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Volume VI · A quem devemos consideração moral? · capítulo 12

O critério da senciência implica em aceitar as metas ambientalistas?

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O fato de alguns sencientes terem interesse em que a natureza siga o seu curso não implica aceitar as metas ambientalistas: considerar um interesse não é ter de realizá-lo, e realizá-lo aqui causaria sofrimento e morte a um número gigantesco de outros.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VI, p. 36 da edição em PDF

As posições geralmente são defendidas com base na alegação de que entidades não como espécies, ecossistemas e possuem valor em si, com total independência de como afetam o bem dos seres sencientes45. Entretanto, outra defesa possível das metas ambientalistas é alegar que, mesmo que tenhamos que considerar apenas os seres sencientes, o interesse dos ambientalistas em alcançarem suas metas (por exemplo, a meta de garantir que a natureza siga seu curso, sem intervenções para ajudar os animais46), deve ser levado em conta e respeitado, pois ambientalistas são seres sencientes.

Nesse caso, os ambientalistas não estariam a defender que temos obrigações diretas de respeito para com as entidades naturais não sencientes. Essas obrigações seriam indiretas de respeito para com os interesses dos ambientalistas, mas respeitar os seus interesses resultaria em fazer o mesmo que faríamos se as entidades não sencientes tivessem .

O problema central com esse argumento é pensar que, porque um interesse de um ser senciente deve ser levado em conta, então que necessariamente devemos realizá-lo. Uma coisa não implica necessariamente a outra, pelo seguinte motivo: se devemos levar em conta esse interesse, então seria arbitrário não levar em conta os interesses dos seres sencientes que seriam prejudicados se esse interesse for realizado.

Por exemplo, os processos naturais tipicamente afetam os animais de forma muito negativa47. Desnutrição, fome e sede, doenças, lesões físicas, estresse psicológico, eventos meteorológicos hostis, desastres naturais, e conflitos interespecíficos, intraespecíficos e sexuais são a norma para os animais na natureza. Além disso, a estratégia reprodutiva predominante consiste em ter ninhadas com milhares ou mesmo milhões de filhotes, e a média de sobreviventes em populações estáveis é apenas de dois filhotes por ninhada48.

Assim sendo, a realização do interesse por "deixar a natureza seguir o seu curso" implicaria no sofrimento e nas mortes de um número gigantesco de seres sencientes. Seja sob o aspecto da quantidade de seres prejudicados, seja sob o aspecto da gravidade do dano que cada ser afetado teria individualmente, levar em conta os interesses de todos os envolvidos aponta para ajudarmos os animais que são vítimas dos processos naturais, e não, para realizar o interesse em deixar a natureza seguir o seu curso.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VI
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O problema central do argumento é pensar que...

Realizar o interesse em "deixar a natureza seguir o seu curso" implicaria...

Para pensar

Como você pesaria uma preferência de muitas pessoas contra o sofrimento de muitíssimos animais?

Notas do autor 3
  1. 45 Para uma análise detalhada do conflito entre consideração pelos animais e ambientalismo, ver o quinto volume desta coleção. ↩
  2. 46 Para os fundamentos dessa proposta, ver (2022a) e Animal Ethics (2020). Sobre programas para ajudar os animais, ver (2016b, 2019b) ↩
  3. 48 Ver (2010b); Ética Animal (2015b); Animal Ethics (2021, p. 55-9) e Cunha (2022a, p. 28-34). ↩
Fontes citadas neste texto 6

A lista completa do volume está em referências do Volume VI.

  • ANIMAL ETHICS. Introduction to wild animal suffering: A guide to the issues. Oakland: Animal Ethics, 2020.
  • CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.
  • HORTA, O. Debunking the Idyllic View of Natural Processes: Population Dynamics and Suffering in the Wild. Télos, v. 17, p. 73-88, 2010b.
  • ÉTICA ANIMAL. Ajudando os animais na natureza. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 23 out. 2016b.
  • ÉTICA ANIMAL. Biologia do bem-estar. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 8 jul. 2019b.
  • ÉTICA ANIMAL. Dinâmica de populações e o sofrimento dos animais. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 27 out. 2015b.

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