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Volume VIII · Um ativismo eficiente · capítulo 1

Como escolher quais causas e problemas priorizar e quais as melhores estratégias?

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Para escolher causas, problemas e estratégias, podemos usar critérios: gravidade da situação (número de vítimas e quão ruim é para cada uma), tratabilidade, tamanho do benefício possível, efeitos de longo prazo, atacar causas e não só sintomas, e grau de negligência.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VIII, p. 9 da edição em PDF

1.1. Introdução

Existem muitas causas no mundo, cada uma lidando com problemas importantes. Como escolher a quais delas se dedicar e quais problemas priorizar dentro dessas causas?

As respostas a seguir são muito comuns:

(1) Devemos priorizar causas que visam ajudar humanos. (2) Cada pessoa deveria escolher as causas e problemas com os quais mais simpatiza, ou que tem algo a ver com sua história de vida. (3) Todas as causas e problemas são igualmente importantes (então devemos dividir nossa dedicação igualmente para cada causa e para cada problema dentro de cada causa).

Em contraste a todas essas respostas, existe outra possibilidade:

(4) Ter a meta de tornar o mundo um lugar menos ruim da maneira mais eficiente possível, isto é, causar o maior bem possível, dados os recursos de que dispomos (dinheiro e tempo gasto, por exemplo).

Se adotarmos essa meta, precisaremos avaliar quais causas priorizar, quais problemas priorizar dentro dessas causas, e quais as melhores estratégias para abordá-los1. Isso por conta do seguinte:

  • Diferentes causas lidam com problemas que afetam quantidades diferentes de vítimas, com sofrimentos de diferentes magnitudes e taxas de mortalidade diferentes.
  • Além disso, as diferentes causas são em maior ou menor grau, o que reflete no número de ativistas e na quantidade de recursos de que dispõem.
  • Por fim, dependendo de se aplicamos certo recurso nesse ou naquele problema, e de se usamos essa ou aquela estratégia para tentar resolver o problema que selecionamos, causaremos um bem maior ou menor.

Essa é uma decisão das mais importantes pois, dependendo de como decidamos, seremos eficientes em maior ou menor grau em diminuirmos o que há de ruim no mundo. Além disso, como veremos nos capítulos seguintes, caso não façamos uma boa escolha, corremos até mesmo o risco de, sem querer, aumentarmos ainda mais o sofrimento e as mortes no mundo.

Veremos a seguir alguns critérios que podem nos auxiliar nesse tipo de decisão.

1.2. O quão grave é a situação?

Um primeiro tipo de critério para escolher quais causas priorizar e quais problemas priorizar dentro dessas causas é o quão grave é cada situação abordada (o que por vezes é chamado de escala de dano). É claro, as pessoas discordam sobre quais critérios utilizar para avaliar o quão grave é uma situação. Entretanto, dois critérios são amplamente aceitos: a quantidade de vítimas e o quão ruim é a situação das vítimas. Por essa razão, os exemplos a seguir usam esses dois critérios, mas é importante lembrar que podem existir outros (como os níveis de desigualdade entre as vítimas, por exemplo).

Uma dificuldade quando temos mais de um critério para avaliar a gravidade de uma situação é que eles podem apontar na mesma direção em algumas vezes, mas em direções opostas em outras. Por exemplo, por vezes o problema que tem a maior quantidade de vítimas é também aquele no qual as vítimas estão na pior situação. Em outras vezes um problema tem mais vítimas, mas é outro no qual as vítimas estão em situação pior. Quando os parâmetros não coincidem, como proceder? Há várias possibilidades. A seguir veremos algumas.

(1) Escolher com base em apenas um dos parâmetros. Entretanto, uma crítica a esse método é que parece arbitrário escolher um dos dois. Se for a quantidade de vítimas, por que não a gravidade da situação das vítimas, e vice-versa?

(2) Estabelecer uma hierarquia fixa entre os parâmetros. Entretanto, uma dificuldade para esse método seria demonstrar por que um dos parâmetros seria o mais importante e não o outro. Além disso há tanto situações onde parece preferível ajudar um número muito maior de vítimas, mesmo que não estejam na pior situação, quanto situações onde parece preferível ajudar vítimas que estão em uma situação bem pior, mesmo que não sejam a maioria.

