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Volume VI · A quem devemos consideração moral? · capítulo 18

O comportamento de certas plantas e fungos mostra que valorizam certas coisas?

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Comportamentos de plantas e fungos (crescer em direção à luz, fechar folhas ao toque) podem ser explicados como reações físico-químicas; sem estrutura que dê lugar a experiências, comportamento sozinho não indica senciência.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VI, p. 51 da edição em PDF

Certos seres vivos não apresentam determinados comportamentos. Por exemplo, as plantas absorvem nutrientes do solo, realizam fotossíntese, algumas fecham e abrem mediante estímulos de toque ou de luminosidade e assim por diante. Também há estudos que sugerem que o crescimento de plantas é afetado por estímulos sonoros, como a fala e a música62. Há uma crença comum de que esses comportamentos mostram que tais organismos são sencientes, ou ainda, que possuem uma intencionalidade e uma vontade de permanecer nesse ou naquele estado, mesmo que não sejam sencientes. A seguir está uma explicação do porquê essa crença comum é equivocada.

A presença de comportamentos não necessariamente implica que há senciência ou valorização. Por exemplo, um termostato reage à variações na temperatura, mas isso não implica que o termostato valorize se encontrar nesta ou naquela temperatura, ou que tenha uma vontade de ficar neste ou naquele estado. Implica apenas que há essa reação mediante certo estímulo. Na verdade, existem robôs que apresentam comportamentos muito parecidos com os de humanos. Mas, isso por si só não mostra que são seres que valorizam certos estados ou que possuem uma vontade. O mesmo vale para o caso de certas plantas que se fecham ao serem tocadas ou que crescem mediante certos sons: isso não implica necessariamente que a planta gosta ou quer ficar nesse ou naquele estado. Não implica que necessariamente haja alguém ali. É possível explicar esses comportamentos como resultado de reações físico-químicas.

Por vezes os termos que são utilizados em certos estudos sobre vegetais ou fungos podem ser ambíguos, e sugerir equivocadamente que plantas ou fungos são sencientes, quando na verdade não é isso que o estudo mostra. Por exemplo, certas espécies de fungos emitem sinais elétricos. Em um estudo, as sequências desses sinais foram decodificadas e chamadas de "linguagem"63. Quando ouvimos a palavra linguagem, normalmente já subentendemos que há um indivíduo, um ser consciente, que entende os símbolos e atribui significado a estes, e que usa-os para comunicar o que se passa em sua mente. No mesmo estudo é afirmado que "a atividade elétrica é utilizada pelos fungos para se comunicarem". Isso pode dar a entender que os sinais são usados intencionalmente pelos fungos, que fungos são alguém, que possuem

consciência etc. Contudo, o termo "linguagem", tal como utilizado no estudo, é o mesmo sentido usado em inteligência artificial: fala apenas de algo que, apesar de bastante complexo, pode muito bem ocorrer sem ser acompanhado de consciência alguma. Nesse sentido, os sinais elétricos são "utilizados pelos fungos" no mesmo sentido em que um programa de computador "utiliza" os dados inseridos para desempenhar certas atividades. Isso não implica necessariamente consciência64.

Poderia ser objetado que, assim como é possível explicar tais comportamentos como resultado de reações físico-químicas, também é possível explicá-los partindo do pressuposto de que há uma vontade ou consciência nesses seres. Entretanto, o fato de uma explicação ser possível não mostra que necessariamente ela está correta. O ponto aqui é que tais comportamentos podem ser explicados sem ter-se que pressupor que tais organismos são sencientes. Isso é diferente do que ocorre, por exemplo, no caso de animais invertebrados65 como insetos, crustáceos e aracnídeos, Em seu caso, é muito difícil explicar seus comportamentos sem ter que pressupor que são sencientes. Além disso, tais animais, diferentemente de plantas ou fungos, possuem uma estrutura física (um sistema nervoso centralizado) que desempenha a função de processar as informações que chegam ao organismo e criar as condições para o aparecimento da consciência66. Já no caso de seres que não possuem um sistema nervoso (nem algo que desempenhe uma função análoga), há razões para supormos que seu comportamento é resultado de reflexos. Isso será explicado em mais detalhes a seguir.

Porque experimentam certos estados como positivos e outros como negativos os seres sencientes se comportam de determinada maneira (evitam aquilo que lhes causaria experiências negativas e buscam aquilo que lhes causaria experiências positivas). Entretanto, o fato de que há certo comportamento não é suficiente para se concluir que há valorização por parte de um organismo. Mesmo no caso dos seres sencientes, é possível que em certo momento sua senciência esteja ausente (por exemplo, mediante anestesia geral) e, ainda assim, o corpo continue a exibir certos comportamentos por conta de reflexos.

Isso funciona assim por conta do que é conhecido como arcos reflexos67. Considere por exemplo a martelada no joelho que é dada no exame para tirar carteira de motorista. Quando a informação da pancada chega no sistema nervoso, percorre dois caminhos. Um deles, mais curto e direto, vai da medula espinhal para os músculos. Outro, mais longo e indireto, vai da medula espinhal para o cérebro, onde a informação é processada e são criadas as condições para o aparecimento da experiência. É por essa razão que o reflexo do joelho é instantâneo, e a sensação chega um pouquinho depois.

