Volume VIII · Um ativismo eficiente · capítulo 3
Dentre os problemas que afetam os animais, quais são mais importantes?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Dentro da causa animal, os problemas mais negligenciados e graves são os animais criados para alimentação (sobretudo aquáticos e invertebrados), os animais na natureza vítimas de processos naturais e o futuro; por isso, é aí que podemos fazer mais diferença.
Muita gente que ama os bichos pensa em cães e gatos. Mas os bichos que mais sofrem, em número, são peixes, camarões, insetos e os animais da natureza. E quase ninguém ajuda esses.
Se todos os voluntários de uma cidade fossem para o mesmo abrigo, enquanto bairros inteiros ficam sem ajuda, a cidade estaria desperdiçando boa vontade.
- P1 O especismo leva a priorizar problemas humanos e, dentro da causa animal, os animais mais parecidos conosco.
- P2 Os animais aquáticos, os invertebrados, os animais selvagens e os seres futuros são vítimas em número astronomicamente maior.
- P3 Esses problemas são altamente negligenciados.
- C Logo, há razões duplas para focar neles: estão entre os mais graves, e é onde mais podemos fazer diferença.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “A prioridade é acabar com o abandono de cães e gatos.”
Resposta É um problema real, mas pequeno em número perto de trilhões de peixes, crustáceos e insetos explorados, e dos animais na natureza.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VIII, p. 24 da edição em PDF
3.1. Introdução
Em decorrência do , a maioria das pessoas têm priorizado problemas humanos e, com isso, têm negligenciado problemas que afetam uma quantidade astronomicamente maior de vítimas. Discutimos esse ponto no capítulo anterior.
Veremos agora como o mesmo problema (negligência de situações que afetam uma quantidade vastamente maior de vítimas) afeta também os ativistas da causa animal. A seguir estão quatro exemplos.
3.2. Negligência em relação aos animais explorados para fins alimentícios
Os dados a seguir dizem respeito a um único país e a certos tipos de animais, mas representam bem o que acontece em geral.
De todos os vertebrados terrestres explorados nos EUA17:
- Mais de 99,7% são mortos na pecuária.
- 0,2% são mortos em laboratórios
- 0,07% são mortos na indústria de vestimentas
- 0,03% são mortos em abrigos.
Contudo, a quantidade de doações não é proporcional à quantidade de animais afetados em cada situação. Na verdade, é quase que inversamente proporcional.
De todas as doações feitas para a causa animal nos EUA18:
- 66% vão para abrigos.
- 32% vão para grupos com atividades mistas.
- 0,7% vão para organizações focadas em animais em laboratórios.
- Apenas 0,8 % vai para organizações focadas em animais na pecuária.
3.3. Negligência da exploração sobre animais aquáticos e invertebrados
Mesmo quando os animais usados para consumo são mencionados, a vasta maioria dos animais usados para esse fim é . Por exemplo, os ativistas da causa animal costumam mencionar que em torno de 80 bilhões de animais são mortos anualmente para consumo. Entretanto, essa estimativa refere-se apenas ao número de mortes de mamíferos e de aves, o que deixa de fora os animais aquáticos (vertebrados e invertebrados) e os invertebrados terrestres, que são a esmagadora maioria dos animais explorados para consumo.
A seguir estão alguns dados sobre mortes anuais de animais explorados para fins alimentícios. Essas estatísticas estão em escala curta, utilizada no Brasil, onde 1 bilhão corresponde a 10^9, um trilhão corresponde a 10^12 e assim por diante.
- Mamíferos e aves: cerca de 80 bilhões19.
- Peixes criados em fábricas: entre 51 e 167 bilhões20.
- Peixes capturados diretamente no mar: entre 787 bilhões e 2,3 trilhões21.
- Animais aquáticos utilizados como ração para os peixes que os humanos criam em fábricas para consumir diretamente: entre 462 bilhões e 1,1 trilhão22.
- Decápodes (camarões, siris e lagostas) criados em fábricas: entre 255 e 604 bilhões23.
- Bichos-da-seda mortos para a produção de seda: entre 420 bilhões e 1 trilhão24.
- Insetos mortos para consumo: entre 2 e 3,2 trilhões25.
- Não há dados sobre a quantidade de abelhas mortas para a produção de mel, mas a população de abelhas criadas para a fabricação de mel está entre 1,4 e 4,8 trilhões de indivíduos em um dado momento26.
- Cochonilhas mortas na produção do corante carmim: entre 4,6 e 21 trilhões27.
- Camarões mortos pescados diretamente no mar: em torno de 25 trilhões28.
