Volume X · Vieses e sua influência · capítulo 4
Vieses cognitivos e sua influência em nossas decisões que afetam os animais
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Muitos vieses dificultam revisar crenças e estratégias sobre os animais: status quo, justificação do sistema, credencial moral, heurística de afeto, mera exposição, custo irrecuperável, superioridade ilusória, ponto cego, verdade ilusória, viés de autoridade, entre outros.
Nosso cérebro gosta do que já conhece, acha que sabe mais do que sabe, acredita no que ouve muitas vezes e tem dificuldade de admitir erro. Conhecer esses truques ajuda a pensar com mais justiça sobre os animais.
Quem já pagou um ingresso caro para um filme ruim às vezes fica até o fim "para não perder o dinheiro", mas perde também o tempo. É a falácia do custo irrecuperável.
- P1 Revisar crenças sobre fatos, ética e estratégias exige superar várias tendências psicológicas.
- P2 Vieses nos inclinam a defender o que já existe, a confiar demais em nós mesmos e a aceitar argumentos ruins quando nos favorecem.
- P3 Eles afetam tanto quem consome animais quanto quem os defende.
- C Logo, conhecê-los é essencial para discutir e decidir melhor.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Eu sou racional, não sou influenciado por vieses.”
Resposta Achar-se imune a vieses é um viés catalogado no capítulo: o viés de ponto cego. Todos somos influenciados, inclusive os defensores dos animais.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume X, p. 47 da edição em PDF
4.1. Vieses que contribuem para resistência a revisar crenças e estratégias
Neste capítulo abordaremos que podem influenciar as pessoas a resistirem discutir novas questões e a revisarem suas crenças, sejam crenças sobre fatos, sobre questões éticas ou sobre estratégias para alcançar uma meta.
Esses vieses influenciam não apenas as pessoas que nunca tiveram contato com a causa animal, mas também os próprios ativistas da causa animal e autores da área de ética animal.
4.2. Efeito de credencial moral
O efeito de credencial moral ocorre quando alguém que faz algo de bom se permite não ser tão bom no futuro.
Esse viés pode estar na base da resistência que as pessoas que focam em resgatar animais abandonados têm ao veganismo (e mesmo da resistência que as pessoas em geral têm ao , uma vez que as pessoas em geral normalmente se consideram boas pessoas).
Entretanto, esse viés também pode influenciar as pessoas veganas a acharem que não precisam se preocupar com outras questões que afetam os animais, como as diferenças entre consideração pelos animais e ambientalismo, o sofrimento dos animais selvagens e questões relacionadas ao futuro em longo prazo.
Em resumo, o fato de alguém se considerar uma pessoa boa, paradoxalmente, pode incliná-la a se permitir negligenciar questões éticas importantes.
4.3. Vieses que inclinam a rejeitar ouvir os interlocutores
A resistência à mudança de crenças e de atitudes é algo extremamente comum. Por exemplo, muitas pessoas resistem fortemente a aceitar que a exploração animal é injusta. Entretanto, a resistência à mudança de crenças também afeta os ativistas da causa animal. Por exemplo, como mencionado, há vários ativistas que apresentam uma resistência a pensar em outras questões para além do veganismo, como a proposta de prevenir o sofrimento dos que decorre de e a preocupação com o futuro em longo prazo. A resistência é algo comum mesmo em relação a sugestões de mudança de estratégia.
Em resumo, é comum que haja resistência a argumentos que apontem que estamos a fazer algo de errado. Inúmeras vezes essa resistência surge mesmo antes de se ouvir os argumentos do interlocutor. A seguir, estão alguns vieses que podem estar na base da tendência de se rejeitar uma ideia mesmo antes de se ouvir os argumentos que a embasam.
O viés de atribuição hostil é a tendência de interpretar o comportamento dos outros como tendo intenções hostis, mesmo quando o comportamento é ambíguo ou benigno. Esse viés pode inclinar as pessoas a verem o interlocutor não como alguém que quer que corrijamos uma falha, mas como alguém que tem uma intenção maldosa oculta.
Já a desvalorização reativa refere-se à tendência para menosprezar propostas feitas pelos outros, especialmente se esses outros forem vistos como antagônicos.
O efeito avestruz, por sua vez, ocorre quando as pessoas evitam informações negativas, incluindo aquelas informações que poderiam ajudá-las a monitorar melhor o progresso de suas metas.