Existem determinados sistemas nervosos que operam de maneira semelhante aos arcos reflexos, mas sem a parte da sensação. Por exemplo, existem certos animais, como as águas-vivas e os pepinos-do-mar, que possuem sistemas nervosos, mas não possuem nenhum cérebro ou qualquer outro órgão que desempenhe sua função68. Esses animais exibem reflexos (e por vezes comportamentos relativamente complexos), mas isso não é um indicador de que tenham experiências. Um mecanismo similar aparece em certos organismos que não possuem sistema nervoso, como as plantas carnívoras e plantas dormideiras, por exemplo.

Assim, a falta de uma estrutura física nesses organismos que desempenhe a função de criar as condições para dar lugar à experiências, e ao mesmo tempo a presença de reflexos, é uma forte razão para se concluir que a existência de comportamentos, por si só, é insuficiente para se concluir que o organismo em questão é senciente, que está a valorizar certos estados ou a exprimir uma vontade.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VI
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Por que o comportamento de plantas não basta para concluir que são sencientes?

O fato de uma explicação "com consciência" ser possível mostra que ela é a correta?

Para pensar

Que comportamentos de máquinas você poderia descrever como se elas "quisessem" algo?

Notas do autor 7
  1. 62 Ver Hassanien et. al. (2014). ↩
  2. 63 Para o estudo, ver Adamatzky (2022). ↩
  3. 64 Sobre por que uma linguagem não requer necessariamente consciência, ver Searle (1980). ↩
  4. 65 Para uma revisão dos estudos sobre senciência em animais invertebrados, ver (2019a, 2021d, 2022b). Para mais estudos sobre senciência em invertebrados, ver Smith (1991); (2001); Mather; Anderson (2007); Elwood; Barr; Patterson (2009) e (2014); et al (2021). ↩
  5. 66 Sobre o papel do sistema nervoso em criar as condições para o aparecimento da consciência, ver Ética Animal (2015a). ↩
  6. 67 Ver Ética Animal (2015c). ↩
  7. 68 Ver Ética Animal (2015e). ↩
Fontes citadas neste texto 15

A lista completa do volume está em referências do Volume VI.

  • ADAMATZKY, A. Language of fungi derived from their electrical spiking activity. Royal Society Open Science, v. 9, n. 4, 2022
  • BIRCH, J.; BURN, C.; SCHNELL, A.; BROWNING, H; CRUMP, A. Review of the Evidence of Sentience in Cephalopod Molluscs and Decapod Crustaceans. London: The London School of Economics and Political Science 2021.
  • BROOM, D. M. Sentience and animal welfare. Wallingford: CABI, 2014.
  • ELWOOD, R. W.; BARR, S.; PATTERSON, L. Pain and stress in crustaceans? Applied Animal Behaviour Science, v. 118, p. 128-136, 2009.
  • HASSANIEN, R.; HOU, T; LI, Y.; LI, B. Advances in Effects of Sound Waves on Plants. Journal of Integrative Agriculture, v. 13, n. 2, p. 335-348, 2014.
  • MATHER, J. A. Animal suffering: An invertebrate perspective. Journal of Applied Animal Welfare Science, v. 4, p. 151-156, 2001.
  • MATHER, J. A.; ANDERSON, R. C. Ethics and invertebrates: A cephalopod perspective. Diseases of Aquatic Organisms, v. 75, p. 119-129, 2007.
  • SEARLE, J. Minds, Brains and Programs. Behavioral and Brain Sciences, v. 3, n. 3, p. 417– 457, 1980.
  • SMITH, J. A. A question of pain in invertebrates. ILAR Journal, v. 33, p. 25-31, 1991.
  • ÉTICA ANIMAL. Critérios para reconhecer a senciência. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 24 out. 2015a.
  • ÉTICA ANIMAL. O problema da consciência. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 24 out. 2015c.
  • ÉTICA ANIMAL. Que seres não são conscientes? Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 19 out. 2015e.
  • ÉTICA ANIMAL. Senciência em invertebrados: uma revisão da literatura neurocientífica. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 20 ago. 2019a.
  • ÉTICA ANIMAL. Uma fisiologia ilustrada do sistema nervoso de invertebrados. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 3 set. 2021d.
  • ÉTICA ANIMAL.Senciência em invertebrados: uma revisão das evidências comportamentais. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 20 jul. 2022b.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Seres vivos não sencientes também são passíveis de ser prejudicados, pois sobrevivem sob certas condições e perecem sob outras. (VI, cap. 17 e 18).
O fato de um organismo sobreviver ou perecer dependendo das condições não mostra que necessariamente é prejudicado ou beneficiado dependendo da condição em que se encontra, pois isso por si só não mostra que há alguém naquele organismo experimentando certos estados como positivos e outros como negativos.

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