Volume X · Vieses e sua influência · capítulo 5
Raciocínio motivado e sua influência na avaliação dos argumentos
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Raciocínio motivado é avaliar argumentos com níveis de rigor diferentes conforme a conclusão nos agrade; além disso, muitas pessoas levantam objeções em que não acreditam, como desculpas; isso explica por que as tentativas de justificar o especismo raramente são examinadas com rigor.
Quando um argumento diz algo que a gente quer ouvir, aceitamos rápido. Quando diz algo que não queremos, procuramos defeito em tudo. E às vezes as pessoas dizem coisas como "plantas sentem" sem acreditar, só como desculpa.
Um torcedor vê pênalti claro quando é a favor do seu time e "nada demais" quando é contra. O lance é o mesmo; o rigor muda.
- P1 As pessoas tendem a exigir mais rigor de argumentos contra o que querem acreditar.
- P2 Muitas objeções comuns, como "plantas também sentem", são aceitas com pouco rigor.
- P3 Às vezes quem as levanta nem acredita nelas, mas as usa como desculpa.
- C Logo, as tentativas de justificar o especismo raramente são analisadas com o mesmo rigor que os argumentos contrários.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Se as plantas sentem, tanto faz.”
Resposta Quem diz isso costuma aceitar essa ideia sem qualquer evidência e não a aplica em mais nada. É um sinal típico de raciocínio motivado: a conclusão veio antes do argumento.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume X, p. 67 da edição em PDF
5.1. Introdução
Há alegações que são muito presentes em todo e qualquer debate sobre a dos animais. Considere por exemplo afirmações como "as plantas também sentem" e "qualquer coisa que façamos para ajudar os animais que estão na natureza só vai é tornar as coisas ainda piores". Essas afirmações são frequentemente mencionadas como tentativa de justificar, respectivamente, matar animais para comer e não ajudar os animais que estão na natureza.
No restante deste capítulo utilizaremos essas duas alegações como exemplos particulares do tópico geral que iremos discutir: a influência do do na avaliação de argumentos. Entretanto, é importante lembrar que tudo o que for dito aqui sobre esses dois exemplos aplica-se igualmente às atitudes das pessoas na hora de oferecerem e avaliarem argumentos em qualquer situação, e não apenas nesses dois casos.
5.2. Por que as pessoas têm níveis de rigor diferentes ao avaliarem argumentos?
Algumas pessoas realmente acreditam naquelas duas alegações. Entretanto, elas geralmente não investigam se tais alegações são ou não verdadeiras e, nas raras vezes em que investigam, tendem a fazer uma análise influenciada por raciocínio motivado e pelo viés de confirmação, que serão explicados a seguir.
O raciocínio motivado nos induz a avaliar as questões de maneira enviesada, buscando confirmar a crença que já tínhamos antes, em vez de tentar descobrir a verdade. O raciocínio motivado produz um viés de confirmação, que consiste em reparar apenas nas (ou dar maior peso às) informações que confirmam nossa crença inicial, e não reparar nas (ou dar menor peso às) informações que indicam que ela é equivocada.
Outro efeito do raciocínio motivado e do viés de confirmação é o fato de as pessoas avaliarem de modo muito menos rigoroso os argumentos que confirmam suas crenças iniciais. Por exemplo, se alguém gosta do sabor de produtos da , pode ficar tentada a aceitar qualquer argumento, por pior que seja, que pretenda justificar a exploração animal. Da mesma maneira, se alguém tem uma reação inicial contrária à proposta de ajudar os animais selvagens, pode ficar tentada a aceitar qualquer argumento, por pior que seja, que pretenda fundamentar que devemos deixar a natureza seguir o seu curso.
Importante: Esse viés (assim como qualquer outro viés) pode afetar todas as pessoas, incluindo filósofos especialistas em ética.
5.3. As pessoas sempre acreditam nas objeções que levantam?
Agora, discutiremos outra possibilidade que frequentemente não é levada em conta: a pessoa não acreditar na afirmação que faz, mas oferecê-la como uma desculpa para suas crenças e atitudes. Dependendo do caso, isso pode acontecer por motivos diversos. A seguir estão algumas possibilidades.
(1) Auto engano. Uma possibilidade é a pessoa pretender se auto enganar. Ela mesma não acredita nas alegações que faz, mas as repete para si própria porque não quer aceitar a verdade ou porque não quer mudar um comportamento, e se sente mal por pensar que está fazendo algo errado.
(2) Tentativa enganar o interlocutor. Outra possibilidade é a pessoa não acreditar na justificativa que oferece, mas acreditar que seus interlocutores a aceitarão (ou que, pelo menos, terão trabalho em refutá-la). Por exemplo, alguém pode pensar que os interlocutores não são inteligentes o bastante para perceber os problemas com o argumento que ela oferece e que, desse modo, ela vai enganá-los.
(3) Tentativa de fingimento mútuo. Uma terceira possibilidade é alguém saber que os interlocutores vão perceber os problemas com o argumento que ela oferece, mas perceber também que os interlocutores concordam com a conclusão que ela irá defender, mesmo que não tenham uma boa razão para aceitarem tal conclusão. A pessoa então oferece a tentativa de justificativa na esperança de que todos finjam que ela é uma boa justificativa, pois assim ninguém precisa mudar suas crenças ou atitudes.
De fato, esse terceiro caso é muito comum. O fato de muitas pessoas repetirem um argumento ruim torna mais difícil que o restante das pessoas percebam os problemas com o argumento. Da mesma maneira, o fato de muitas pessoas repetirem uma informação falsa torna mais difícil que pensemos na possibilidade de a informação não ser verdadeira. Por conta do viés de autoridade, esse efeito possui mais força se as pessoas que repetem o argumento ruim ou a informação falsa são especialistas na área em questão.
Um viés relacionado a isso é a cascata de disponibilidade, que ocorre quando uma crença coletiva ganha cada vez mais aceitação por meio da sua crescente repetição no discurso público, mesmo que não seja plausível. Quanto mais tempo a crença é repetida, mais difícil desafiá-la.
Isso tudo parece ser, pelo menos, uma parte da explicação do porquê as pessoas, incluindo especialistas no meio acadêmico, raramente analisam as tentativas de justificar o especismo e os argumentos contra a proposta de ajudar os animais selvagens com o mesmo rigor com que analisam os argumentos na direção oposta.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O que é raciocínio motivado?
As pessoas sempre acreditam nas objeções que levantam?
Para pensar
Que argumento você aceitou rápido demais porque concordava com a conclusão?
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