(3) Se basear no saldo total de sofrimento. Este é obtido somando-se o sofrimento de cada vítima. Por exemplo, se em certo problema temos a vítima A com -35 de sofrimento e a vítima B com -10, o saldo total agregado é de -45. De acordo com esse método, a quantidade de vítimas e o quão grave é a situação de cada vítima não importam por si: importam apenas indiretamente, por influenciarem no saldo total agregado. Entretanto, uma crítica a esse método é que ele poderia considerar mais grave uma situação que apresenta um número muito maior de vítimas, mas que cada uma individualmente tem um dano muitíssimo mais leve.

(4) Dar peso proporcional à gravidade da situação. Esse método também se baseia no saldo total de sofrimento, mas nele o peso de cada indivíduo é proporcional ao quão ruim é a sua situação (quanto pior, mais peso tem). Esse método evita em grande medida o problema do método anterior mas, em certos casos ainda poderia considerar mais grave uma situação onde uma maioria tivesse danos muito menores. Entretanto, para isso ocorrer nesse método o tamanho dessa maioria teria de ser muito maior do que no método anterior.

(5) Estabelecer linhas absolutas de prioridade. Nesse método é estipulado um nível de bem-estar abaixo do qual os indivíduos uma situação é a mais grave, não importando o quão mais indivíduos acima desse nível outras situações apresentem.

(6) Estabelecer linhas variáveis de prioridade. Esse método é similar ao anterior, com a diferença que, a partir de um certo número de vítimas que estão acima do nível limite (por exemplo, N vezes maior do que o número de vítimas que está abaixo), mas que ainda estão em uma situação ruim, a situação em que essa maioria se encontra é considerada mais grave.

Esses são apenas alguns exemplos de métodos, mas há outros. Por questões de espaço não discutiremos aqui quais os melhores métodos. Essas dificuldades não devem nos levar a pensar que não há como avaliar qual situação é mais grave. Mesmo que não consigamos precisão nessas avaliações, tentar fazê-las tem mais probabilidade de trazer melhores resultados do que decidir a esmo. Esse é um desafio que teremos de encarar se nossa meta é sermos eficientes na ajuda que podemos dar.

Além disso, mesmo que não chegássemos a nenhuma conclusão satisfatória em situações onde os parâmetros conflitam, há muitas situações onde o problema que apresenta o maior número de vítimas é também o problema no qual as vítimas estão na pior situação. As diversas situações nas quais se encontram os animais não humanos, sejam os explorados pelos humanos2, sejam os que vivem na natureza3, são bons exemplos disso na atualidade.

1.3. O quanto do problema é possível tentar resolver?

Suponhamos que tivéssemos chegado a uma conclusão sobre quais problemas são mais graves. Temos então já uma resposta sobre quais situações priorizar? Ainda não, pelo seguinte motivo: é possível que não haja nada que possa ser feito para ajudar uma parte das vítimas de certas situações. Precisamos investigar o quão tratável é cada problema (por essa razão, esse parâmetro é chamado de ). Ele é ilustrado pelo exemplo a seguir.

Considere as três informações a seguir:

  • O problema A afeta 900 mil vítimas.
  • O problema B afeta 500 mil vítimas.
  • Todas as vítimas de A e B estão em situações igualmente ruins.

Se nos basearmos apenas no quão grave é cada situação, priorizaremos o problema A.

Contudo, adicionemos agora as seguintes informações:

  • Em relação às 900 mil vítimas de A, o melhor que conseguiríamos fazer com os recursos de que dispomos é ajudar 400 mil delas: não há nada que possamos fazer para ajudar as outras 500 mil (infelizmente, elas já estão condenadas).
  • Já em relação às 500 mil vítimas de B, é possível ajudar 450 mil delas, proporcionando a elas a mesma quantidade de benefício que proporcionaríamos às 400 mil vítimas do problema A com o mesmo recurso.

Assim, levando em conta a parte de cada situação que é possível melhorar, temos uma razão para priorizar o problema B pois, apesar de A ser uma situação pior, é B que apresenta a pior situação possível de ser melhorada.

Importante: tratabilidade de cada problema é mutável, pois depende da tecnologia disponível no momento. Ou seja, um problema pouco tratável atualmente pode vir a ser mais tratável no futuro, dependendo do quanto investirmos em pesquisar como resolvê-lo.