Neste item tratamos especificamente dos vieses que podem nos induzir a não querer ouvir argumentos contrários. Nos próximos itens, serão abordados vieses que podem nos induzir a resistir a abandonar nossas crenças anteriores, mesmo que tenhamos escutado os argumentos contrários e concordado com eles.
4.4. Vieses que inclinam a defender o modo como as coisas já são
Frequentemente, uma ideia é rejeitada não porque achamos que há bons argumentos contra ela, mas, simplesmente, por ela propor uma mudança em relação ao modo como já pensamos e/ou agimos. Os vieses a seguir, por si só, inclinam a criar uma resistência a revisarmos nossas crenças e atitudes (seja quanto a questões éticas, seja quanto a estratégias).
Viés do status quo: é a tendência de preferir que as coisas permaneçam como já são, resultando em resistência à mudança57.
Justificação do sistema: é a tendência para defender e reforçar o , por vezes até mesmo às custas do interesse próprio individual e coletivo.
Viés do conservadorismo: é a tendência à insuficiência em revisar as próprias crenças quando apresentadas novas evidências.
A perseverança da crença é a tendência a se apegar às crenças que já temos mesmo diante de evidências contrárias, resultando em uma resistência a mudar de ideia.
Reflexo de Semmelweis: é a tendência de rejeitar novas evidências que contradizem um paradigma.
Efeito padrão: é a tendência de favorecer a opção padrão quando é possível escolher entre diversas opções.
O viés de ancoragem faz com que confiemos fortemente na primeira informação que recebemos sobre um assunto (a âncora). Interpretamos as informações posteriores a partir dessa âncora, em vez de vê-las objetivamente. Isto pode distorcer o nosso julgamento e impedir-nos de atualizar os nossos planos ou previsões.
O viés de compromisso é a tendência de permanecermos comprometidos com nossos comportamentos passados, especialmente aqueles exibidos publicamente, mesmo que não tenham resultados desejáveis.
A dissonância cognitiva é o desconforto que decorre de termos crenças conflitantes entre si ou atitudes conflitantes com nossas crenças. Uma maneira de lidar com essa dissonância é avaliar qual das crenças ou atitudes devemos rejeitar e em seguida agir de acordo. Entretanto, o conflito geralmente é "resolvido" rejeitando, desacreditando ou evitando as informações que deixam evidente a incoerência.
4.5. Heurística de afeto e apelo a intuições
A heurística de afeto descreve como, ao tomar decisões, frequentemente confiamos em nossas emoções e intuições, em vez de em informações concretas58. Isso permite-nos decidir de modo mais rápido e fácil, mas pode distorcer o nosso pensamento e levar-nos a escolhas abaixo do ideal ou mesmo as escolhas ruins, por vezes muito ruins, seja em termos de escolher estratégias para alcançar uma meta, seja em termos de avaliar questões éticas.
A heurística de afeto pode nos induzir a defendermos o status quo, pois nossas intuições são moldadas tanto por fatores genéticos quanto ambientais. Por exemplo, o fato de termos acreditado em algo por muito tempo, e o restante das pessoas fazerem o mesmo, provavelmente criará uma intuição forte de que estamos certos (a crença de que o especismo está certo é um bom exemplo). Suponhamos que depois façamos uma reflexão ponderada e concluamos que nossa crença inicial era completamente injustificável. Essa nova conclusão muito provavelmente não gerará (pelo menos no começo) um sentimento forte como gerava a intuição inicial.
É por essa razão que é tão arriscado nos apoiarmos em intuições para pensar em questões éticas, pois estas podem ser somente nossos preconceitos disfarçados como verdade evidente. Aliás, uma das principais razões pelas quais os vieses exercem tanta influência sobre nós é o próprio fato de serem bastante intuitivos, com uma aparência de estarem corretos, apesar de frequentemente produzirem raciocínios totalmente equivocados.
É claro, o fato de uma crença ser intuitiva não implica que seja necessariamente errada. Entretanto, longe de mostrar que ela está correta, o fato de ela ser intuitiva é uma razão para desconfiarmos dela e a colocarmos sob escrutínio, pois é possível que acreditemos nela não porque ela é razoável, e sim, simplesmente porque ela é intuitiva.
