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Volume VI · A quem devemos consideração moral? · capítulo 16

Senciência e vida: o que tem valor enquanto fim e o que tem valor enquanto meio?

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Que estar vivo seja necessário para ser senciente não dá à vida valor em si; é o contrário: a vida biológica tem valor como meio para experiências significativas, e não a senciência como meio para a vida.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VI, p. 46 da edição em PDF

16.1. Se estar vivo é necessário para ser senciente, estar vivo tem valor em si?

Por vezes é defendido que, para haver , é preciso que o organismo esteja vivo e que, por isso, deveríamos dar a todos os seres vivos, sencientes ou não.

A alegação de que a vida biológica é necessária para a senciência talvez se revele como falsa se no futuro vierem a existir seres sencientes não orgânicos (por exemplo, em meios digitais). Essa é uma possibilidade aceita por muitos especialistas em filosofia da mente e também por muitos cientistas58. Se vierem a existir seres desse tipo, seriam seres sencientes, mas não estariam vivos, pois não teriam as características essenciais que definem um ser vivo: manter homeostase, possuir um ciclo de vida, ser composto de células, sofrer metabolismo etc. Assim, é possível que no futuro haja seres sencientes que não serão seres vivos. Entretanto, pelo menos em relação aos seres sencientes que existem até agora, a vida biológica parece necessária para a senciência.

Porém, independentemente disso, observar que a vida biológica é necessária para a senciência não serve como defesa de que devemos considerar os seres vivos não sencientes, pois o que essa observação mostra é que a vida biológica tem valor instrumental para a senciência, e não, valor em si. Isto é, o que a observação em questão faz é dizer que a vida biológica é importante porque é (pelo menos até agora) essencial para haver senciência. Mas, mostrar que algo tem valor enquanto meio não é mostrar que esse algo tem valor em si.

É claro, isso também não mostra que é impossível que a vida biológica tenha . Entretanto, mostra que, se tiver, será por outra razão, e não por ter à senciência. Obviamente, não é possível mostrar que algo possui valor em si apontando que ele possui valor instrumental. Assim, ainda que a observação em questão ofereça razões para mantermos vivos os seres sencientes, não oferece razões para mantermos vivos os organismos não sencientes.

16.2. Não seria a senciência apenas um meio para manter a vida?

Considere agora a alegação oposta. Outro argumento que tenta mostrar que o que possui valor em si é a vida biológica, e não a senciência, aponta que os seres sencientes usam a sensação da dor para evitar o que os mataria e, por meio das sensações positivas, sabem quais coisas contribuem para permanecerem vivos.

Segundo esse argumento, a senciência é apenas um meio para preservar a vida: as experiências positivas não teriam valor em si e as experiências negativas não seriam ruins em si. Segundo essa visão, o valor da senciência seria meramente instrumental ao que realmente possui valor em si: estar vivo. O argumento conclui então que os seres vivos (sencientes ou não) deveriam receber consideração moral direta.

O principal problema com esse argumento é que, do fato de que os seres sencientes evitam as experiências negativas e buscam permanecer vivos não se segue que o façam porque enxerguem a vida biológica como possuindo valor em si. O principal motivo pelo qual evitam experiências negativas é o próprio fato de serem negativas. É claro que é possível evitar certa coisa que causa sofrimento também por sabermos que ela nos causaria a morte. Mas, do fato de que almejamos permanecer vivos não segue que vejamos a vida biológica como tendo valor em si. Isso será explicados em mais detalhes a seguir.

Normalmente, pensamos que estar vivo é bom porque nos permite ter experiências valiosas59. Os seres sencientes buscam certas coisas porque valorizam as experiências que essas coisas proporcionam. Não veem essas experiências como possuindo valor meramente instrumental à permanecerem vivos. Ao invés, estar vivo é bom porque permite essas experiências. Se essas experiências também contribuem para que continuemos biologicamente vivos ou para outras coisas (como a continuidade da espécie, por exemplo), isso é apenas um efeito colateral: isso, por si só, não indica que os seres sencientes almejem tais coisas enquanto fins.

Normalmente pensamos que vale a pena viver quando a vida contém experiências valiosas o bastante para considerarmos permanecer vivo melhor do que morrer. Se pensássemos que a vida biológica possui valor em si, manteríamos que há algo de bom em permanecer como um

corpo vivo sem nenhuma possibilidade de experiências (e nem de voltar a tê-las), e inclusive quando experimentássemos apenas sofrimento extremo e nada mais. Entretanto, esse não parece ser o caso.

Isso tudo sugere que temos razões para concluir o oposto do que a objeção mantém: estar vivo é que só tem valor enquanto meio para se ter experiências significativas.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VI
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Qual conclusão o capítulo tira sobre vida e senciência?

Ser necessário para algo valioso implica ter valor em si?

Para pensar

Você gostaria de continuar vivo para sempre sem nunca mais sentir nada? Por quê?

Notas do autor 2
  1. 58 Ver (2015b). ↩
  2. 59 Sobre o dano da morte para os animais não humanos, ver (2007, p. 537-777; 2010c) e (2022a, p. 61-92). ↩
Fontes citadas neste texto 4

A lista completa do volume está em referências do Volume VI.

  • CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.
  • HORTA, O. Igualitarismo, igualación a la baja, antropocentrismo y valor de la vida. Revista de Filosofía da Universidad Complutense de Madrid, v. 35, n. 1, p. 133-152, 2010c.
  • HORTA, O. Un desafío para la bioética: la cuestión del especismo. Tese (Doutorado em Filosofia). Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, 2007.
  • TOMASIK, B. Why digital sentience is relevant to animal activists. Animal Charity Evaluators. 03 fev. 2015b.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Os seres sencientes usam a sensação da dor para evitar o que os mataria e, por meio das sensações positivas, sabem quais coisas contribuem para permanecerem vivos. Logo, a senciência é apenas um meio para preservar a vida, que é o que realmente tem valor em si. (VI, cap. 16 e 19).
O fato de almejarmos permanecer vivos não implica que a vida biológica possua valor em si. Normalmente, pensamos que estar vivo é bom porque nos permite ter experiências valiosas. Não vemos tais experiências como possuindo valor meramente instrumental a permanecermos vivos. Em vez disso, estar vivo é bom porque permite essas experiências. Se pensássemos que a vida biológica possui valor em si, manteríamos que há algo de bom em permanecer como um corpo vivo sem nenhuma possibilidade de experiências (e nem de voltar a tê-las), e inclusive quando só pudéssemos experimentar sofrimento extremo e nada mais.

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