Volume VIII · Um ativismo eficiente · capítulo 9
Foco no veganismo versus foco na redução do consumo
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
O debate entre focar no veganismo ou na redução do consumo é, em geral, sobre estratégia, e não sobre a meta, que é compartilhada; há argumentos dos dois lados, e é preciso avaliá-los sem decidir de antemão pela intuição.
Alguns ativistas pedem "seja vegano"; outros pedem "coma menos carne". Os dois querem ajudar os bichos. A discussão é sobre qual pedido ajuda mais, e vale a pena pensar com calma, sem briga.
Dois médicos podem querer que o paciente pare de fumar, e um sugere parar de vez, o outro, reduzir aos poucos. Eles discordam do caminho, não do objetivo.
- P1 Devemos avaliar estratégias pelos seus efeitos, e não pelas nossas intuições iniciais.
- P2 Muitos defensores da redução e do veganismo compartilham a mesma meta: o fim da exploração.
- P3 A redução pode alcançar mais pessoas; o veganismo pode deixar mais clara a injustiça e engajar mais.
- C Logo, a divergência é sobretudo estratégica, e deve ser tratada como tal.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Quem defende redução não é de verdade pelos animais.”
Resposta Muitos defendem a redução justamente por acharem que ela ajuda mais os animais. A pergunta é empírica e estratégica, e não de lealdade.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VIII, p. 69 da edição em PDF
9.1. Evitando vieses na hora de avaliar estratégias
Se o que almejamos é conseguir beneficiar os animais da melhor maneira possível, então precisamos resistir à tentação de rejeitar ou aprovar certa estratégia de antemão, com base em nossas intuições (isto é, nossas respostas iniciais), antes de entender bem quais os seus possíveis efeitos positivos e negativos.
O viés de confirmação nos inclina a reparar naquilo que confirma o que já pensávamos antes e a negligenciar aquilo que vai contra nossas crenças prévias. Esse exerce influência sobre nossas atitudes em geral, incluindo quando avaliamos estratégias de ativismo.
Outro viés relacionado é a heurística escolha-a-melhor, que é um atalho mental que utilizamos na hora de escolher entre alternativas, para decidirmos rapidamente sem precisar saber todas as informações sobre cada alternativa. Quando empregamos essa heurística, em vez de considerar todas as razões pelas quais poderíamos escolher uma alternativa em vez de outra, escolhemos uma razão e baseamos a nossa decisão exclusivamente nela.
Vejamos um exemplo. Geralmente, as pessoas consideram que apontar um único benefício da estratégia com a qual intuitivamente simpatizam já é suficiente para provar que ela é uma boa estratégia. Analogamente, consideram que apontar um único efeito negativo da estratégia com a qual intuitivamente antipatizam já é suficiente para provar que ela não é uma boa estratégia.
Essa forma de pensar nos impede de tomarmos boas decisões. Por exemplo, pode ser que uma estratégia que tenha efeitos positivos tenha outros efeitos negativos maiores, tendo saldo negativo no total. Analogamente, é possível que uma estratégia que tenha efeitos negativos, também tenha outros efeitos positivos maiores que façam ela ter saldo positivo. E mesmo o fato de uma estratégia ter saldo positivo não mostra que não há outra estratégia melhor do que ela, que poderia ser tentada em seu lugar. Outra complicação adicional é que, por vezes, uma estratégia tem menos riscos do que outra, mas também tem menos efeitos positivos. Há uma série de dificuldades que precisamos encarar se nossa meta é ajudar de forma eficiente.
Analisar os efeitos potenciais de cada estratégia não é uma tarefa fácil. Por isso mesmo é que não deveríamos nos apressar em rejeitar ou abraçar uma estratégia antes de investigarmos os seus prováveis efeitos.
9.2. Entendendo quando a divergência é sobre estratégias e quando é sobre metas
Por vezes, divergências que são estratégicas (isto é, em relação a quais os meios mais eficientes para se alcançar uma mesma meta) são entendidas equivocadamente como se fossem divergências em relação às próprias metas, dando a impressão de que o grau de divergência é maior do que realmente é. Isso impossibilita a adoção de compromissos mútuos que talvez fossem possíveis se houvesse a percepção de que a divergência é estratégica.
Considere, por exemplo, a seguinte questão: é melhor focar em tentar fazer com que as pessoas adotem o veganismo ou que reduzam o consumo de produtos de origem animal?
Frequentemente esse debate é entendido nos seguintes termos: "ativistas que focam no acreditam que a é injusta e almejam aboli-la; já ativistas que focam na promoção da redução do consumo acreditam que o problema é o excesso de consumo de animais e que, reduzindo-o, não há nada de errado com a exploração animal".