A seguir, veremos mais sobre como nossas crenças frequentemente são moldadas por repetição e por pressão social.
4.6. Vieses que influenciam por conta da repetição e pressão social
Considere as seguintes crenças:
- De que o especismo é justificável.
- De que o ambientalismo tem como meta garantir o bem dos animais.
- De que, se deixarmos a natureza seguir o seu curso, isso será melhor para os animais.
- De que não devemos intervir no que é natural.
- De que qualquer tentativa de ajudar os animais na natureza só tornará tudo pior.
- De que não somos moralmente responsáveis por danos naturais.
- De que não precisamos nos preocupar com o futuro em longo prazo.
Essas são crenças que ouvimos repetidamente desde que nascemos. Além disso, são predominantes na sociedade. Esses dois fatores (repetição e pressão social) podem nos inclinar a resistir a questionar essas e várias outras crenças. Nos dois itens a seguir estão alguns exemplos de vieses conectados a esses dois fatores.
4.6.1. Vieses que influenciam por pressão social
As normas sociais são crenças coletivas sobre quais comportamentos são apropriados em uma determinada situação. É comum as pessoas terem um desejo de serem aceitas pela sociedade ou por grupos específicos, e isso as leva a aceitar as normas sociais frequentemente sem parar para avaliar criticamente essas normas. A seguir está uma lista de fatores relacionados a essa tendência.
Efeito adesão é o hábito de adotar certos comportamentos ou crenças porque muitas outras pessoas fazem o mesmo59.
Sugestionabilidade: refere-se a quão suscetíveis somos a alterar nosso comportamento com base nas sugestões dos outros.
Ignorância pluralista: ocorre quando acreditamos equivocadamente que as nossas opiniões são diferentes das da maioria. Isso muitas vezes nos leva a suprimir nossas próprias crenças e comportamentos para que se conformem ao que consideramos a norma social. Por exemplo, uma pessoa pode ser contra o , mas ter vergonha de dizer por achar que nenhuma outra pessoa vai concordar. Entretanto, é possível que muitas outras pessoas também sejam contra o especismo e tenham vergonha de dizer pelo mesmo motivo.
4.6.2. Vieses que influenciam por repetição
O efeito de mera exposição é a tendência de desenvolver preferências por certas coisas simplesmente porque estamos familiarizados com elas.
Um viés relacionado é a cascata de disponibilidade, que ocorre quando uma crença coletiva ganha cada vez mais aceitação por meio da sua crescente repetição no discurso público, independentemente de ser ou não uma ideia plausível.
Outro efeito relacionado é o efeito de verdade ilusória. É mais provável que as pessoas identifiquem como verdadeiras afirmações que ouviram anteriormente (mesmo que não se lembrem conscientemente de as terem ouvido), independentemente da validade real da afirmação60. Em outras palavras, é mais provável que uma pessoa acredite em uma afirmação familiar do que em uma desconhecida. É por isso que, quando ouvimos uma informação falsa repetida muitas vezes, é comum passarmos a acreditar que ela é verdadeira. Curiosamente, esse efeito acontece mesmo que saibamos inicialmente que a informação é falsa.
4.7. Vieses que inclinam a uma resistência à mudança de estratégia
Os vieses a seguir podem inclinar os ativistas a insistirem em estratégias que já utilizam há muito tempo (mesmo que percebam que elas não são eficientes ou que há outras mais eficientes) e a resistir a tentar novas estratégias.
Efeito de mera exposição: é a tendência de desenvolver preferências por coisas simplesmente porque estamos familiarizados com elas. Esse viés pode nos fazer não apenas insistir nas mesmas estratégias, mas também a rejeitar tentar novas estratégias e abordar novas questões.
Lei do instrumento: é a confiança excessiva em uma ferramenta ou em métodos familiares, ignorando ou subvalorizando abordagens alternativas.
Fixação funcional: é a tendência a não usarmos um objeto de maneiras além de seu uso tradicional, prejudicando a capacidade de inovar e ser criativo na resolução de desafios.
Viés de continuação do plano: é a falha em reconhecer que o plano de ação original já não é apropriado para a situação atual.
Efeito Einstellung: ocorre quando abordamos um problema da maneira que funcionou no passado, mesmo que agora exista outra solução melhor. Isso nos influencia a não considerar outras perspectivas ou opções.