1.4. Escolhendo as melhores soluções

1.4.1. A importância da quantidade de benefício que poderíamos causar

Os critérios anteriores são importantes para detectarmos quais problemas merecem ser o foco de nossa atenção. Entretanto, não ajudam a descobrirmos quais soluções seriam as mais eficientes. Para isso temos de estimar qual seria a quantidade de benefício produzida se investirmos uma certa quantia de recursos nesse ou naquele problema4. A seguir está um exemplo que ilustra a importância desse parâmetro e mostra como ele se relaciona com os critérios que vimos antes para selecionar os problemas mais importantes.

Considere o seguinte:

  • O problema A tem 100 vítimas, cada uma com um sofrimento de -50.
  • O problema B tem 90 vítimas, cada uma com um sofrimento de -40.

O problema A é mais grave, seja pelo critério da quantidade de vítimas, seja pelo critério da gravidade da situação de cada vítima. Imagine também que é possível ajudar todas as vítimas de ambos os problemas. Isto é, são problemas igualmente tratáveis.

Contudo, imagine que, com uma mesma quantidade de recursos, nossas únicas opções sejam:

  • Ou passar todas as vítimas de A de -50 para -49 (um alívio muito leve).
  • Ou passar todas as vítimas de B de -40 para -10 (uma melhora considerável).

Nesse caso, priorizando o problema B causaríamos um bem muito maior com a mesma quantidade de recursos.

1.4.2. O fator quantidade de benefício é sempre o mais importante?

O que vimos acima não significa que necessariamente o tamanho do benefício será sempre o fator decisivo. Por exemplo, dependendo da situação, poderíamos preferir causar um benefício total um pouco menor, mas que fosse direcionado à vítimas que estão em uma situação bem pior, ou que ajudasse uma quantidade muito maior de vítimas. Por exemplo, suponhamos que, no exemplo acima, a decisão fosse entre:

  • Ou passar as 100 vítimas do problema A de -50 para -30. Benefício total = 2.000,
  • Ou passar as 90 vítimas do problema B de -40 para -10. Benefício total = 2.700.

Nesse caso, algumas pessoas já diriam que devemos escolher a primeira opção (pois assim o benefício vai para as vítimas que estão na pior situação, e vai para um número maior de vítimas), mesmo que na segunda opção produzamos um benefício maior (seja em termos de benefício para cada vítima, seja em termos de benefício total, multiplicando-se o número de vítimas pelo benefício que cada uma teria).

Mas, como saber quando pesa mais a quantidade de benefício e quando pesa mais a gravidade da situação? Há várias maneiras possíveis de se proceder. Os critérios poderiam ser equivalentes a alguns dos que vimos no item 1.2. Um exemplo seria buscar maximizar os benefícios, mas estipulando que uma unidade de benefício tem mais valor quanto mais grave for o problema ao qual seria direcionado (isso seria o equivalente do critério 4 do item 1.2).

1.5. Para causar o maior bem possível, é necessário levar em conta o longo prazo

Outra coisa importante a ser considerada ao se avaliar a eficiência de cada estratégia é o seu impacto ao longo do tempo5. Assim, se o objetivo é causar o maior bem possível, então temos de tentar estimar as consequências de longo prazo de cada estratégia.

Por exemplo, comparando-se duas estratégias, é possível que uma cause mais benefícios inicialmente, mas que, levando em conta os efeitos de longo prazo de cada uma, seja a outra que causará um benefício total maior ao longo do tempo. Por exemplo, pode ser que certa

estratégia ajude mais animais no curto prazo, mas que o seu impacto diminua gradualmente ao longo do tempo, enquanto que outra, apesar de ajudar menos animais inicialmente, tenha um impacto positivo do tipo "bola de neve" ao longo do tempo e que, tendo terminado o impacto de ambas depois de alguns anos, seja a segunda que tenha o maior impacto positivo.

Além disso, também é possível que uma estratégia que cause grandes benefícios em curto prazo tenha desdobramentos negativos em longo prazo, podendo até mesmo ter um saldo total negativo. Por essa razão, é importante tentar estimar os potenciais efeitos de longo prazo, mesmo que isso seja algo difícil de ser estimado com precisão.

