Volume VI · A quem devemos consideração moral? · capítulo 12
O critério da senciência implica em aceitar as metas ambientalistas?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
O fato de alguns sencientes terem interesse em que a natureza siga o seu curso não implica aceitar as metas ambientalistas: considerar um interesse não é ter de realizá-lo, e realizá-lo aqui causaria sofrimento e morte a um número gigantesco de outros.
Se alguém quer muito que nada mude na floresta, isso conta. Mas se manter a floresta igual faz milhões de bichos sofrerem, o desejo de uma pessoa não pode valer mais que o sofrimento de todos eles.
O desejo de alguém de soltar fogos às 3 da manhã é um interesse, e conta. Mas não precisa ser realizado se prejudica o sono de um prédio inteiro.
- P1 A defesa diz que, como alguns sencientes querem que a natureza siga o seu curso, o critério da senciência leva às metas ambientalistas.
- P2 Levar um interesse em conta não implica que se deva realizá-lo, se conflita com interesses mais fortes.
- P3 Realizar esse interesse implicaria sofrimento e morte para um número gigantesco de seres sencientes.
- C Logo, o critério da senciência não implica aceitar as metas ambientalistas.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Muita gente quer a natureza intocada; isso também é interesse de seres sencientes.”
Resposta Conta, mas tem de ser pesado. De um lado, uma preferência estética; do outro, o sofrimento e a morte de incontáveis animais.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VI, p. 36 da edição em PDF
As posições geralmente são defendidas com base na alegação de que entidades não como espécies, ecossistemas e possuem valor em si, com total independência de como afetam o bem dos seres sencientes45. Entretanto, outra defesa possível das metas ambientalistas é alegar que, mesmo que tenhamos que considerar apenas os seres sencientes, o interesse dos ambientalistas em alcançarem suas metas (por exemplo, a meta de garantir que a natureza siga seu curso, sem intervenções para ajudar os animais46), deve ser levado em conta e respeitado, pois ambientalistas são seres sencientes.
Nesse caso, os ambientalistas não estariam a defender que temos obrigações diretas de respeito para com as entidades naturais não sencientes. Essas obrigações seriam indiretas de respeito para com os interesses dos ambientalistas, mas respeitar os seus interesses resultaria em fazer o mesmo que faríamos se as entidades não sencientes tivessem .
O problema central com esse argumento é pensar que, porque um interesse de um ser senciente deve ser levado em conta, então que necessariamente devemos realizá-lo. Uma coisa não implica necessariamente a outra, pelo seguinte motivo: se devemos levar em conta esse interesse, então seria arbitrário não levar em conta os interesses dos seres sencientes que seriam prejudicados se esse interesse for realizado.
Por exemplo, os processos naturais tipicamente afetam os animais de forma muito negativa47. Desnutrição, fome e sede, doenças, lesões físicas, estresse psicológico, eventos meteorológicos hostis, desastres naturais, e conflitos interespecíficos, intraespecíficos e sexuais são a norma para os animais na natureza. Além disso, a estratégia reprodutiva predominante consiste em ter ninhadas com milhares ou mesmo milhões de filhotes, e a média de sobreviventes em populações estáveis é apenas de dois filhotes por ninhada48.
Assim sendo, a realização do interesse por "deixar a natureza seguir o seu curso" implicaria no sofrimento e nas mortes de um número gigantesco de seres sencientes. Seja sob o aspecto da quantidade de seres prejudicados, seja sob o aspecto da gravidade do dano que cada ser afetado teria individualmente, levar em conta os interesses de todos os envolvidos aponta para ajudarmos os animais que são vítimas dos processos naturais, e não, para realizar o interesse em deixar a natureza seguir o seu curso.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O problema central do argumento é pensar que...
Realizar o interesse em "deixar a natureza seguir o seu curso" implicaria...
Para pensar
Como você pesaria uma preferência de muitas pessoas contra o sofrimento de muitíssimos animais?
Notas do autor 3
- 45 Para uma análise detalhada do conflito entre consideração pelos animais e ambientalismo, ver o quinto volume desta coleção. ↩
- 46 Para os fundamentos dessa proposta, ver (2022a) e Animal Ethics (2020). Sobre programas para ajudar os animais, ver (2016b, 2019b) ↩
- 48 Ver (2010b); Ética Animal (2015b); Animal Ethics (2021, p. 55-9) e Cunha (2022a, p. 28-34). ↩
Fontes citadas neste texto 6
A lista completa do volume está em referências do Volume VI.
- ANIMAL ETHICS. Introduction to wild animal suffering: A guide to the issues. Oakland: Animal Ethics, 2020.
- CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.
- HORTA, O. Debunking the Idyllic View of Natural Processes: Population Dynamics and Suffering in the Wild. Télos, v. 17, p. 73-88, 2010b.
- ÉTICA ANIMAL. Ajudando os animais na natureza. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 23 out. 2016b.
- ÉTICA ANIMAL. Biologia do bem-estar. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 8 jul. 2019b.
- ÉTICA ANIMAL. Dinâmica de populações e o sofrimento dos animais. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 27 out. 2015b.
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