Viés de apoio à escolha: é a tendência de lembrar das próprias escolhas passadas como melhores do que realmente foram.
Justificação do esforço: é a tendência de atribuirmos maior valor a um resultado dependendo do quanto nos esforçamos para alcançá-lo, mesmo que o resultado não seja muito bom.
Escalada de compromisso: acontece quando tenta-se justificar o aumento do investimento atual com base no investimento anterior cumulativo, apesar de novas evidências sugerirem que a decisão provavelmente estava errada.
Falácia do custo irrecuperável: é a tendência de levar adiante uma estratégia se já tivermos investido nela, independentemente de os custos superarem ou não os benefícios.
Efeito de ambiguidade: é a tendência para evitar opções para as quais a probabilidade de um resultado favorável é desconhecida. Esse efeito pode nos inclinar a uma aversão a tentar novas estratégias.
Racionalidade limitada: é a tendência a buscar uma decisão que seja boa o suficiente, em vez da melhor decisão possível.
4.8. Vieses que nos inclinam a pensarmos que sabemos mais do que sabemos
Os vieses a seguir podem nos inclinar a acharmos que sabemos muito mais do que realmente sabemos, e isso resultar em uma falta de interesse em avaliarmos nossos valores, metas e estratégias. Em resumo, esses vieses nos inclinam a acharmos que somos muito inteligentes, e isso nos induz a não pensarmos na possibilidade de estarmos cometendo erros. Frequentemente, esses vieses também induzem as pessoas a pensarem que o público com o qual se comunicam não é muito inteligente.
Viés egocêntrico: é a tendência de confiar demais na própria perspectiva e/ou ter uma opinião mais positiva sobre si próprio do que aquela que corresponde à realidade.
Ilusão de validade: é a tendência de se ter excesso de confiança na precisão dos próprios julgamentos61. Esse viés produz frequentemente o efeito de excesso de confiança, explicado a seguir.
Efeito de excesso de confiança. tendência a ter confiança excessiva nas próprias respostas às perguntas. Por exemplo, para certos tipos de perguntas, as respostas que as pessoas classificam como “100% de certeza” acabam por estar erradas 20% das vezes62.
Superioridade ilusória: é a tendência de superestimar as próprias qualidades desejáveis e de subestimar as próprias qualidades indesejáveis, em comparação a outras pessoas. Também é conhecido como "efeito melhor que a média" ou "viés de superioridade".
Realismo ingênuo: é a tendência de acreditar que nossa percepção do mundo o reflete exatamente como ele é, sem vieses e sem filtros63.
Viés de ponto cego: é a tendência de se ver como menos tendencioso do que as outras pessoas e de identificar mais vieses cognitivos nos outros do que em si mesmo.
Cinismo ingênuo: é esperar mais vieses egocêntricos nos outros do que em si mesmo.
Ilusão de objetividade: é a tendência de acreditar que se é mais objetivo e imparcial do que os outros. Inclusive, as pessoas podem ser capazes de perceber quando os outros são afetados pela ilusão de objetividade, mas normalmente são incapazes de perceber isso em si mesmas.
Ilusão de profundidade explicativa: ocorre quando pensamos que entendemos mais sobre as coisas do que realmente entendemos. Muitas vezes, é somente quando nos pedem para explicarmos um conceito que percebemos a nossa compreensão limitada dele.
Todos esses vieses estão relacionados ao efeito Dunning-Kruger e ao ultracrepidarianismo, abordados no próximo item.
4.9. A relação entre saber menos, ter mais convicção e ter mais influência
O efeito Dunning-Kruger recebe esse nome em referência aos pesquisadores que o descobriram. O efeito ocorre quando a falta de conhecimento e habilidade de uma pessoa em uma determinada área faz com que ela superestime sua própria competência. Esse efeito também induz as pessoas que são competentes em uma área a pensarem que a tarefa é simples para todos, levando-as a subestimar as suas capacidades. Em resumo, esse efeito diz respeito à tendência dos indivíduos não qualificados superestimarem sua própria capacidade e dos especialistas para subestimarem a sua64.