1.6. Tratando sintomas ou causas?

O impacto ao longo do tempo é um fator que sugere fortemente priorizarmos estratégias que atacam as causas de um problema, e não apenas os sintomas. Por exemplo, se compararmos uma estratégia que ajuda muitos animais caso estes venham a se encontrar em um incêndio com outra que previne a ocorrência de incêndios, provavelmente é esta segunda que possui o melhor impacto ao longo do tempo.

A predominância de uma mentalidade especista é uma das causas da situação extremamente negativa na qual os animais se encontram (sejam os que vivem na natureza, sejam os explorados pelos humanos)6, pois ela influencia as pessoas a darem pouca importância às situações que prejudicam os animais. É por essa razão que esforços educacionais para combater o têm um grande potencial de impacto positivo ao longo do tempo, pois atacam diretamente uma das principais causas dos problemas que afetam os animais.

É claro, esses não são os únicos tipos de esforços que atacariam as causas. Por exemplo, um programa que investigasse quais tipos de elementos presentes em um ecossistema tendem a favorecer uma maior ou menor quantidade de nascimentos nas espécies de animais cujas vidas são predominantemente negativas atacaria diretamente outra das principais causas do sofrimento animal7.

1.7. Quantas pessoas já se preocupam com o problema?

A quantidade de benefício que poderemos causar, curiosamente, depende do que as outras pessoas com poder de ajudar estão já fazendo e provavelmente farão, pois isso determina o quanto cada problema é negligenciado (por isso esse parâmetro é chamado de grau de negligência).

Tudo o mais sendo igual, quanto menor a quantidade de pessoas se importando com uma situação grave, mais fortes as razões para apoiarmos a causa que lida com ela. Tudo o mais sendo igual porque, é claro, esse fator tem de ser pesado em relação a outros fatores importantes, como o quão grave é a situação que cada causa lida. E, novamente, esses fatores podem apontar para a mesma direção em certas circunstâncias (os piores problemas serem os mais negligenciados), mas não em outras.

A seguir veremos duas razões pelas quais averiguar o grau de negligência é importante para a eficiência na ajuda.

1.7.1. Distribuição ineficiente dos esforços

A primeira razão é que o grau de negligência pode revelar que há uma distribuição ineficiente dos esforços. Para ilustrar esse ponto, considere o exemplo a seguir.

Imaginemos que o problema A seja o mais grave de todos, e que o problema B seja o segundo mais grave, e que ambos sejam igualmente tratáveis. Por isso, decidimos focar no problema A. Contudo, imaginemos também que outro grupo de pessoas, fazendo o mesmo raciocínio, também decidiu focar no problema A. Imagine que o problema A foi então resolvido. Porém, se soubéssemos que outras pessoas já tentariam resolvê-lo, poderíamos ter focado no problema B, o que aumentaria as chances de ambos os problemas serem resolvidos (algo que não ocorreu porque ambos os grupos de pessoas investiram no mesmo problema).

Assim, quanto mais pessoas já envolvidas em tentar resolver determinado problema, maiores as probabilidades de o problema ser minimizado (ou mesmo resolvido) sem a nossa ajuda.

1.7.2. Retorno marginal decrescente

A segunda razão é que, quando uma causa é ainda bastante negligenciada, cada pessoa adicional faz mais diferença do que em causas que já possuem mais adeptos. Isto é, as causas (e os problemas específicos dentro das causas) experimentam o que é chamado de retorno marginal decrescente. Esse conceito será explicado em mais detalhes a seguir.

Quando uma causa é muito negligenciada, existem muitas oportunidades fáceis e baratas de se fazer progresso significativo. Essas oportunidades são como os frutos pendurados nos galhos mais baixos de uma árvore, mais fáceis de serem colhidos. Os primeiros indivíduos que atuam em certa causa ou problema podem identificar e explorar essas oportunidades, e assim terão um grande impacto. Porém, à medida que mais pessoas passam a trabalhar na causa, as oportunidades mais baratas e impactantes tendem a ser aproveitadas primeiro. Cada vez mais o que vai restando são tarefas mais difíceis, caras, lentas ou com impacto menor por unidade de esforço. Assim, o impacto marginal de cada nova pessoa trabalhando em uma causa tende a diminuir com o tempo (isto é, há um retorno marginal decrescente).