É possível que esse seja o caso em relação a vários ativistas, mas certamente não o é em relação a todos. Por exemplo, há ativistas que focam na redução, mas possuem a mesma meta dos ativistas que focam no veganismo: almejam a abolição do uso de animais. Entretanto, acreditam que, para alcançar essa meta, tentar convencer as pessoas a diminuírem o consumo de animais é mais eficiente do que tentar convencer a se tornarem veganas. Portanto, sua divergência não é quanto à meta: é quanto à qual a melhor estratégia para alcançar essa meta.
Isso não quer dizer que necessariamente o foco na redução é uma estratégia melhor do que o foco no veganismo, ou vice-versa. Na sequência, veremos alguns possíveis efeitos positivos e negativos de cada uma dessas estratégias. O ponto importante a ser observado agora é que a divergência sobre estratégias não indica necessariamente uma divergência sobre metas. Perceber isso (e também que a eficiência das diferentes estratégias é, pelo menos em algum grau, incerta) abre espaço para compreensão mútua, evitando o pensamento de que pessoas que seguem estratégias diferentes das nossas são pessoas más ou ignorantes.
Como dito antes, examinar bem cada estratégia antes de aprová-la ou rejeitá-la é o que se espera de quem almeja o melhor para os animais. É o que tentaremos fazer a seguir.
9.3. O raciocínio por trás do foco na redução
O principal argumento a favor do foco na redução é o seguinte. Ainda que adotar o veganismo seja uma obrigação em termos de justiça para com os animais, dada a mentalidade da maioria das pessoas, se pedirmos que elas façam o que é correto, é possível que a maioria das pessoas ache que o padrão exigido é alto demais (embora não o seja realmente), e então simplesmente continuem a consumir os animais, exatamente na mesma medida como consumiam antes. Por outro lado, se solicitamos às pessoas que somente diminuam o seu consumo de animais, ainda que isso não seja o que é verdadeiramente justo para com os animais, como a exigência é bem menor, é possível que muito mais pessoas adiram.
Em resumo, o argumento principal a favor do foco na redução é este: focando no veganismo, talvez consigamos convencer um número muito menor de pessoas e, apesar de cada pessoa vegana evitar a morte de muito mais animais do que cada pessoa que somente reduz o consumo, um número muito maior de pessoas fazendo menos pode, no final das contas, representar uma redução muito maior no número de animais mortos do que um número muito menor de pessoas fazendo muito.
Quem adota essa estratégia pode reconhecer que o veganismo é o ideal. Entretanto, poderia argumentar que, dado como são os humanos, se exigir o ideal aumentar bastante o risco de não se conseguir nem o mínimo, é melhor garantir o mínimo, nem que para isso tenha-se que reivindicar algo que não é o ideal.
É claro, também há argumentos sérios para se adotar um foco no veganismo (que veremos no item 9.5). A seguir estão listados alguns argumentos favoráveis a cada uma dessas abordagens, que são um resumo da discussão contida nesta lista.
9.4. Argumentos a favor do foco na redução
1) É possível que muito mais pessoas fazendo muito menos tenha um impacto maior do que muito menos pessoas fazendo muito mais.
2) Pedir para reduzir é menos exigente e, portanto, pode ser mais facilmente aceito.
3) Pode ser que, para as pessoas reivindicarem a abolição da exploração animal, seja suficiente que façam uma mudança mínima em seu consumo.
4) Se o item 3 estiver correto, então focar na redução pode gerar um apoio mais amplo da população para a causa da abolição da exploração animal.
5) Dada a dificuldade de se entender a diferença entre divergências estratégicas e divergências de metas, o foco na redução, por proporcionar uma explicação sobre isso, pode contribuir mais para um ativismo sensível a nuances e à complexidade.
6) A redução não tem o mesmo estigma associado ao veganismo. Portanto, pode ser mais facilmente aceita.
7) O foco na redução dá a oportunidade de explicar que os vários produtos de origem animal possuem impactos diferentes no sofrimento e no número de mortes de animais. Por exemplo, dá a oportunidade de explicar que o consumo de camarões e de insetos causa muito mais mortes do que o consumo de outros produtos de origem animal.
8) Mesmo se o que alguém pretende é fazer com que as pessoas se tornem veganas, defender a redução do consumo pode ser uma boa estratégia do tipo "pé na porta". Esse tipo de estratégia consiste em começar propondo algo menos exigente, para tentar fazer com que aquilo que almeja realmente seja mais facilmente aceito depois, em etapas. Por exemplo, se A pede 5 reais e B aceita doar uma vez, isso aumenta a possibilidade de que B aceite doar mais 5 reais depois, mais do que se A tivesse pedido inicialmente 10 reais.