Essa tendência pode fazer com que, quanto menos alguém saiba sobre um assunto, mais ela pense que sabe muito e tenha bastante certeza de suas convicções (inclusive, pode incliná-la a pensar que sabe mais do que os especialistas, e até mesmo que os especialistas são ignorantes ou estúpidos). Analogamente, essa tendência faz com que os especialistas, por saberem da complexidade do tema, pensem que sabem muito pouco e tenham mais incertezas em relação às suas convicções sobre o assunto.
| Um viés similar é o ultracrepidarianismo, que é a tendência de se fazer afirmações com | ultracrepidarianismo, que é a tendência de se fazer afirmações com |
| confiança em assuntos sobre os quais não se conhece muito. Isso frequentemente ocorre por | |
| conta da tendência de alguém pensar que, porque sabe bastante sobre algum assunto, então | |
| sabe bastante sobre outros |
Entretanto, existem também críticas à metodologia e às conclusões dos estudos realizados por Dunning e Kruger65. De acordo com essas críticas, os estudos de Dunning e Kruger mostram que as pessoas possuem uma tendência a se considerar mais competentes do que a média, mas não mostram que as pessoas que sabem pouco necessariamente pensam que sabem muito e vice-versa, nem que essa tendência é intrínseca à maneira como o cérebro humano funciona.
Porém, mesmo que essa crítica esteja correta e não haja essa tendência em termos gerais, certamente há pessoas que sabem pouco sobre um assunto, mas pensam que sabem muito. Como a ignorância geralmente produz uma sensação de certeza (exatamente por não se saber das complexidades do assunto em questão), geralmente quanto mais uma pessoa ignora as complexidades de um assunto, mais ela fala com muita certeza e convicção sobre o assunto em questão. Entretanto, quanto maior a convicção com que uma ideia é apresentada, maior a tendência do público acreditar nela, mesmo que ela não seja lógica66. Por conta disso, as pessoas que sabem menos acabam tendo uma vantagem em termos de influência.
O filósofo Bertrand Russell explicitou essa ideia no ensaio O Triunfo da Estupidez (The Triumph of Stupidity67:
"A causa fundamental do problema é que, no mundo moderno, os estúpidos estão cheios de certezas, enquanto os inteligentes estão cheios de dúvidas. Mesmo aqueles, entre os inteligentes, que estão mais convictos de alguma coisa, enchem-se de hesitação quando se trata de agir. Já os estúpidos, por não terem dúvidas, são tomados de um zelo missionário. Por isso, as vozes das pessoas inteligentes perdem-se
no clamor dos ignorantes, e as causas que mereceriam apoio acabam ficando sem defensores”.
Ou seja, a hesitação dos inteligentes (por reconhecerem a complexidade das questões) abre espaço para que os ignorantes, que não têm dúvidas, dominem o discurso público.
4.10. Vieses que inclinam a um julgamento tendencioso
Os vieses a seguir, que induzem a um julgamento tendencioso, podem estar presentes ao avaliarmos os argumentos em relação a determinada questão ética e também ao avaliarmos as diversas estratégias possíveis para alcançar uma meta.
O raciocínio motivado consiste em avaliar as informações e argumentos visando chegar na conclusão que preferimos. Ele produz um viés de confirmação, que consiste em reparar apenas naquilo que confirma nossas crenças e hipóteses, negligenciando as informações e argumentos que contrariam aquilo que já queremos acreditar68. Em outras palavras, ele nos induz a perceber, focar e dar maior credibilidade às evidências e argumentos que confirmam as nossas crenças prévias. Ao mesmo tempo, nos induz a não perceber, não dar tanto peso, ou mesmo a descartar sem analisar, os argumentos e evidências que sugerem que podemos estar errados.
Esses vieses podem influenciar, por exemplo, as pessoas a negarem que os animais sofram terrivelmente na exploração animal ou na natureza em decorrência dos processos naturais, a negarem que o veganismo tem impacto prático, a negarem a possibilidade de ajudar os animais na natureza, ou a afirmarem que qualquer tentativa de ajudar só pioraria as coisas, sem investigar se essas afirmações realmente são plausíveis.
Um viés relacionado e similar é o viés do observador/experimentador (ou viés de expectativa), que é a tendência de repararmos em dados que confirmam nossas expectativas e descartarmos dados que entram em conflito com essas expectativas .
