Volume VI · A quem devemos consideração moral? · capítulo 15
O biocentrismo é melhor, já que inclui um número maior de seres?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Um critério mais abrangente não é necessariamente melhor: teria de ser mostrado que os seres incluídos podem de fato ser prejudicados; e o biocentrismo exclui possíveis sencientes não vivos, discriminando-os.
Uma regra que deixasse pedras votarem incluiria "mais gente", mas não seria uma regra melhor. O que importa não é quantos entram, mas se faz sentido que entrem.
Um seguro que cobrisse "tudo, inclusive nuvens" não seria mais justo: nuvens não podem ser prejudicadas.
- P1 O argumento diz que, se incluir mais seres torna a senciência melhor que o antropocentrismo, a vida é melhor que a senciência.
- P2 O que justifica incluir os sencientes é poderem ser prejudicados, não o número.
- P3 Não foi mostrado que seres vivos não sencientes podem ser prejudicados.
- P4 E o biocentrismo excluiria seres sencientes não vivos, se existirem.
- C Logo, o biocentrismo não é melhor por ser mais abrangente.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “O biocentrismo é mais inclusivo, então é mais ético.”
Resposta Incluir não é um valor em si. Um critério bom inclui quem pode ser prejudicado e não exclui ninguém que possa, o que o biocentrismo não faz com possíveis sencientes artificiais.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VI, p. 43 da edição em PDF
15.1. Critérios de consideração moral com diferentes amplitudes
Considere os seguintes critérios de :
- O critério prescreve dar consideração moral a todos os membros da espécie humana.
- O critério da prescreve dar consideração moral a todos os seres capazes de sofrer e desfrutar.
- O critério prescreve dar consideração moral a tudo o que for vivo, independentemente de ser ou não senciente55.
Por vezes é alegado que, se o critério da senciência é melhor do que o critério antropocêntrico por incluir um maior número de seres na esfera de consideração moral, pela mesma razão o critério biocêntrico é melhor do que o critério da senciência, dado que inclui na esfera de consideração moral os seres sencientes e também os seres vivos não sencientes.
15.2. O fato de um critério ser mais abrangente torna-o necessariamente melhor?
Um problema com essa alegação é não distinguir o ponto a seguir. Aquilo que explica por que humanos devem ser moralmente considerados (a possibilidade de serem prejudicados e beneficiados) implica que todo ser senciente também deve ser. Contudo, aquilo que explica por que todo ser senciente deve ser considerado (isto é, a possibilidade de serem prejudicados e beneficiados) não implica que todo ser vivo também deva sê-lo.
Há diferença entre um critério ser mais adequado por incluir seres que seriam prejudicados caso fossem excluídos, e um critério incluir seres que não são passíveis de ser prejudicados e/ou beneficiados. A quantidade de objetos incluídos não é por si só, relevante.
Por exemplo, uma teoria que dê consideração moral a todos os seres vivos e também a mesas e cadeiras inclui um maior número de objetos na esfera de consideração moral. Mas, isso não a torna necessariamente melhor. Da mesma maneira, mesmo que o biocentrismo inclua um maior número de seres, isso não o torna necessariamente melhor. O que teria de ser mostrado é que os seres vivos não sencientes são prejudicados caso não sejam incluídos. Isso poderia ser tentado oferecendo-se outros argumentos (que discutiremos nos capítulos seguintes). Entretanto, nossa conclusão agora é mais específica: a fato de um critério incluir uma quantidade maior de seres não mostra isso.
15.3. Será mesmo que o biocentrismo inclui todos os seres sencientes e os seres vivos?
Além disso, também é questionável a afirmação de que o biocentrismo incluiria uma quantidade maior de seres na esfera de consideração moral do que o critério da senciência. O critério biocêntrico por vezes é entendido como dando consideração moral a todos os seres sencientes e também a todos os seres vivos não sencientes. Entretanto, é falso que o critério biocêntrico daria consideração moral a todos os seres sencientes. Isso é assim porque o critério biocêntrico só dá consideração moral a seres vivos. Por essa razão, se no futuro vierem a existir formas de senciência não orgânicas (por exemplo, seres sencientes em meios digitais), esses seres seriam excluídos pelo critério biocêntrico, pois como não seriam orgânicos, não seriam seres vivos56 (apesar de terem consciência). Entretanto, como esses seres também seriam capazes de sofrer e desfrutar, seriam incluídos pelo critério da senciência. Portanto, não é verdade que o critério biocêntrico seria uma "expansão para além da senciência', pois sequer daria consideração moral a todos os seres sencientes. Além disso, há possibilidade de no futuro os seres sencientes não orgânicos virem a ser muito numerosos, talvez muito mais numerosos do que os seres biológicos57. Assim, também não é verdade que o número de seres incluídos pelo critério biocêntrico é necessariamente maior do que o número de seres incluídos pelo critério da senciência.
Portanto, faz sentido afirmar que o critério biocêntrico comete discriminação contra quem não é um ser vivo, pois excluiria da esfera de consideração moral seres que, de fato, poderiam ser prejudicados e beneficiados, uma vez que seriam capazes de sofrer e desfrutar mesmo não sendo orgânicos.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O que explica por que humanos devem ser considerados, segundo o capítulo?
O critério biocêntrico poderia discriminar quem?
Para pensar
O que torna um critério de inclusão bom, além de incluir muita coisa?
Notas do autor 3
- 55 Para exemplos de proponentes do critério biocêntrico, ver (1978) e Taylor (1986). ↩
- 56 Poderia ser objetado que tais seres estariam vivos porque teriam uma vida psicológica. Entretanto, os termos "vida psicológica" e "seres vivos", apesar de fazerem referência ao mesmo conceito (vida) referem-se a coisas muito diferentes. O termo seres vivos refere-se a seres que mantém homeostase, são compostos de células, sofrem metabolismo, nascem, crescem, envelhecem, morrem etc. Se a senciência não orgânica for possível, então não é necessário estar vivo para se ter uma existência psicológica (isto é, uma existência enquanto ser senciente). O critério biocêntrico prescreve considerar todos os seres vivos, e não, todos os seres capazes de ter uma existência psicológica. ↩
- 57 Sobre a possibilidade de senciência em meios digitais, ver (2015b). ↩
Fontes citadas neste texto 3
A lista completa do volume está em referências do Volume VI.
- GOODPASTER, K. E. On Being Morally Considerable. Journal of Philosophy, n. 75, p. 308- 25, 1978.
- TAYLOR, P. Respect for nature. Princeton: Princeton University Press, 1986.
- TOMASIK, B. Why digital sentience is relevant to animal activists. Animal Charity Evaluators. 03 fev. 2015b.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
O critério da senciência é melhor do que o antropocêntrico pois inclui um número maior de seres. Pela mesma razão, o critério da vida é melhor do que o da senciência. (VI, cap. 15).
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