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Volume IV · O debate sobre a exploração animal · capítulo 4

E as plantas?

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A objeção das plantas falha: plantas estão vivas, mas, sem sistema nervoso centralizado, não há indícios de que sejam sencientes; e se fossem, comer animais mataria ainda mais plantas, e o que se seguiria seria o frutarianismo, não comer de tudo.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume IV, p. 33 da edição em PDF

Um argumento muito comumente endereçado para defender o consumo de animais afirma que aquilo que poderia tornar errado consumir os animais implica que também seria errado consumir plantas, e que, então, tanto faz consumir um ou outro. Chamemos esse argumento de objeção das plantas. Ela possui duas variações, discutidas separadamente a seguir.

4.1. A variação "plantas também estão vivas"

A primeira variação da objeção das plantas diz que tanto faz consumir animais ou plantas, uma vez que em ambos os casos causaremos mortes.

Frequentemente essa objeção é respondida apontando-se que, se o objetivo de alguém é matar o menor número de organismos vivos, então deve abandonar o consumo de animais, pois boa parte dos vegetais produzidos no mundo é usada para engordar os animais que serão mortos103. Há dois problemas com essa resposta. O primeiro é que o defensor do consumo de animais poderia responder apontando que, se consumirmos apenas animais aquáticos pescados diretamente no mar, mataremos ainda menos organismos, pois não se usa plantações para engordar esses animais. O segundo problema é que a resposta não discute a pressuposição presente na objeção de que, se a morte é um dano para os animais, também é um dano para plantas. Como veremos a seguir, essa pressuposição é equivocada.

A razão pela qual a morte é um dano não é porque ela impede a continuação da vida biológica, e sim, porque impede o indivíduo de continuar a desfrutar as coisas positivas que experimentaria se continuasse vivo. Isso mostra que a morte só prejudica seres sencientes, pois apenas em seu caso há alguém a habitar aquele corpo (um indivíduo, uma consciência), que a morte privaria de desfrutar algo de positivo. Seres vivos que não possuem consciência são corpos vivos. Não há alguém que vive aquelas vidas. Portanto, não há alguém ali para ser prejudicado com a morte.

Poderia ser objetado que toda e qualquer vida, mesmo sem possibilidade alguma de , é sempre valiosa. Entretanto, o experimento mental a seguir sugere que, para uma vida ser valiosa, é necessário que haja a possibilidade de acontecer experiências nessa vida.

Imaginemos que alguém garanta que consegue nos dar uma vida após à morte se pagarmos uma boa quantia mensal até o final da vida, e garante que a vida futura será valiosa para nós. Contudo, suponhamos que, depois de pagarmos durante a vida inteira, descubramos que renasceremos como organismos vivos, mas sem possibilidade alguma de senciência. Se nesse caso fomos enganados, então é porque uma vida meramente biológica, sem possibilidade alguma de experiências, não é valiosa104.

Assim, as razões contra matar animais não implicam que haja razões contra matar plantas, muito pelo contrário. Portanto, a primeira variação da objeção das plantas falha.

4.2. A variação "plantas também são sencientes"

A segunda variação das objeção das plantas defende que plantas são sencientes, e que então estamos justificados a consumir os animais pois, seja lá o que escolhamos consumir, estaremos matando seres sencientes (que seriam, portanto, prejudicados com a morte). Essa variação possui dois problemas, que discutiremos a seguir.

O problema menor

O problema menor é que na maioria das vezes a alegação de que plantas são sencientes está fundada na ideia equivocada de que evidências comportamentais são indicadores suficientes de senciência. Por exemplo, em defesa de que plantas são sencientes frequentemente é mencionado que elas exibem uma série de comportamentos. Por exemplo, há plantas que se fecham ao serem tocadas, como as dormideiras e as plantas carnívoras. Além disso, as plantas desempenham inúmeras funções em relação à absorção de nutrientes do solo, realização de fotossíntese e assim por diante.

O problema com isso é que haver comportamento, por si só, não mostra que há senciência. E possível haver comportamentos bastante complexos que, contudo, são apenas reações físico-químicas do tipo estímulo-resposta, sem haver alguém experimentando internamente o que está ocorrendo. Mesmo no caso dos animais o comportamento, por si só, não é evidência suficiente de senciência. Isso é assim por conta dos arcos reflexos, explicados a seguir.