Relacionado a isso tudo está a heurística escolha-a-melhor que é um atalho que utilizamos na escolha entre alternativas com o objetivo de tomarmos decisões rapidamente sem precisar
saber todas as informações sobre cada alternativa. Quando empregamos essa heurística, em vez de considerar todas as razões pelas quais poderíamos escolher uma alternativa em vez de outra, escolhemos apenas uma única razão e baseamos a nossa decisão exclusivamente nessa razão.
Um exemplo clássico é a tendência de se pensar que apontar um único efeito negativo de um curso de ação com o qual não simpatizamos inicialmente é suficiente para mostrar que não devemos adotá-lo. Essa atitude é tendenciosa, uma vez que não computa os possíveis efeitos positivos de tal curso de ação, e nem avalia se as outras opções disponíveis não são ainda piores. Por exemplo, mesmo que o curso de ação em questão tivesse apenas efeitos negativos, ainda é possível que fosse o curso de ação menos negativo, em comparação às outras opções disponíveis.
Analogamente, outro exemplo é a tendência de se pensar que apontar um único efeito positivo de um curso de ação com o qual simpatizamos inicialmente é suficiente para mostrar que devemos adotá-lo. Novamente, isso é tendencioso, uma vez que não computa os possíveis efeitos negativos de tal curso de ação, e nem avalia se as outras opções disponíveis não são ainda melhores. Por exemplo, mesmo que a opção que simpatizamos inicialmente tivesse apenas efeitos positivos, ainda é possível que haja outras opções melhores disponíveis.
Esses vieses também estão relacionados à heurística de afeto69. Essa heurística é um atalho mental pelo meio do qual escolhermos as opções com base em se elas nos despertam sentimentos positivos ou negativos, em vez de tentar estimar os seus prováveis efeitos positivos e negativos reais. Muitas vezes, mesmo quando percebemos que estamos a fazer isso, em vez de suspeitar da intuição inicial, tendemos a racionalizá-la e a selecionar as informações e argumentos arbitrariamente (e por vezes, até mesmo distorcê-los) para que confirmem o julgamento inicial.
4.11. Vieses que conduzem à aceitação de argumentos ruins
Os vieses a seguir desempenham um papel fundamental em induzir à aceitação de argumentos ruins.
Viés de crença: é um efeito no qual a avaliação de alguém sobre a força lógica de um argumento é enviesada devido ao fato de ela acreditar na conclusão. Esse viés pode nos induzir a aceitar e replicar os argumentos cujas conclusões nós aceitamos (mesmo que os argumentos sejam ruins) e a descartar os argumentos que desafiam nossas crenças (mesmo que os argumentos sejam bons). Isso está relacionado também ao viés do conservadorismo em relação a revisão de crenças, que vimos no item 4.4.
Efeito de verdade ilusória: é a tendência de acreditar que uma afirmação é verdadeira se for mais fácil de processar, ou se tiver sido afirmada múltiplas vezes, independentemente da sua veracidade real.
Heurística de fluência: quanto mais habilmente ou elegantemente uma ideia for comunicada, maior será a probabilidade de ela ser considerada seriamente, seja ela plausível ou não.
Rima como efeito de razão: afirmações rimadas são percebidas como mais verdadeiras.
Viés de autoridade: é a tendência de confiar na opinião de alguém que enxergamos como uma autoridade no assunto e de sermos influenciados por essa opinião, independentemente de a opinião ser ou não plausível. Esse efeito ocorre independentemente de a pessoa ser mesmo uma autoridade no assunto ou não (basta que nós a consideremos uma autoridade).
4.12. Efeito de influência contínua
O efeito de influência contínua ocorre quando uma crença equivocada continua a influenciar a memória e o raciocínio, apesar de já ter sido corrigida e concordarmos com a correção. Um viés relacionado é o efeito de desinformação, onde a memória original é afetada por informações incorretas recebidas posteriormente.
No ativismo animal, dois tipos de atitudes que parecem ser exemplos desse vieses são as seguintes:
(1) Não é raro ativistas da causa animal mencionarem que 80 bilhões de animais são mortos para consumo mundialmente ao ano. Quando lhes é informado que esse é apenas o número de mamíferos e aves mortos, e que isso representa no máximo 0,2% dos animais mortos para consumo (a esmagadora maioria são animais aquáticos, invertebrados e vertebrados, e invertebrados terrestres), sua reação é normalmente concordarem que é essencial corrigir a estatística que mencionavam. Entretanto, normalmente a atitude posterior é continuarem a mencionar que 80 bilhões de animais são mortos para consumo anualmente.
