
Para pensar
Você consegue pensar em um dano a alguém que não envolva nenhuma experiência dessa pessoa nem nada que ela prefira?
Notas do autor 2
Fontes citadas neste texto 4
A lista completa do volume está em referências do Volume VI.
- FLETCHER, G. The Philosophy of Well-Being: An Introduction. Londres: Routledge, 2016.
- KAGAN, S. Normative Ethics. Colorado: Westview Press, 1998.
- SANTOS, B. A. G. Três teorias sobre o bem-estar. Crítica na Rede. 11, jan. 2017.
- SOBEL, D. Full-information Accounts of Well-being. Ethics, n. 104, p. 784-810, 1994.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Há outras coisas para além do sofrimento/prazer que afetam o bem-estar (como a satisfação de preferências e obter bens objetivos como conhecimento, relações especiais etc.). (VI, cap. 5; XI, cap. 2).
Há danos que não causam sofrimento nem impedem alguém de desfrutar algo positivo (como, por exemplo, se alguém for violentado enquanto está inconsciente e quando acordar não se lembrar de nada). O critério da senciência não levaria tais danos em consideração. (VI, cap. 5).
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