Volume II · Considerando os seres sencientes · capítulo 12
Que importância devemos dar à situação dos animais?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Diante de "por que se preocupar com animais com tantos humanos precisando?", o capítulo mostra que, pela gravidade, pelo número de vítimas e pela negligência, a causa animal mereceria prioridade muito alta sob condições de imparcialidade.
Muita gente diz: "primeiro os humanos". Mas os animais que sofrem são muitíssimos mais, sofrem muito e quase ninguém ajuda. Se a gente escolhesse sem saber se seria gente ou bicho, ia achar que eles também precisam de muita atenção.
Se em uma cidade há um bairro com milhares de feridos e quase nenhum socorrista, e outro com poucos feridos e muitos socorristas, mandar mais gente para o segundo "porque é o nosso bairro" seria injusto com o primeiro.
- P1 A prioridade de uma causa depende da gravidade, do número de vítimas e do grau de negligência.
- P2 As vítimas não humanas são em número gigantescamente maior, em situação muito grave e muito mais negligenciadas.
- P3 A visão de que humanos devem vir sempre primeiro só parece razoável por causa do especismo.
- C Logo, sob imparcialidade, a causa animal deveria receber prioridade muito alta.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Por que se preocupar com animais enquanto há tantos humanos precisando de ajuda?”
Resposta Ninguém diz o contrário ("por que ajudar humanos com tantos animais sofrendo?") porque o especismo é a regra. E ajudar animais não impede ajudar humanos: muitas ações, como mudar o consumo, quase não competem com outras causas.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume II, p. 41 da edição em PDF
Qualquer pessoa que defende os animais muito provavelmente já se deparou com essa objeção: "por que se preocupar com os animais não humanos enquanto há ainda tantos humanos necessitando de ajuda?".
Normalmente as pessoas que defendem os animais respondem que ajudar os animais não impede alguém de ajudar os humanos. Isso é verdade, mas não toca no problema principal da objeção, que é assumir que o bem dos humanos é mais importante. Essa pressuposição é altamente questionável, por vários motivos. Um deles, é que parece que ela seria amplamente rejeitada se estivéssemos sob condições de imparcialidade49 (isto é, se estivéssemos sob condições que nos impedissem de sermos tendenciosos). Vejamos por quê:
Uma visão comum é a de que, mesmo que os animais não humanos estejam normalmente em uma situação muito pior do que a dos humanos, mesmo que a quantidade total de vítimas não humanas seja gigantescamente maior do que a de vítimas humanas, e mesmo que haja uma quantidade muito maior de pessoas já investindo em ajudar humanos, deveríamos, ainda assim, priorizar ajudar os humanos.
Entretanto, jamais diríamos isso se não soubéssemos a espécie das vítimas em cada um dos casos. Muito menos diríamos a mesma coisa se os papéis fossem invertidos. Imagine, por exemplo, que os humanos estivessem em uma situação pior do que a dos animais não humanos, houvesse uma maior quantidade de vítimas humanas, e houvesse uma maior quantidade de pessoas já investindo em ajudar animais não humanos, Nesse cenário, a defesa de que, ainda assim, deveríamos priorizar ajudar os animais não humanos seria vista como algo absurdo.
O inverso só não é visto como absurdo dada a predominância do que é, em si, uma violação da . Aliás, se estivéssemos sob condições de imparcialidade, dada à quantidade de vítimas, a gravidade de sua situação, e o grau com que são , concluiríamos que a causa animal deveria receber uma prioridade muito alta50.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Que fatores o capítulo usa para avaliar a importância da causa animal?
Por que o inverso ("por que ajudar humanos com tantos animais sofrendo?") parece absurdo para muitos?
Para pensar
Quanto do seu tempo ou dinheiro hoje vai para causas que envolvem animais? A proporção corresponde à gravidade do problema?
Notas do autor 2
Fontes citadas neste texto 5
A lista completa do volume está em referências do Volume II.
- CUNHA, L. C. Especismo e priorização de causas. In: ROSARIO, M. C.; PEREIRA, F. S.; AZEVEDO, M. A. O. Anais do Simpósio Ética Animal em Ação. São José dos Campos: Entrementes Editorial, 2023, p. 33-45
- CUNHA, L. C. Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente. Curitiba: Appris, 2021.
- ÉTICA ANIMAL. Contratualismo. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 24 dez. 2015g.
- ÉTICA ANIMAL. Justiça plena: o que o véu da ignorância nos mostra sobre uma sociedade justa. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 31 dez. 2016f.
- ÉTICA ANIMAL. O argumento da imparcialidade. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 24 dez. 2015h.
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