Volume VI · A quem devemos consideração moral? · capítulo 10
Não é absurdo um mundo com menos sofrimento, mas manejado pelos humanos?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
A ideia de que um mundo com menos sofrimento, mas manejado por humanos, seria pior revela um preconceito: um ecossistema indistinguível do natural e melhor para os sencientes não seria pior só por ter influência humana.
Imagine uma floresta que parece igualzinha a uma floresta natural, mas foi ajeitada para os bichos sofrerem menos. Ela seria pior só porque gente mexeu nela? Parece estranho dizer que sim.
Um rio limpo por uma estação de tratamento não é "pior" do que um rio sujo intocado. A mão humana, sozinha, não torna algo pior.
- P1 A objeção diz ser absurdo preferir um mundo com menos sofrimento, mas manejado por humanos.
- P2 Imagine um ecossistema modificado, indistinguível de um natural, e melhor para os seres sencientes.
- P3 Dizer que ele é pior só por ter influência humana revela um preconceito contra a ação humana.
- C Logo, a objeção não refuta a ética centrada na senciência.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Natureza manipulada pelo homem não é natureza de verdade.”
Resposta Pode até não ser "original", mas a pergunta é se seria pior. Para quem vive nela, menos sofrimento é melhor, tenha ou não mão humana.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VI, p. 32 da edição em PDF
Um argumento que por vezes é endereçado em defesa da visão contra o critério da é o seguinte37. Se o quão boa/ruim é uma situação é algo que deve ser avaliado unicamente pelo modo como ela beneficia/prejudica os seres sencientes, teremos então que dizer que é melhor um mundo com árvores de plástico se isso implicar que os seres sencientes tenham menos sofrimento e sejam mais felizes (em comparação a um mundo com árvores naturais onde os seres sencientes estão em uma condição pior)38. Os proponentes desse argumento defendem que é absurdo pensar que um mundo assim seria melhor só porque teria menos sofrimento e mais felicidade, e concluem então que, por isso, devemos rejeitar o critério da senciência.
Algo que pode fazer com que esse argumento pareça atrativo à primeira vista é o uso do termo "plástico" e não, "fabricado por humanos". Quando pensamos em árvores de plástico, tendemos a pensar em árvores que estão muito aquém de uma árvore natural, e que não beneficiam tanto os seres sencientes quanto as árvores naturais. Assim, quando lemos "árvores de plástico", a última coisa em que provavelmente pensaremos são árvores melhores para os seres sencientes do que as árvores naturais.
Então, o uso da palavra "árvores de plástico" no argumento pode sugerir que um ecossistema modificado por humanos jamais poderia ser melhor para os seres sencientes do que um não modificado. Mas, o problema é o que o argumento não pode fazer tal sugestão, pois o seu objetivo é mostrar que um ecossistema natural é preferível mesmo que um ecossistema modificado por humanos fosse muito melhor para os seres sencientes (então, não pode dar como exemplo um caso onde a modificação seria pior para os seres sencientes). O argumento, para ser honesto, teria de utilizar o termo: "ecossistema modificado por humanos que fosse melhor para os seres sencientes" (e não "ecossistema com árvores de plástico").
Por exemplo, imaginemos que no futuro nos deparemos com um ecossistema que, olhando de fora, seja indistinguível de um ecossistema natural (contém árvores, rios, montanhas etc.), e que só conseguimos saber que ele foi modificado por agentes inteligentes porque nele há
certas medidas que fazem com que o seres sencientes experimentem menos sofrimento. Se colocamos o argumento dessa maneira, então se torna muito fraca a ideia de que escolher um mundo assim seria absurdo39. Aliás, é um mundo assim que buscamos para nós o tempo todo: toda vez que usamos moradias, roupas, hospitais, medicamentos, centros de lazer e quase todo o resto que fazemos na vida. Na verdade, parece que a maioria dos humanos acha absurdo é o contrário (pelo menos, quando eles próprios seriam as vítimas dos processos naturais). Mas, por conta do , a visão defendida para os animais não humanos é a oposta: que é absurdo modificar o ambiente natural para que os animais sejam menos prejudicados. Assim, a explicação para essa disparidade é apenas uma: especismo, puro e simples.
Outra coisa que colabora para a rejeição do melhoramento ambiental é a dificuldade em se imaginar algo fabricado por humanos que seja menos ruim para os animais do que um ecossistema natural, dada a prevalência das visões que associam "ações humanas = resultado pior para os animais não humanos", e "natural = bom". Entretanto, a maior parte das pessoas não sabe que, em muitos casos, as ações humanas nos ecossistemas naturais beneficiam os animais, e também não sabem que os processos naturais tendem a maximizar a quantidade de animais que nasce para ter vidas repletas de sofrimento e uma morte bastante prematura, geralmente violenta40.
Então, se nos livrarmos desse preconceito, e imaginarmos um ecossistema modificado por humanos melhor para os seres sencientes do que um ecossistema natural, o que parece implausível é a ideia de que esse ecossistema é pior, apenas porque sofreu influência de ação humana. É implausível porque revelaria uma aversão injustificada por tudo o que decorre de práticas humanas (mesmo quando o resultado é benéfico para os afetados); uma veneração injustificada por tudo o que decorre de (mesmo quando o resultado é prejudicial para os afetados), além de um total descaso pelo modo como os animais não humanos são afetados positiva ou negativamente em cada possibilidade.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O exemplo do ecossistema indistinguível serve para mostrar que...
A objeção, segundo o capítulo, revela...
Para pensar
Por que a palavra "natural" soa como elogio para você?
Notas do autor 4
- 37 As diferenças entre ambientalismo e consideração pelos seres sencientes são o tema de todo o volume V desta coleção. ↩
- 38 Para um exemplo desse argumento, ver (1981, p. 26, 27). ↩
- 39 Para um desenvolvimento desse argumento, ver (1987, p. 252). ↩
- 40 Para uma análise detalhada dessa questão, ver (2022a) e (2020). ↩
Fontes citadas neste texto 4
A lista completa do volume está em referências do Volume VI.
- ANIMAL ETHICS. Introduction to wild animal suffering: A guide to the issues. Oakland: Animal Ethics, 2020.
- CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.
- REGAN, T. The Nature and Possibility of an Environmental Ethic. Environmental Ethics, vol. 3, n. 1, p. 19-34, 1981.
- SAPONTZIS, S. F. Morals, Reason and Animals. Philadelphia: Temple University Press, 1987.
Textos recomendados
Continue no tema A quem devemos consideração moral?
Se os seres sencientes devem ser respeitados, então a natureza possui valor em si?
Respeitar os seres sencientes não implica que a natureza tem valor em si: o que torna os sencientes…
O critério da senciência implica em aceitar as metas ambientalistas?
O fato de alguns sencientes terem interesse em que a natureza siga o seu curso não implica aceitar as…
Espécies possuem interesses?
Espécies não têm interesses: são entidades abstratas, categorias criadas para agrupar seres vivos…