A soma desses números sugere que são mortos algo entre 34 e 54 trilhões de animais para consumo anualmente em nível global. Isso significa que os 80 bilhões, normalmente mencionados pelos ativistas, representam apenas algo entre 0,1 % e 0,2% dos animais mortos para consumo. Os camarões, que representam algo entre 46% e 73% dos animais explorados, raramente são mencionados pelos ativistas e por autores da área de ética animal.
Essa negligência pode ocorrer devido a diversos fatores. Eis alguns exemplos:
- Um deles é a possibilidade de os próprios ativistas e autores darem menos consideração a animais como insetos, crustáceos e peixes. Isso, por sua vez, pode ocorrer por motivos diversos como, por exemplo, o fato de esses animais despertarem menos empatia nos humanos, o fato de serem menores, o fato de terem menores capacidades cognitivas etc.
- Outro é o da insensibilidade ao alcance (também chamado de ou insensibilidade ao escopo). Quando comparamos duas quantidades muito grandes, esse viés impede que percebamos a diferença de magnitude entre elas. Então, é possível que mesmo alguém que dê igual consideração a todos os seres sencientes negligencie os problemas que afetam uma quantidade vastamente maior de animais simplesmente por não perceber o quão maior é essa quantidade.
3.4. Negligência em relação aos animais na natureza vítimas de processos naturais
A situação dos animais na natureza em decorrência dos é ainda mais negligenciada. Novamente, isso ocorre por diversos fatores. Eis alguns exemplos:
- Há um amplo desconhecimento de que os processos naturais maximizam a quantidade de animais que nascem apenas para sofrer intensamente e morrer prematuramente.
- Por conta desse desconhecimento, muitas pessoas pensam equivocadamente que a quantidade de animais sofrendo na natureza é menor do que a quantidade de animais explorados. Aqui você pode ver uma comparação desses números.
- Há uma crença prevalente de que devemos limitar nossa atenção aos danos que os animais padecem em decorrência de práticas humanas.
- Outra crença muito comum é a de que, se deixarmos a natureza seguir o seu curso, o resultado será predominantemente positivo para os animais.
- Também é comum a crença de que intervir em processos naturais (desde que seja para ajudar os animais) é uma atitude arrogante.
- Quando as pessoas pensam em animais na natureza, tendem a pensar em animais que não são representativos da vida padrão na natureza29. Tendem a pensar em animais de grande porte, como leões, zebras, gazelas, elefantes, e pensam em adultos dessas espécies. Esses animais são uma ínfima minoria dos animais na natureza. A vasta maioria dos animais na natureza é de pequeno porte, e a vasta maioria dos indivíduos que nascem morrem geralmente muito jovens.
Como resultado dessas e de outras crenças, os ativistas da causa animal têm negligenciado um problema que possui uma escala de dano tão gigantesca que faz até mesmo os números da (que, como vimos, já são gigantescos) quase desaparecerem em comparação. Não há estatísticas sobre o número de mortes anuais dos animais na natureza, em decorrência dos processos naturais. Mas, para termos uma ideia da diferença de proporção, podemos fazer uma comparação dos tamanhos das populações em um dado momento.
- A população total de animais na natureza em um dado momento está, de acordo com algumas estimativas, entre 1 a 10 quintilhões de indivíduos30.
- Comparemos, por exemplo, com a população mundial em um dado momento de animais criados como estoque para serem explorados:
o Vertebrados terrestres: 24 bilhões31. o Peixes: 180 bilhões32. o Camarões: 230 bilhões33.
o A soma desses números dá 434 bilhões.
Se fizermos uma analogia com o período de um ano, a soma das populações de animais na exploração representariam no máximo 14 segundos. Todo o restante do ano (364 dias, 23 horas, 59 minutos e 46 segundos) seriam os animais na natureza. Isso nos dá uma dimensão aproximada do quão grande é a quantidade de animais na natureza.
3.5. Negligência em relação ao futuro
A maneira como nossas decisões influenciam a história de mundo daqui para frente (e, consequentemente, como elas afetam os seres sencientes que existirão no futuro) é uma questão amplamente negligenciada. As pessoas em geral (incluindo ativistas da causa animal) normalmente se preocupam quase que exclusivamente com os problemas do presente. Na decisão sobre quais estratégias adotar para beneficiar os seres sencientes, também normalmente é levado em conta somente o impacto nos seres sencientes vivos agora (ou, no máximo, que viverão em um futuro próximo).
Isso se deve, em parte, à presença do viés temporal, que faz com que, quanto mais longe um evento esteja no futuro, menos importância ele receba. Entretanto, se nossa meta é conseguir o melhor para todos os seres sencientes, o que nos importará será a magnitude dos danos, e não a época em que eles ocorrerão. Assim, se essa é nossa meta, ao decidirmos quais problemas priorizar e quais estratégias adotar, temos de imaginar o máximo que conseguirmos como as consequências de nossas escolhas afetarão o futuro, e escolher aquele curso de ação que for melhor ao longo do tempo (e não apenas, melhor no presente ou no futuro próximo)34.