9.5. Argumentos a favor do foco no veganismo
Também existem argumentos que defendem que focar no veganismo tem melhores resultados. Veremos a seguir os principais.
1) Enfatiza mais fortemente que a consideração pelos animais é uma questão séria e que a exploração animal é injusta.
2) Cada pessoa que adota o veganismo causa uma redução maior na quantidade de animais explorados.
4) Popularizar o veganismo desde já, e também reduzir o estigma associado a ele, é importante se a meta é a adoção do veganismo em larga escala posteriormente.
5) Reivindicar a redução do consumo pode dar a entender para o público que a exploração animal não precisa ser abolida. Então, é duvidoso que, para que o público aceite reivindicar a abolição, seja suficiente que reduzam o seu consumo.
6) Veganos parecem ter mais potencial de se tornarem ativistas do que quem apenas reduz o consumo.
7) Pedir para reduzir o consumo pode, paradoxalmente, aumentar o sofrimento e as mortes de animais. Isso ocorreria se as pessoas entenderem errado a mensagem e, em vez de não consumirem nada de origem animal algumas vezes na semana, evitarem carne bovina mas consumirem mais aves, peixes ou crustáceos, ou então evitarem carne, mas consumirem mais ovos e leite, e assim por diante. Para que esse risco seja evitado, a mensagem a favor da redução tem de ser muito clara em relação a esse aspecto.
8) Também é possível que um menor número de veganos tenha um maior impacto do que um número maior de pessoas que apenas reduzem o consumo. Isso é especialmente verdadeiro se a adoção do veganismo aumenta as possibilidades de alguém se tornar ativista. Em resumo, o resultado de cada estratégia dependerá desses dois fatores: (1) o quão maior ou menor será o número de pessoas alcançada por cada estratégia e; (2) o quanto de benefício para os animais cada uma dessas pessoas faria.
9) O veganismo possui necessariamente um foco na consideração pelos animais. Já a redução no consumo pode ser feita por razões e antropocêntricas (ainda que possa ser feita por consideração pelos animais também). Há um consenso entre os pesquisadores de que o foco nos animais não só é mais eficiente para beneficiar os animais, como também que o uso de argumentos ambientalistas e antropocêntricos pode ser contraproducente, como discutimos em detalhes no Capítulo 4.
10) Mesmo se o que alguém pretende é defender a redução do consumo, defender o veganismo pode ser uma boa estratégia do tipo "porta na cara". Esse tipo de estratégia consiste em primeiro propor algo mais exigente, com o objetivo que aquilo que almeja realmente seja mais facilmente aceito depois. Por exemplo, se A pede cinquenta reais e B nega, e em seguida A pergunta "e se for apenas 5 reais, você doaria?" a probabilidade de B doar é maior do que se A tivesse já começado a pedir os 5 reais, que é o que realmente almeja.
9.6. Conclusão e algumas questões adicionais
Acima foram listados alguns argumentos a favor de cada um dos tipos de focos. Entretanto, há também pelo menos outras duas possibilidades. Uma é defender que pode haver um melhor impacto se houver pessoas diferentes defendendo distintos focos, em vez de todas focarem na mesma estratégia (ou, que deveríamos tentar isso pelo menos enquanto não temos dados mais precisos sobre o resultados desses diferentes focos). Outra opção, ainda, seria cada pessoa experimentar os diferentes focos durante um mesmo período de tempo e depois tentar comparar a eficiência de ambos. É importante observar que tudo o que foi discutido aqui diz respeito a mudanças de atitudes individuais. Outra discussão paralela e importante é se deveríamos focar em mudanças de atitudes individuais ou em mudanças institucionais.
O objetivo deste capítulo, mais do que investigar qual dessas estratégias é mais eficiente, foi mostrar que, pelo menos nesse caso, a divergência entre os ativistas não é necessariamente sobre a meta. Parece ser muito mais sobre qual a melhor estratégia para alcançar uma meta compartilhada, que é o fim da exploração animal. Se houvesse uma diferença de metas, já não haveria razão alguma para conflito e hostilidade, e sim para um debate honesto e respeitoso sobre as metas. Agora, se a meta é a mesma, conflito e hostilidade têm menos sentido ainda. Há, em vez disso, muitas razões para fazermos em conjunto — respeitosamente e de maneira honesta – um exame ponderado e minucioso sobre os prós e contra de cada estratégia.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Qual é o principal objetivo do capítulo?
Que atitude o capítulo pede ao avaliar estratégias?
Para pensar
Quando você discorda de alguém do "seu lado", a discordância é sobre o objetivo ou sobre o caminho?
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Devemos focar em defender o veganismo ou a redução do consumo? (VIII, cap. 9).
Foco em mudança social ou tecnológica? (VIII, cap. 7, 12, IX, cap. 9).
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