Quando a informação por meio de um estímulo externo chega a um sistema nervoso, percorre dois caminhos. Um deles, mais curto, vai diretamente para os músculos, gerando a reação que é um reflexo (daí o nome arco reflexo)105. O outro caminho, mais longo, vai para o cérebro, onde a informação é processada e são criadas as condições para ter lugar a experiência. Por exemplo, quando tocamos a mão em uma chapa quente instantaneamente afastamos a mão, mas apenas alguns microssegundos depois é que sentimos algo. Um músculo pode continuar a exibir o reflexo mesmo se tiver sido cortada a parte sensorial (por exemplo, mediante anestesia local)106. Alguns tipos de sistemas nervosos operam somente com a parte do arco reflexo. Esse é o caso de animais que possuem sistemas nervosos, mas sem nenhum órgão centralizador (nenhum cérebro, nenhum gânglio), como os cnidários (águas-vivas por exemplo) e os equinodermos (como estrelas-do-mar e pepinos-do-mar). Esses animais podem até mesmo exibir comportamentos bastante complexos, mas unicamente com o reflexo, sem ter alguém ali para experimentar algo. No caso das plantas sequer há um sistema nervoso. Então é muito provável que os seus comportamentos, seja lá de que tipo forem, sejam resultado apenas de reações físico-químicas.

Assim, o critério principal para avaliar se um ser é senciente é a presença de um sistema nervoso com centralização (um cérebro ou gânglios por exemplo), pois é o processamento da informação que ocorre no órgão centralizador que fornece as condições para a manifestação da consciência107. Se um organismo apresenta tal estrutura, o modo como se comporta pode ser um bom indicador adicional de que é senciente, mas somente se a melhor explicação para o seu comportamento geral for partir do pressuposto de que está evitando experiências negativas e buscando experiências positivas. Por essa razão, as evidências comportamentais úteis para averiguar se um ser é ou não senciente não são aquelas que dizem respeito a comportamentos em situações específicas, mas o modo como se comporta em geral. No caso

das plantas, além de elas não terem sequer sistema nervoso (muito menos órgão centralizador), parece que a melhor maneira de explicar os seus comportamentos não é partindo do pressuposto de que são sencientes. Veremos mais sobre isso a seguir.

Os traços que possuem maior probabilidade de prevalecer ao longo de gerações são aqueles que dão uma vantagem em termos de transmissão da informação genética. Por exemplo, se determinado traço ajuda um animal a sobreviver, aumenta a probabilidade de ele também se reproduzir e, assim, passar esse traço adiante. Se a senciência não desse vantagem alguma aos seus portadores, muito provavelmente não teria sido passada adiante, pois requer um gasto considerável de energia. Por exemplo, no caso humano, em torno de 20% da energia do organismo é gasta na manutenção das estruturas associadas ao cérebro108. Assim, a senciência provavelmente prevaleceu porque deu alguma vantagem em termos de sobrevivência aos seus portadores. Do contrário seus portadores provavelmente teriam perecido sem deixar descendentes.

A vantagem evidente é que a senciência está associada à motivação para o comportamento: um ser senciente tende a evitar as experiências negativas e buscar as experiências positivas. Como os animais podem se mover no ambiente, tal capacidade aumenta as suas chances de sobrevivência e, por conseguinte, de transmissão da informação genética. Entretanto, esse não é o caso das plantas, uma vez que não podem se mover. Em seu caso, a senciência envolveria um gasto considerável de energia sem nenhuma vantagem. Portanto, é muito pouco provável que um traço assim tenha prevalecido em plantas ou fungos, por exemplo109.

Assim, para se defender que plantas são sencientes teria de ser mostrado que: (1) possuir um sistema nervoso com órgão centralizador ou uma estrutura que desempenhe uma função similar não é necessário para haver senciência; (2) que evidências comportamentais são suficiente para a senciência e que (3) traços que envolvem um gasto considerável de energia e não dão vantagem evolutiva aparente aos seus portadores podem, ainda assim, prevalecer ao longo das gerações. Isso é, no mínimo, muito difícil de ser demonstrado.

Isso não significa que seja impossível cumprir essas condições. Porém, significa que o é de quem afirma que plantas são sencientes. Por exemplo, em relação à primeira

condição, teria de ser explicado por meio de qual outro mecanismo seria possível aparecer a senciência que tornasse o sistema nervoso desnecessário. Também teria de ser explicado então qual seria o papel do sistema nervoso, e assim por diante.

