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Volume VI · A quem devemos consideração moral? · capítulo 14

Se alguma entidade não senciente tiver valor em si, quais as implicações?

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Mesmo que entidades não sencientes tivessem valor em si, haveria fortes razões para priorizar os seres sencientes em conflitos: só eles podem sofrer e só para eles a morte impede experiências positivas.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VI, p. 41 da edição em PDF

Considere a seguinte questão: as entidades não valorizadas pelo (como ecossistemas, espécies, etc.) possuem valor em si, ou possuem valor apenas enquanto recurso para os seres sencientes? Frequentemente é assumido que, se tiverem , então está justificado matar os animais não humanos para preservá-las e proibir ajudar os animais na natureza que são vítimas dos processos naturais. Entretanto, como veremos a seguir, essa ideia é equivocada.

Para começar, a ideia de que há valor para além da senciência é, para dizer o mínimo, altamente controversa. Por exemplo, ela implicaria em dizer que um universo sem ser senciente algum ainda poderia ser melhor ou pior, mesmo que não houvesse ninguém nesse universo para quem as coisas pudessem ser melhores ou piores (já que em tal universo não haveria ninguém). Contudo, suponhamos para efeito de argumentação que as entidades valorizadas no ambientalismo realmente tivessem valor em si. Isso não necessariamente implicaria que, então, está justificado prejudicar os animais para preservá-las ou proibir ajudar os que são vítimas de processos naturais, pois poderiam haver razões para priorizarmos os seres sencientes frente a entidades não sencientes.

A ideia de que os interesses básicos de seres sencientes devem ser priorizados frente a entidades não sencientes já é amplamente aceita quando o que está em jogo é o bem dos humanos. Isso é aceito pelos próprios ambientalistas. Geralmente os ambientalistas defendem que as metas ambientalistas são mais importantes do que certos interesses humanos (como interesses econômicos, estéticos e recreativos), mas, não mais importantes do que os interesses básicos de humanos, como não sofrer e não morrer. Mas, se o especismo é injustificável, então também não há justificativa para defender que é certo matar ou causar sofrimento aos animais não humanos para alcançar metas ambientalistas, ou que não devemos ajudá-los quando forem vítimas de processos naturais.

Mas, e se alguém afirmasse que deveríamos sacrificar os seres sencientes – humanos e não humanos – em prol das metas ambientalistas54? Essa posição não é , mas isso não implica que esteja justificada, pois existem razões para se priorizar os seres sencientes. A

principal razão é a seguinte. Diferentemente de entidades não sencientes, os seres sencientes são literalmente passíveis de ser prejudicados e beneficiados, seja com experiências negativas (todas as formas de sofrimento), seja pelo impedimento de experiências positivas (como acontece quando morrem, por exemplo). Esses são prejuízos particularmente graves. Espécies, ecossistemas, processos naturais, , etc. podem estar presentes em maior ou menor grau; podem existir ou desaparecer; mas não é possível que experimentem o horror do sofrimento excruciante, nem que sejam privados de bons anos de experiências positivas, pois entidades não sencientes não são alguém.

Por essas razões, mesmo que as entidades valorizadas no ambientalismo tivessem valor em si ainda haveria fortes razões para, em casos de conflito, priorizar o bem dos seres sencientes. A conclusão principal que se segue disso são duas. A primeira é que, mesmo que devêssemos acatar as metas ambientalistas, ainda não haveria justificativa para causar sofrimento ou morte a seres sencientes ao se tentar alcançar tais metas. A segunda é que, mesmo que devêssemos acatar as metas ambientalistas, isso seria insuficiente para rejeitar a proposta de ajudar os animais que vivem na natureza e são vítimas de processos naturais.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VI
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Sacrificar humanos e animais igualmente pelas metas ambientalistas seria especista?

Quais são as duas razões para priorizar os sencientes?

Para pensar

Se você tivesse de escolher entre preservar uma paisagem rara e evitar o sofrimento de milhares de animais, o que escolheria?

Notas do autor 1
  1. 54 Isso foi defendido, por exemplo, por (1979, 2000, 2009). ↩
Fontes citadas neste texto 3

A lista completa do volume está em referências do Volume VI.

  • LINKOLA, K. P. Can Life Prevail? A Radical Approach to the Environmental Crisis. Budapest: Aktos Media, 2009.
  • LINKOLA, K. P. Toisinajattelijan päiväkirjasta. Porvoo: WSOY, 1979.
  • LINKOLA, K.P. Humanflood. In: PARFREY, A. (org.). Apocalypse Culture II. Port Townsend: Feral House, 2000, p. 436-51.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

E, se o critério da senciência estiver errado? Se entidades não sencientes (como plantas, ecossistemas, espécies etc.) forem consideráveis, está justificado prejudicar os seres sencientes se isso for necessário para preservá-las. (VI, cap. 14).
Mostrar que uma entidade é moralmente considerável não é o mesmo que mostrar que ela deve ter prioridade. Mesmo que entidades não sencientes fossem consideráveis, há razões para, em casos de conflito, priorizar os seres sencientes. As principais razões são duas: (1) apenas seres sencientes são capazes de experimentar sofrimento (2) apenas no seu caso a morte impede experiências positivas. Esses são danos particularmente graves, que nenhuma entidade não senciente é passível de padecer.

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