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Volume VI · A quem devemos consideração moral? · capítulo 17

Seres vivos não sencientes são passíveis de ser prejudicados?

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Seres vivos não sencientes não parecem passíveis de ser prejudicados: o uso cotidiano de expressões como "a planta está feliz" não mostra que há alguém ali para quem as coisas vão bem ou mal.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VI, p. 49 da edição em PDF

O é a visão de que tudo o que é vivo deveria receber direta. Proponentes do biocentrismo60 concordam que só faz sentido dar consideração moral para seres passíveis de ser prejudicados e beneficiados. Entretanto, discordam de que a senciência seja necessária para que haja possibilidade de prejuízo/benefício. Em vez disso, defendem que seres vivos não (como plantas e fungos, por exemplo) também são passíveis de ser prejudicados e/ou beneficiados.

Os biocentristas afirmam que tudo o que é vivo possui um bem próprio, que é evidenciado pelo fato de que florescem em certas circunstâncias e perecem em outras. Por exemplo, de acordo com essa visão, o fato de uma planta crescer ao ser regada é um sinal de que a planta valoriza a água. Observe que os biocentristas não estão a dizer que a planta é senciente, e que possui uma preferência por ser regada (eles reconhecem que a planta não é senciente). O que estão a defender é que, para haver valorização, não é necessário que haja alguém a habitar aquele corpo.

Contudo, do fato de que algo floresce em certas condições e não em outras, não se segue que para esse algo seja importante se encontrar nesse ou naquele estado e que, portanto, seja prejudicado ou beneficiado por se encontrar em certas circunstâncias e não em outras. Se o organismo em questão não experimenta certos estados como positivos e/ou outros como negativos, é difícil conceber como poderia valorizar estar nessa ou naquela condição. Não há alguém ali para experimentar coisa alguma: é um corpo vivo, mas vazio, que ninguém habita. São vidas que ninguém vive. Assim, uma possível crítica ao argumento biocêntrico é acusá-lo de saltar de um sentido metafórico para um sentido literal do termo "valorizar"61. Veremos isso em mais detalhes a seguir.

Por vezes o critério biocêntrico é defendido por meio de um apelo à linguagem comum. Na linguagem comum utilizamos termos que fazem referência a um suposto bem-estar de entidades não sencientes. Por exemplo, as seguintes expressões são frequentemente utilizadas:

"a planta gosta de água"; "isso foi bom para a espécie"; "a natureza quer o ", "o fungo quer umidade" etc.

Contudo, a linguagem comum pode ser altamente enganadora. Quando dizemos "a planta 'gosta' de água", ou "o fungo 'quer' umidade" (ou algum dos outros exemplos acima) estamos a utilizar esses termos em um sentido metafórico. Se afirmamos que isso mostra que entidades não sencientes possuem um bem próprio, há então um salto de um sentido metafórico para um sentido literal dos termos "gosta", "foi bom" e "quer". É como dizer (metaforicamente) "o carro quer gasolina"; "aquela música é triste"; "o mar está bravo" e depois concluir (literalmente) que o carro, a música e o mar possuem uma perspectiva de primeira pessoa, com uma vontade e um bem próprio.

É difícil conceber como é possível um organismo valorizar certos estados em detrimento de outros sem que consiga experimentar certos estados como positivos e/ou outros estados como negativos – ainda mais quando não é capaz de experimentar estado algum, sequer estados neutros. Isso nos dá razões para pensarmos que o critério adequado de consideração moral é a senciência, e não a vida meramente biológica.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VI
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Que tipo de argumento a favor do biocentrismo o capítulo examina?

Para valorizar certos estados, parece necessário...

Para pensar

Que expressões você usa no dia a dia que atribuem sentimentos a coisas que não sentem?

Notas do autor 2
  1. 60 Para exemplos, ver Attfield (1987b, p. 51), (1978, p. 310), (1962 [1923], p. 342) e Taylor (1986, p. 75). ↩
  2. 61 Para essa crítica, ver (2002 [1979], p. 420). ↩
Fontes citadas neste texto 5

A lista completa do volume está em referências do Volume VI.

  • ATTFIELD. Biocentrism, Moral Standing and Moral Significance. Philosophica, n. 39, p. 47- 58, 1987b.
  • GOODPASTER, K. E. On Being Morally Considerable. Journal of Philosophy, n. 75, p. 308- 25, 1978.
  • SCHWEITZER, A. Civilización y ética. Buenos Aires: Sur, 1962 [1923].
  • SINGER, P. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1979].
  • TAYLOR, P. Respect for nature. Princeton: Princeton University Press, 1986.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Seres vivos não sencientes também são passíveis de ser prejudicados, pois sobrevivem sob certas condições e perecem sob outras. (VI, cap. 17 e 18).
O fato de um organismo sobreviver ou perecer dependendo das condições não mostra que necessariamente é prejudicado ou beneficiado dependendo da condição em que se encontra, pois isso por si só não mostra que há alguém naquele organismo experimentando certos estados como positivos e outros como negativos.

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