Vejamos um exemplo. Imaginemos que uma doença esteja matando uma população de humanos mas que, felizmente, há uma vacina disponível. Os primeiros voluntários que promovem a vacinação têm um impacto enorme, porque podem vacinar os grupos de maior risco e conter surtos rapidamente. Conforme mais pessoas entram na campanha, os grupos mais fáceis de alcançar e de maior risco já estão vacinados, e os novos voluntários precisam então trabalhar com pessoas em locais mais difíceis de serem alcançados, mais resistentes à vacinação etc. Isso requer mais tempo, dinheiro e esforço para cada vacinação adicional, o que significa que o impacto de cada novo voluntário é menor do que o dos primeiros. Agora, compare esse caso com um problema ainda muito negligenciado, onde quase ninguém trabalhou, como a vacinação de animais selvagens. Nesse caso, as chances de você estar entre as primeiras pessoas que irão explorar as soluções mais eficazes é muito maior.

1.7.3. Quais são os problemas mais negligenciados?

Um ponto importante a se observar sobre grau de negligência é que os problemas mais negligenciados (exatamente aqueles em que cada um de nós teria o maior impacto) talvez a maioria das pessoas nem saiba que existem, pois os problemas noticiados na mídia e abordados pelos movimentos sociais são os que muito mais pessoas já estão focando.

Falaremos dos problemas mais negligenciados no Capítulo 2 e no Capítulo 3.

1.8. Conclusão

Vimos acima vários critérios que podem nos ajudar a escolher quais causas e problemas priorizar e quais as melhores soluções.

As dificuldades em pesar os distintos critérios não devem nos fazer pensar que é impossível de se chegar a alguma conclusão satisfatória sobre esses problemas. Por exemplo, como veremos no próximo capítulo, a causa animal parece cumprir muito bem os critérios de prioridade, bem como vários problemas relacionados ao futuro. Há uma incerteza maior quanto às melhores estratégias mas, mesmo quanto a isso, também podemos constantemente reavaliá-las8.

Como você certamente percebeu, os critérios que vimos não fornecem uma resposta pronta e simples. Isso é esperável, pois essas questões são bastante difíceis. Entretanto, esses critérios oferecem orientação para avaliarmos essas questões com a seriedade que o assunto merece.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VIII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

A gravidade de uma situação costuma ser medida por quais fatores?

Por que priorizar estratégias que atacam as causas?

Para pensar

Use a Calculadora de prioridades deste site com duas causas que você apoia. O resultado te surpreende?

Notas do autor 8
  1. 1 Para vários textos e links sobre esse tema, ver Šimčikas (2019). ↩
  2. 2 Ver (2016c). ↩
  3. 3 Ver Ética Animal (2016a). ↩
  4. 4 Sobre isso, ver Dickens (2016). ↩
  5. 5 Sobre isso, ver O’brien (2023). ↩
  6. 6 Sobre especismo, ver (2022 [2010]). ↩
  7. 7 Para investigações nesse sentido, ver (2013b; 2015c; 2016b; 2016c; 2018 [2016]) ↩
  8. 8 Para uma lista de discussão sobre vários tópicos em relação a estratégias, ver (2019). ↩
Fontes citadas neste texto 10

