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de Ética
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Volume VI · A quem devemos consideração moral? · capítulo 9

Se há necessidade da ética ambiental, então o critério da senciência está errado?

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Que exista uma ética ambiental não mostra que entidades não sencientes tenham valor em si: também precisamos de ética sobre distribuição de renda, e a renda não tem valor em si. Uma "ética do manejo ambiental" pode bastar.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VI, p. 30 da edição em PDF

Há um argumento que defende que, se existe a necessidade de se desenvolver uma ética ambiental (isto é, princípios que orientem nossas decisões que afetam o meio ambiente), e se as questões abordadas em ética ambiental fazem sentido (isto é, não são questões absurdas), então entidades não como ecossistemas ou espécies têm valor em si, e não, valor meramente enquanto recurso para os seres sencientes35.

Entretanto, haver necessidade de se desenvolver uma ética ambiental não implica que entidades não sencientes possuam . Algo que pode contribuir para parecer que implica é que o termo ética ambiental é usado comumente em dois sentidos distintos. Veremos esse ponto em mais detalhes a seguir.

O primeiro sentido refere-se ao , isto é, à posição que afirma que certas entidades não sencientes possuem valor em si. Já o segundo sentido refere-se à determinada área da ética prática que trata da moralidade de nossas ações que afetam o meio ambiente. Dentre as questões centrais abordadas nessa área, uma das principais é exatamente esta: "entidades não sencientes possuem valor em si ou meramente valor enquanto recurso para os seres sencientes?". Certamente que essa e outras questões relacionadas fazem sentido. Mas, o fato de uma questão fazer sentido não implica que a resposta para ela seja necessariamente afirmativa. A seguir veremos alguns exemplos que ilustram esse ponto.

Questões como "há vida em Marte?" e "o Brasil venceu a copa do mundo de futebol de 2014?" fazem sentido. Não são perguntas absurdas. Mas, disso não se segue que as respostas certas sejam necessariamente afirmativas. Aliás, a resposta certa da segunda questão é "não". Faz sentido perguntar, "espécies e ecossistemas têm valor em si?", mas, isso não garante que a resposta adequada seja afirmativa. É possível que a resposta adequada seja "não".

O mesmo se aplica à afirmação de que é necessário desenvolver uma ética ambiental. Também é necessário desenvolver uma ética para lidar com a distribuição de renda, mas, isso não implica que a própria distribuição de renda possua valor em si (aliás, parece o contrário: que tal questão é importante porque afeta o bem dos indivíduos). Assim, a necessidade de

uma ética ambiental não implica necessariamente que entidades não sencientes possuam valor em si (pode ser que haja necessidade de uma ética ambiental justamente porque os seres sencientes são afetados indiretamente de acordo com a maneira como afetamos os seus ambientes).

Ou seja, uma "ética ambiental" (a área que trata da moralidade das nossas ações que afetam o meio ambiente) não implica necessariamente uma "ética ambiental" (uma posição ambientalista). O fato de a posição ambientalista ser por vezes chamada de "ética ambiental" ou de "ética genuinamente ambiental" contribui para criar essa confusão. Por exemplo por vezes é defendido que apenas o ambientalismo é verdadeiramente uma "ética ambiental", e que enxergar o meio ambiente apenas enquanto recurso para os seres sencientes é uma "ética do manejo do meio ambiente36". Entretanto, utilizar tais nomenclaturas não é oferecer nenhum argumento a favor do ambientalismo. Ao invés, é já assumir de antemão que ele está correto. Mas é exatamente isso o que está em questão. É, portanto, um argumento circular (que, por vezes, também é usado como estratégia desonesta de retórica).

É possível que a abordagem mais adequada para as questões da ética ambiental envolva rejeitar a tal "ética ambiental genuína" e acatar alguma forma de "ética do manejo ambiental" (por exemplo, manter ou modificar o meio ambiente de acordo com o que for melhor para os seres sencientes). É claro, isso também não garante necessariamente que a posição ambientalista esteja errada. A conclusão que devemos retirar aqui é mais específica: o argumento da necessidade da ética ambiental, por ser circular, não mostra que o critério da senciência é inadequado.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VI
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Que analogia o capítulo usa?

O que seria uma "ética do manejo ambiental"?

Para pensar

Que razões você tem para proteger um rio? Alguma delas não envolve seres que sentem?

Notas do autor 2
  1. 35 Esse argumento é oferecido por (1981, p. 20, 24, 34). Para uma crítica detalhada, ver (1987). ↩
  2. 36 Ver, por exemplo, Regan (1981, p. 20). ↩
Fontes citadas neste texto 2

A lista completa do volume está em referências do Volume VI.

  • REGAN, T. The Nature and Possibility of an Environmental Ethic. Environmental Ethics, vol. 3, n. 1, p. 19-34, 1981.
  • SAPONTZIS, S. F. Morals, Reason and Animals. Philadelphia: Temple University Press, 1987.

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