Volume VIII · Um ativismo eficiente · capítulo 10
Por que o termo bem-estarismo é altamente ambíguo
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
"Bem-estarismo" tem pelo menos sete sentidos, que dizem respeito a debates diferentes; aceitar ou rejeitar uma das posições assim chamadas não implica aceitar ou rejeitar as outras.
A mesma palavra pode querer dizer coisas bem diferentes. "Bem-estarista" pode ser quem acha que pode explorar animais "sem crueldade", quem quer melhorar a vida dos animais enquanto luta pelo fim da exploração, ou até quem quer ajudar bichos selvagens. Não dá para jogar tudo no mesmo saco.
"Banco" pode ser onde se senta ou onde se guarda dinheiro. Discutir se "banco é confortável" sem saber de qual se fala gera confusão.
- P1 O termo bem-estarismo é usado para posições muito diferentes, em debates diferentes.
- P2 Há pelo menos sete sentidos, como aceitar a exploração "humanitária", defender reformas ou se preocupar com o bem-estar de qualquer animal.
- P3 Cada sentido diz respeito a um debate distinto.
- C Logo, aceitar ou rejeitar uma posição chamada de bem-estarista não implica aceitar ou rejeitar as outras.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Isso é bem-estarismo, então está errado.”
Resposta Qual dos sete sentidos? Rejeitar a exploração "humanitária" não obriga a rejeitar a preocupação com o bem-estar dos animais selvagens, por exemplo.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VIII, p. 75 da edição em PDF
10.1. Introdução
O termo é altamente ambíguo, pois é utilizado em referência a posições muito diversas entre si e que dizem respeito a diferentes debates. Como veremos a seguir, há pelo menos sete sentidos para esse termo. Essa ambiguidade frequentemente gera a crença equivocada de que aceitar/rejeitar determinada posição chamada de bem-estarista implica ter que aceitar/rejeitar outras posições que são chamadas pelo mesmo nome. Como veremos, não há essa implicação, uma vez que tais posições dizem respeito a assuntos diferentes.
A seguir serão explicadas as diversas posições que são normalmente chamadas de bem-estaristas em diferentes questões e serão sugeridos termos substitutos para evitar a confusão.
10.2. Várias posições chamadas de bem-estaristas
O adjetivo bem-estarista é normalmente utilizado em referência às seguintes posições:
(1) Para a posição que defende que, desde que a seja regulamentada para que os animais não sofram (ou sofram menos, dependendo da variante), ela se torna justa.
Sugestão de substituição: Posição RTJ (no sentido de "regulamentar torna justo").
As principais críticas a essa posição são: (1) não levar em conta o dano da morte para os animais; (2) violar o princípio da igual consideração e (3) não passar no teste da imparcialidade.
(2) Para a posição que defende que, mesmo que a exploração animal seja regulamentada para que os animais não sofram, ela continua injusta e deveria ser abolida, mas que devemos regulamentá-la porque fazê-lo ajudará gradualmente a aboli-la.
Sugestão de substituição: Posição RAA (no sentido de "regulamentar ajuda a abolir").
(3) Para a posição que defende que, mesmo que a exploração animal seja regulamentada para que os animais não sofram, ela continua injusta e deveria ser abolida, que regulamentá-la não necessariamente ajudará gradualmente a aboli-la, mas que devemos tentar regulamentá-la porque fazê-lo diminuirá o sofrimento dos animais explorados.
Sugestão de substituição: Posição RDS (no sentido de "regulamentar diminui o sofrimento").
(4) Para toda e qualquer posição que vise melhorar o bem-estar dos animais, incluindo animais que não são explorados pelos humanos. Por exemplo, por vezes a proposta de ajudar os animais selvagens que são vítimas de processos naturais, por ter como meta a preocupação com o próprio bem dos animais (e não, com valores ambientalistas, centrados em entidades não sencientes) é chamada de bem-estarista nesse sentido (pois é centrada nos seres que possuem um bem-estar, e não em entidades não ). O trabalho de proteção a animais abandonados também por vezes é chamado assim.
Sugestão de substituição: Propostas que têm como meta o bem dos animais
(5) Para posições que defendem que aquilo que possui valor em si é o bem-estar (isto é, a maneira como seres sencientes são afetados positiva ou negativamente), e não a maneira como são afetadas entidades não sencientes (como espécies, ecossistemas e organismos vivos não sencientes). Isto é, nesse sentido o termo refere-se às posições centradas na senciência.
O principal argumento a favor do critério da senciência é o argumento da relevância.
Sugestão de substituição: Posições centradas na senciência
(6) Para posições que defendem que, para se avaliar se uma situação que apresenta vários seres sencientes piorou/melhorou em algum aspecto, é preciso que algum ser senciente tenha o seu bem-estar piorado/melhorado.
Esse é um debate que ocorre na ética normativa, por exemplo, entre posições prioritaristas e posições igualitaristas. Por exemplo, comparemos a situação S1, onde A=+15, B=+14 com S2, onde A=+14, B=+14. De acordo com o , S2 não é melhor sob aspecto algum, pois não há ninguém que se encontre melhor em comparação a S1 (na verdade, só há quem se encontre pior). Portanto, o prioritarismo seria bem-estarista nesse sentido do termo. Já igualitaristas diriam que S2 é melhor em pelo menos um aspecto: nela, o valor total está melhor distribuído entre os indivíduos, ainda que S1 possa ser melhor tudo considerado (isto é, levando em conta tudo o que for importante). Nesse outro texto essa questão é discutida em mais detalhes.
Sugestão de substituição: Posições centradas em alterações sobre os níveis de bem-estar
(7) Para teorias sobre do que se constitui o bem-estar dos seres sencientes (que são chamadas de teorias do bem-estar). Há várias teorias desse tipo. Entretanto, todas elas dizem respeito a todas as circunstâncias nas quais um ser senciente seria beneficiado ou prejudicado. Assim, tanto uma visão que defende que a única forma de dano é o sofrimento, quanto uma visão que defende que os seres sencientes são também passíveis de ser prejudicados de outras formas (por exemplo, com a morte, com a de outros eventos positivos, com a frustração de desejos, com a privação bens objetivos etc.) estão baseadas em alguma teoria sobre do que se constitui o seu bem-estar (isto é, uma teoria sobre o que prejudica ou beneficia os indivíduos).
Sugestão de substituição: Teorias sobre benefício/prejuízo.
10.3. Conclusão
Como deve estar claro agora, uma vez que cada um desses termos diz respeito a diferentes debates, aceitar/rejeitar cada uma dessas posições não implica necessariamente aceitar/rejeitar qualquer uma das outras que são referidas pelo mesmo nome.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Quantos sentidos de "bem-estarismo" o capítulo identifica, no mínimo?
A proposta de ajudar animais selvagens às vezes é chamada de bem-estarista porque...
Para pensar
Que outras palavras do debate sobre animais são usadas em sentidos diferentes e geram confusão?
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Devemos defender a reforma da exploração animal para que os animais sofram menos ou apenas sua abolição? (VIII, cap. 10,11)
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