Volume II · Considerando os seres sencientes · capítulo 11
Testando se uma atitude é ou não especista
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Uma atitude é especista se é injusta com seres sencientes por causa da espécie; podemos testá-la perguntando se manteríamos a decisão sem saber a espécie dos afetados, sem saber a nossa, se as vítimas fossem humanas ou se trocássemos de lugar.
Um jeito de descobrir se estamos sendo injustos: trocar os personagens da história. Se algo só parece aceitável porque a vítima é um bicho, e não seria se fosse uma pessoa sentindo a mesma coisa, então estamos sendo injustos com o bicho.
Revisores de artigos científicos às vezes avaliam sem saber o nome do autor, para não favorecer amigos. O teste do especismo é avaliar sem saber a espécie, para não favorecer a nossa.
- P1 Uma atitude é especista se trata pior seres sencientes por causa da espécie.
- P2 Se a decisão mudaria apenas ao mudarmos a espécie dos afetados, ou a nossa posição, a espécie está pesando na decisão.
- P3 As práticas que afetam os animais não passam nesse teste.
- C Logo, além de injustificadas, essas práticas pedem que façamos algo para mudá-las.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Não sou especista, eu amo os animais.”
Resposta Gostar dos animais não basta. O teste é sobre decisões: você manteria cada decisão que afeta animais se as vítimas fossem humanas, com prejuízos de mesmo tamanho?
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume II, p. 39 da edição em PDF
Uma atitude é especista se é injusta para com seres que não pertencem a certa(s) espécie(s) — como, por exemplo, quando é injusta em relação a quem não é humano — ou que pertencem a certa(s) espécie(s) — como, por exemplo, quando é injusta em relação a animais classificados como membros de espécies invasoras.
Há várias maneiras de testar se uma atitude é injusta. Uma delas é averiguar se ela viola o princípio da igual consideração. Outra é averiguar se ela passa no teste da imparcialidade.
Testar se uma atitude é ou não pode ser mais simples do que imaginamos. Há algumas perguntas47 que sempre podemos fazer para testarmos se estamos sendo injustos com os animais não humanos.
Por exemplo, podemos perguntar se consideraríamos a atitude em questão justa:
(1) Se não soubéssemos a espécie dos que seriam prejudicados e dos que seriam beneficiados por ela;
(2) Se não soubéssemos a espécie a qual pertencemos;
(3) Se suas vítimas fossem humanas, padecendo de danos de mesma magnitude;
(4) Se os papéis fossem invertidos (por exemplo, se os beneficiários fossem animais não humanos, e os prejudicados fossem humanos);
(5) Se tivéssemos que receber os prejuízos que ela causa para poder alcançar os benefícios obtidos por ela;
(6) Se tivéssemos que receber os prejuízos que ela causa para que outros indivíduos pudessem alcançar os benefícios obtidos por ela.
Se fizéssemos sinceramente essas perguntas, parece que chegaríamos nas seguintes conclusões:
(1) A exploração animal seria amplamente considerado injusta, ou mesmo hedionda.
(2) Parece também que rejeitaríamos dar graus diferenciados de dependendo da espécie a qual um ser senciente pertence ou de suas capacidades. Isto é, rejeitaríamos o especismo.
(3) Parece que não apenas consideraríamos injustas as práticas que envolvem prejudicar ativamente os animais não humanos, mas também a negligência em receberem ajuda quando são vítimas de 48, como fome, sede, doenças, desastres naturais etc. (que é o que comumente acontece com os animais selvagens).
Isso tudo parece indicar não apenas que não há justificativa para aquilo que é feito aos animais não humanos, mas que também devemos fazer algo para tentar mudar essa situação.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O especismo pode ser injusto com animais de certas espécies, como espécies "invasoras"?
Qual destas é uma das perguntas do teste?
Para pensar
Escolha uma prática e faça as quatro perguntas. Use a ferramenta Teste do especismo deste site.
Notas do autor 2
Fontes citadas neste texto 5
A lista completa do volume está em referências do Volume II.
- CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.
- ROWLANDS, M. Animal rights: Moral, theory and practice. 2. ed. New York: Palgrave Macmillan, 2009 [1998].
- ÉTICA ANIMAL. Contratualismo. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 24 dez. 2015g.
- ÉTICA ANIMAL. Justiça plena: o que o véu da ignorância nos mostra sobre uma sociedade justa. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 31 dez. 2016f.
- ÉTICA ANIMAL. O argumento da imparcialidade. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 24 dez. 2015h.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Como testar se estamos sendo tendenciosos em relação aos animais? (II, cap. 11)
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