Volume VI · A quem devemos consideração moral? · capítulo 4
Segundo o critério da senciência, o único problema é o sofrimento?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
O critério da senciência não reconhece só o sofrimento como dano: um ser senciente também é prejudicado pela ausência do que lhe seria positivo, como na morte.
Quem sente pode ser prejudicado de dois jeitos: sofrendo ou perdendo coisas boas. Matar um animal sem dor ainda o prejudica, porque ele perde todas as coisas boas que viria a viver.
Tirar o salário de alguém não causa dor física, mas prejudica, porque tira o que ele teria de bom. O dano não precisa doer.
- P1 Um ser senciente é prejudicado pela presença do que é negativo e pela ausência do que é positivo.
- P2 A morte é um exemplo de dano pela ausência do positivo.
- P3 Logo, o critério da senciência reconhece danos que não envolvem sofrimento.
- C Pensar o contrário é um dos equívocos mais comuns sobre o critério.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Se o que importa é não sofrer, matar sem dor está liberado.”
Resposta Esse é o equívoco que o capítulo corrige. A senciência diz quem pode ser prejudicado; a morte prejudica quem sente ao tirar o que viria de bom.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VI, p. 16 da edição em PDF
A é a capacidade de ter experiências. É aquilo que diferencia os indivíduos das coisas: seres sencientes são alguém; coisas não sencientes são algo. Isto é, os seres sencientes não são meros corpos vivos: são indivíduos que podem ser afetados positiva ou negativamente. No caso dos seres sencientes, há alguém a "habitar" aqueles corpos.
Dar a alguém é evitar prejudicá-lo e buscar beneficiá-lo. O critério da senciência defende que devemos dar consideração moral a todos os seres capazes de ter experiências (isto é, a todos os seres sencientes).
Por vezes é dito que, se o critério da senciência estivesse correto, então todas as questões morais seriam resolvidas com o uso de analgesia e anestesia. Dado que há formas de alguém ser prejudicado sem sofrer (por exemplo, com a morte12, mesmo que sem sofrimento; ou ganhar um prêmio e não ser avisado disso), por vezes é alegado então que deve haver algo de errado com o critério da senciência. Essa objeção conclui então que, para sermos contra o assassinato sem dor e outros danos que não causam sofrimento, temos de rejeitar o critério da senciência e postular que a vida biológica tem mesma.
O erro com esse argumento é pressupor que considerar os seres sencientes implica somente a preocupação em evitar o seu sofrimento, o que é falso. Como vimos no capítulo 1, um ser senciente é prejudicado pela presença daquilo que lhe for prejudicial e também pela ausência daquilo que lhe for benéfico. Os dois exemplos que a objeção traz (o e o de alguém não ser avisado de que ganhou um prêmio) são reconhecidos pelo critério da senciência. Aliás, a forma mais óbvia de explicar o dano nesses casos é a partir da senciência: são danos pela ausência de (todas ou algumas) experiências positivas.
Para explicar o dano da morte e o dano que alguém padece por não ser avisado de que ganhou um prêmio, é necessário imaginar o que o indivíduo experimentaria em cada situação (continuar vivo versus morrer, e ser avisado do prêmio versus não ser avisado) e avaliar em qual delas ele estaria em uma condição melhor. Assim, a objeção, sem perceber, assume o critério da senciência.
Portanto, é falso que o critério da senciência não reconheceria a existência de danos que não envolveriam sofrimento. Pensar que sim é, talvez, um dos equívocos mais comuns em relação ao critério da senciência, e uma das razões pelas quais algumas pessoas o têm rejeitado. Evitar sofrimento é uma parte importantíssima da consideração pelos seres sencientes, mas não é a única preocupação.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Pensar que o critério da senciência só se preocupa com o sofrimento é...
A morte prejudica um ser senciente principalmente pela...
Para pensar
Que outros danos, além da dor, você consegue imaginar para um animal?
Notas do autor 1
- 12 Para uma análise do dano da morte para os animais não humanos, ver o terceiro volume desta coleção. Ver também (2007, p. 537-778; 2010c) e (2022a, p. 61-92) ↩
Fontes citadas neste texto 3
A lista completa do volume está em referências do Volume VI.
- CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.
- HORTA, O. Igualitarismo, igualación a la baja, antropocentrismo y valor de la vida. Revista de Filosofía da Universidad Complutense de Madrid, v. 35, n. 1, p. 133-152, 2010c.
- HORTA, O. Un desafío para la bioética: la cuestión del especismo. Tese (Doutorado em Filosofia). Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, 2007.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Há danos que não necessariamente causam sofrimento, como o dano da morte. Logo, o critério da senciência está errado. (VI, cap. 4).
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