A quantidade de seres sencientes futuros poderá vir a ser muito vasta, seja diacronicamente (porque o futuro poderá ser muito longo), seja sincronicamente (pois a população de seres sencientes poderá vir a aumentar muito em cada momento). Assim, a quantidade de seres sencientes que afetaremos em longo prazo com essas decisões excede em muitas ordens de magnitude os seres sencientes que existem agora ou que existirão no futuro próximo. Por essa razão, esse tópico é de importância crucial35.
3.6. Conclusão
Os quatro exemplos acima parecem suficientes para mostrar que a quantidade de atenção dada a cada problema não tem sido proporcional à magnitude de cada problema. Na verdade, tem sido geralmente inversamente proporcional (isto é, os problemas mais graves têm sido também os mais negligenciados).
Isso nos dá razões duplas para focarmos nesses problemas. Primeiro, simplesmente por estarem entre os problemas mais graves. Segundo porque, como são altamente negligenciados, é exatamente aí que poderemos fazer uma maior diferença.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Qual destes é citado no capítulo como problema negligenciado?
Por que o capítulo fala em "razões duplas" para focar nesses problemas?
Para pensar
Que animais você imagina quando pensa em "causa animal"? São os que mais sofrem?
Notas do autor 19
- 17 Ver Animal Charity Evaluators (2016). ↩
- 18 Id. ↩
- 19 (2018), Sanders (2018). ↩
- 20 (2019n). ↩
- 21 Id. ↩
- 22 Id. ↩
- 23 Id. ↩
- 24 Rowe (2021). ↩
- 25 Rowe (2020b). ↩
- 26 Schukraft (2019). ↩
- 27 Rowe (2020a). ↩
- 28 Waldhorn, Autric (2023). ↩
- 29 Sobre como isso influencia as pessoas a terem uma visão distorcida da situação dos animais na natureza, ver (2017). ↩
- 30 Ver National Museum of Natural History & Smithsonian Institution (2008) e (2019 [2009]). ↩
- 31 Tomasik (2019 [2009]). ↩
- 32 Fishcount (2019a). ↩
- 33 Waldhorn, Autric (2023). ↩
- 34 Para uma introdução a esse tópico, ver Ética Animal (2018). ↩
- 35 O tópico do futuro em longo prazo é discutido em mais detalhes nesses textos e será o tema do Volume XIX desta coleção. ↩
Fontes citadas neste texto 14
A lista completa do volume está em referências do Volume VIII.
- ANIMAL CHARITY EVALUATORS. Why farmed animals? Animal Charity Evaluators, 2016.
- FISHCOUNT. Fishcount estimates of numbers of individuals killed in (FAO) reported fishery production. Fishcount: Reducing suffering in fisheries, 2019a
- FISHCOUNT. Numbers of farmed fish slaughtered each year. Fishcount: Reducing suffering in fisheries, 2019n. . FRANCIONE, G. L. Animals, property and the Law. Philadelphia: Temple University Press, 1995.
- NATIONAL MUSEUM OF NATURAL HISTORY & SMITHSONIAN INSTITUTION. Numbers of insects (species and individuals). Encyclopedia Smithsonian, 2008.
- OUR WORLD IN DATA. Number of animals slaughtered for meat, World, 1961 to 2018. Our world in data, [s.l.], 2018.
- ROWE, A. Global cochineal production: scale, welfare concerns, and potential interventions. Effective altruism forum, 11 fev. 2020a.
- ROWE, A. Insects raised for food and feed — global scale, practices, and policy. Rethink priorities, 29 jun. 2020b.
- ROWE, A. Silk production: global scale and animal welfare issues. Rethink priorities, 19 abr. 2021.
- SANDERS, B. Global Animal Slaughter Statistics And Charts. Faunalytics, 10 out. 2018.
- SCHUKRAFT, J. Managed honey bee welfare: problems and potential interventions. Rethink priorities, 14 nov. 2019.
- TOMASIK, B. How Many Animals are There? Essays on Reducing Suffering, 07 ago. 2019 [2009].
- WALDHORN, D. AUTRIC, E. Shrimp: The animals most commonly used and killed for food production. Rethink Priorities, 11 ago. 2023.
- ÉTICA ANIMAL. A importância do futuro. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 24 out. 2018.
- ÉTICA ANIMAL. Por que a visão popular dos animais que vivem na natureza está errada? Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 24 fev. 2017.
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