A lista completa do volume está em referências do Volume VIII.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Gravidade da situação. (VIII, cap. 1.2).
Normalmente é medida levando-se em conta ambos os fatores a seguir: (1) Quantidade de vítimas (2) O quão ruim é a situação de cada vítima
Quando um problema tem mais vítimas, mas em outro as vítimas estão em pior situação, como proceder? (VIII, cap. 1.2; XI, cap. 1.6 e 7).
Uma possibilidade é perguntar: (1) O quão pior precisa ser a situação da minoria para que tenham prioridade? (2) O quão maior precisa ser o número de vítimas que não estão na pior situação para que tenham prioridade? Entretanto, há várias outras possibilidades, que são abordadas em: VIII, cap. 1.2; XI, cap. 1.6, 7.
Tratabilidade do problema. (VIII, cap. 1.3).
Exemplo. Problema A: 900 mil vítimas. Problema B: 500 mil vítimas. As vítimas de A e B estão em situações igualmente ruins. Pela gravidade da situação, devemos priorizar A. Mas, suponha que, com os recursos que temos, podemos, ou ajudar 400 mil vítimas de A, ou ajudar em igual medida 450 mil vítimas de B. Assim, apesar de A ser uma situação pior, é B que apresenta a pior situação possível de ser melhorada.
Grau de negligência. (VIII, cap. 1.7).
Quanto maior a quantidade de pessoas já envolvidas em tentar resolver um problema, maior a probabilidade de o problema ser minimizado sem a nossa ajuda. E, quanto mais negligenciada uma causa, cada pessoa adicional faz mais diferença, pois ainda há várias oportunidades fáceis de se fazer uma diferença significativa que ainda não foram tentadas.
Tamanho do benefício a ser causado. (VIII, cap. 1.4).
Imagine que o problema A tem 100 vítimas com sofrimento de -50 e o problema B tem 90 vítimas com sofrimento de -40. Ou seja, A é mais grave. Ambos os problemas são igualmente negligenciados e é possível ajudar todas as vítimas de um ou de outro. Contudo, imagine que, com uma mesma quantidade de recursos, podemos: ou passar todas as vítimas de A de -50 para -49 (um alívio muito leve), ou passar todas as vítimas de B de -40 para -10 (um alívio considerável). Priorizando B causaríamos um bem maior com a mesma quantidade de recursos.
O tamanho do benefício é sempre o fator mais importante? (VIII, cap. 1.4).
Suponhamos que, no exemplo acima, a decisão fosse entre: ou passar as 100 vítimas de A de -50 para -30 (benefício total = 2.000, 20 por vítima), ou passar as 90 vítimas de B de -40 para -10 (benefício total = 2.700, 30 por vítima). Nesse caso, algumas pessoas diriam que devemos escolher a primeira opção (pois o benefício vai para as vítimas na pior situação e beneficia um número maior de vítimas), mesmo que na segunda opção produzamos um benefício maior (para cada vítima e na soma total).
Como saber quando pesa mais o tamanho do benefício e quando pesa mais a gravidade da situação? (VIII, cap. 1.2; XI, cap. 1.6 e 7).
Há várias possibilidades. Por exemplo: (1) estabelecer que um dos aspectos é um trunfo (absoluto ou até certo ponto); (2) relação contínua: não há trunfos, e cada aspecto têm, ou peso fixo (igual ou diferente), ou peso variável, no cálculo total; (3) combinar as abordagens 1 e 2: usar trunfos (absolutos ou até certo ponto) até uma linha de corte e a partir daí utilizar uma relação contínua (de peso fixo ou variável). Um exemplo de abordagem contínua (sem trunfos), com cada aspecto tendo peso variável é a abordagem com retornos decrescentes, onde o peso de cada aspecto diminui proporcionalmente à medida que é preenchido. Uma possibilidade nesse sentido seria buscar maximizar os benefícios, mas estabelecer que uma unidade de benefício tem mais valor quanto mais grave for o problema ao qual seria direcionado esse benefício.
Por que é crucial tentar estimar os efeitos de longo prazo? (VIII, cap. 1.5)
Comparando-se duas estratégias, é possível que uma cause mais benefícios inicialmente, mas que, levando-se em conta a história completa (e, portanto, os efeitos de longo prazo), seja a outra que causará um benefício total maior. Também é possível que uma estratégia cause grandes benefícios em curto prazo mas tenha efeitos negativos em longo prazo, podendo até mesmo ter um saldo total negativo.
Por que priorizar estratégias que atacam as causas (e não somente os sintomas)? (VIII, cap. 1.5 e 1.6)
Por exemplo, se compararmos uma estratégia que ajuda muitos animais caso estes se encontrem em um incêndio com outra que previne incêndios, provavelmente a segunda possui o melhor impacto ao longo do tempo. É por isso que combater o especismo tem um grande potencial de impacto positivo ao longo do tempo, pois ataca diretamente uma das principais causas dos problemas que afetam os animais (uma vez que o especismo faz as pessoas darem pouca importância à situação dos animais, seja dos explorados, seja dos selvagens).
Por que priorizar estratégias que atacam as causas (e não somente os sintomas)? (VIII, cap. 1.5 e 1.6)
Por exemplo, se compararmos uma estratégia que ajuda muitos animais caso estes se encontrem em um incêndio com outra que previne incêndios, provavelmente a segunda possui o melhor impacto ao longo do tempo. É por isso que combater o especismo tem um grande potencial de impacto positivo ao longo do tempo, pois ataca diretamente uma das principais causas dos problemas que afetam os animais (uma vez que o especismo faz as pessoas darem pouca importância à situação dos animais, seja dos explorados, seja dos selvagens).

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