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Volume I · Discutindo o especismo · capítulo 5

O suposto potencial que os humanos tem poderia justificar o especismo?

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O apelo ao potencial falha porque há humanos sem potencial para desenvolver certas capacidades, porque potencial não é o mesmo que ter, e porque o sofrimento de uma criança importa agora, não pelo que ela poderá vir a ser.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume I, p. 19 da edição em PDF

5.1. O apelo ao potencial

Por vezes é defendido que apenas humanos deveriam ser respeitados (ou que deveriam ser respeitados em maior grau) porque, alegadamente, todos os humanos (e somente os humanos) têm o potencial para desenvolver certas capacidades ou relações, ainda que muitos humanos não as tenham, de fato23. As capacidades mais citadas são capacidades cognitivas complexas, e as relações mais citadas são relações de solidariedade mútua, políticas, ou de poder.

O que se quer dizer com potencial é o seguinte. Bebês ainda não possuem, por exemplo, capacidades cognitivas complexas, mas um dia podem vir a tê-las quando forem adultos. Idosos que estão com alguma doença degenerativa mental já não possuem aquelas capacidades, mas um dia já as tiveram. São, portanto, portadores em potencial daquelas capacidades e relações, ainda que não portadores reais.

Os animais não humanos, por outro lado, alegadamente não têm esse potencial e, portanto, segundo essa visão, estaria justificado fazer a eles certas coisas que jamais estariam corretas se fossem feitas a humanos, como utilizá-los como comida, vestimenta, modelo de testes etc., e também não prestar-lhes ajuda quando são vítimas de doenças, fome, sede etc.

5.2. Problemas com o apelo ao potencial

Vejamos a seguir alguns problemas com esse argumento24:

Um primeiro problema é que há humanos que sequer possuem o potencial para o desenvolvimento daquelas capacidades ou relações. Por exemplo, há humanos que possuem alguma condição congênita incurável que os impedirá durante a vida inteira de exercerem aquelas capacidades e relações. Segundo o apelo ao potencial, estaria correto fazer a eles todas as coisas terríveis que são feitas aos animais não humanos.

Diante dessa resposta os proponentes do apelo ao potencial por vezes argumentam que, no caso desses humanos, temos de levar em conta a possibilidade de um avanço científico ou mesmo de um milagre25. Entretanto, poderia ser respondido que então seria arbitrário não levar em conta as mesmas possibilidades no caso dos animais não humanos.

Um segundo problema é que o apelo em questão não explica por que a posse (real ou em potencial) daquelas capacidades ou relações seria relevante para saber se alguém deve receber ou para determinar o grau de consideração que deveria receber. Isso é algo simplesmente assumido pelo argumento, sem oferecer nenhuma explicação.

O terceiro (e principal) problema é que as razões que temos para, por exemplo, não causar sofrimento a uma criança, parecem existir simplesmente porque o sofrimento é algo negativo, e não porque no futuro ela poderá vir a desenvolver aquelas capacidades e relações. Por exemplo, se soubermos que uma criança está com uma doença terminal e morrerá antes de desenvolver aquelas capacidades e relações, parece que ainda temos todas as razões para respeitá-la tanto quanto qualquer outro ser humano. Se é assim, então não faz sentido dizer que não temos de respeitar os animais não humanos (ou que eles devem ser respeitados em menor grau) porque eles não têm o potencial para aquelas capacidades ou relações.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume I
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Por que o caso da criança com doença terminal é usado no capítulo?

Ter o potencial para algo é o mesmo que...

Para pensar

Se um animal tivesse o potencial de vir a falar, isso mudaria a sua opinião sobre comê-lo? Se mudaria, por que a dor dele hoje não muda?

Notas do autor 3
  1. 23 Ver, por exemplo, as posições de (1978); Mccloskey (1979); (1991) e Wetlesen (1999). ↩
  2. 24 Para outras críticas ao apelo ao potencial, ver (2022 [1979], p. 163; 1991, p. 60). ↩
  3. 25 Ver, por exemplo, (1979, p. 42) e (1984, p. 33). ↩
Fontes citadas neste texto 6

A lista completa do volume está em referências do Volume I.

  • DEVINE, P. The Moral Basis of Vegetarianismm. Philosophy, v. 53, p. 481-505, 1978.
  • LEAHY, M. P. T. Against liberation: Putting animals in perspective. London: Routledge, 1991.
  • MCCLOSKEY, H. J. Moral rights and animals. Inquiry, v. 22, p. 23-54, 1979.
  • PATON, W. Man and Mouse. Oxford: Oxford University Press, 1984.
  • SINGER, P. The significance of Animal Suffering. In: BAIRD, R. M.; ROSENBAUM, S. E. (orgs.). Animal Experimentation: the Moral Issues. New York: Prometheus Books, 1991, p. 56-66.
  • WETLESEN, J. The Moral Status of Beings Who Are Not Persons: A Casuistic Argument. Environmental Values, v. 8, p. 287-323, 1999.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Esses animais carecem de certas capacidades e relações, e até mesmo do potencial para desenvolvê-las. Por exemplo, não têm noção de certo e errado, de justiça, de direitos, não têm relações políticas conosco etc. (I, cap. 4 e 5).
O argumento não explica por que a posse dessas características seria relevante para a consideração moral. Por exemplo, há humanos que também não as possuem (bebês, por exemplo) ou que sequer possuem o potencial para desenvolvê-las (como vítimas de certas doenças que incapacitam durante toda a vida) mas isso não parece justificar desconsiderá-los.

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