Um dos fatores que por vezes leva à crença de que plantas são sencientes é que há vários estudos sobre plantas e fungos que usam termos como "aprendizado", "memória', "comunicação", "experiência" etc. Na maioria desses estudos esses termos são utilizados para se referir unicamente a comportamento, sem afirmar que há ali senciência. Entretanto, na linguagem comum esses termos estão associados à senciência, isto é, são usados de modo que indica que há alguém ali aprendendo, memorizando, se comunicando, experimentando etc. Então, é possível que determinado estudo sobre plantas ou fungos use esses termos em um sentido que não implica senciência e alguém que lê o estudo de modo não muito atento pense que se trata de um estudo de demonstra senciência em plantas ou fungos.

O problema maior

O problema maior com o argumento é o seguinte: mesmo que tivesse sido demonstrado que plantas são sencientes a implicação prática que se seguiria disso seria o oposto daquilo que os proponentes do argumento concluem. Lembremos que a alegação de que plantas são sencientes é normalmente trazida à tona para tentar justificar o consumo de animais. Entretanto, se plantas fossem sencientes (ou fossem moralmente consideráveis por alguma outra razão), o que se seguiria não é que estamos justificados a consumir animais e plantas, e sim, que deveríamos ser frutarianistas botânicos éticos.

Essa postura se caracteriza pelo consumo de apenas daquilo que se desprende de uma planta. Isso inclui, além de tudo aquilo que é normalmente referido pelo nome de fruta (como bananas, laranjas, maçãs, morangos etc.) também oleaginosas, sementes, cereais, leguminosas e vegetais como tomates, abóboras, abobrinhas, pimentão, berinjela etc.

Observe que a implicação de se praticar o frutarianismo existiria, quer alguém defenda que plantas são sencientes, quer alguém defenda que plantas devem ser moralmente consideradas porque estão vivas. É por essa razão que, seja lá de qual variante da objeção das plantas estivermos a falar, ela não consegue justificar o consumo de animais.

Normalmente, quando as pessoas percebem que a objeção das plantas implica o frutarianismo, param imediatamente de defendê-la. Isso revela que não tinham uma preocupação real com as plantas: tratava-se apenas de uma desculpa para continuarem consumindo animais. Entretanto, independentemente disso, o ponto importante a se observar a partir da análise feita acima é o seguinte: seja lá se for mencionada de maneira hipócrita (como normalmente é o caso), ou por conta de uma preocupação séria com as plantas (como raramente é o caso), a objeção das plantas não consegue justificar o consumo de animais.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume IV
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Qual é o principal critério para avaliar se um ser é senciente, segundo o capítulo?

Se as plantas fossem sencientes, o que se seguiria?

Para pensar

Quem usa a objeção das plantas costuma mudar algo na própria dieta por causa delas? O que isso revela?

Notas do autor 7
  1. 103 Essa resposta é dada por (2004 [1975], cap. 6). ↩
  2. 104 Obviamente, isso é diferente de se estar com a senciência apenas temporariamente impossibilitada (como em um sono sem sonhos ou em um estado comatoso vegetativo, porém reversível). ↩
  3. 105 Sobre isso ver (2015c). ↩
  4. 106 Ver Miller; Pardo (2011). ↩
  5. 107 Sobre o papel do sistema nervoso e do processamento que ocorre no órgão centralizador como fundamentais para a manifestação da consciência, ver Ética Animal (2015a, 2015c). ↩
  6. 108 Ética Animal (2015a). ↩
  7. 109 Para uma explicação mais detalhada sobre esse ponto, ver Ética Animal (2015e). ↩
Fontes citadas neste texto 5

A lista completa do volume está em referências do Volume IV.

  • MILLER, R. D.; PARDO, M. C. Basics of Anesthesia. 6ª ed. Philadelphia: Elsevier Saunders, 2011.
  • SINGER, P. Libertação Animal. Porto Alegre/São Paulo: Lugano, 2004 [1975].
  • ÉTICA ANIMAL. Critérios para reconhecer a senciência. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 24 out. 2015a.
  • ÉTICA ANIMAL. O problema da consciência. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 24 out. 2015c.
  • ÉTICA ANIMAL. Que seres não são conscientes? Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 19 out. 2015e.

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