(2) Não é raro ativistas da causa animal pensarem que o valoriza em si o bem dos animais, e que visa preservar o meio ambiente enquanto recurso para os animais. Quando é explicado que ocorre exatamente o oposto — isto é, que o ambientalismo valoriza em si entidades não como ecossistemas e espécies, e normalmente enxerga os animais apenas enquanto meros recursos para a manutenção dessas entidades — vários ativistas reconhecem que estavam enganados, e que é importante explicar isso ao público. Entretanto, depois disso normalmente continuam a enfatizar que a meta final do ambientalismo é o bem dos animais, e a apoiar medidas ambientalistas bastante prejudiciais aos animais.
4.13. Vieses que induzem a uma resistência à argumentação séria
4.13.1. A relação entre vieses e intuições
Em seu clássico sobre vieses, (2012, cap. 1) distingue dois modos de pensamento, que chama de Sistema 1 e Sistema 2. O Sistema 1 opera de modo automático e rápido, com pouco ou nenhum esforço e sem nenhuma percepção de controle voluntário. Já o Sistema 2 aloca atenção às atividades mentais laboriosas que o requisitam, incluindo cálculos complexos, leva mais tempo para realizar as operações e investe mais energia.
Os vieses surgem primariamente do modo como opera o Sistema 1, pois surgem de respostas automáticas irrefletidas. Entretanto, o Sistema 1 gera impressões e sensações que são as principais fontes das crenças explícitas e escolhas deliberadas do Sistema 2 (por conta disso, os vieses podem se "esconder" na base das crenças e escolhas do Sistema 2). O autor enfatiza, contudo, que, apesar disso, há circunstâncias nas quais o Sistema 2 consegue dominar os impulsos e associações do Sistema 1, e então nessas circunstâncias o agente consegue modificar suas crenças e decisões com base nas deliberações feitas pelo Sistema 2.
Em psicologia, normalmente os vieses são discutidos em termos de conduzirem a erros sistemáticos de raciocínio que dizem respeito a descrições de fatos, cálculos e em termos de raciocínio instrumental (isto é, em termos de escolher os meios para alcançar determinada meta). Entretanto, a influência que o Sistema 1 exerce também conduz a vieses quando pensamos sobre questões éticas. Veremos algo sobre isso a seguir.
Quando pensamos em questões éticas, tendemos a ter reações automáticas. Para qualquer questão ética, automaticamente tendemos a pensar: "isso deveria ser proibido!"; "isso deveria ser opcional!"; "isso deveria ser requerido!"; "isso é louvável, mas não deveria ser requerido" e assim por diante. Na maioria das vezes, essas respostas automáticas vêm acompanhadas de fortes reações emocionais. Isso não significa que esses julgamentos decorrentes das respostas automáticas sejam necessariamente equivocados. Entretanto, significa que não podemos deduzir que são necessariamente corretos. Por exemplo, vários desses julgamentos intuitivos podem ser simplesmente uma expressão dos preconceitos que temos. Só saberemos se esse é ou não o caso se examinarmos criticamente esses julgamentos (algo que requer o Sistema 2 operando). Entretanto, quanto mais fortes forem os sentimentos associados a esses julgamentos automáticos, mais difícil será para alguém aceitar a possibilidade de que seu julgamento inicial pode estar equivocado (e, portanto, maior será sua aversão a testar esses julgamentos).
É por isso que temos razões para ver com desconfiança a ideia bastante predominante de que, para descobrirmos qual a atitude correta para questões de ética, devemos seguir nossas intuições e sentimentos. Até pouco tempo atrás, as intuições e os sentimentos da maioria das pessoas iam na direção de aprovar a escravidão humana. É possível que atualmente nossas intuições e sentimentos estejam nos inclinando a fazer toda uma série de coisas que, se refletíssemos seriamente sobre elas, as consideraríamos injustificáveis. E, novamente, o próprio fato de esses julgamentos serem intuitivos e gerarem sentimentos fortes é um dos principais fatores que nos inclina a não os questionarmos e a vê-los como auto evidentes. Por isso, o fato de um julgamento ser intuitivo, longe de justificá-lo, é uma razão para desconfiarmos dele.
Se as pessoas têm uma aversão à possibilidade de estarem erradas em seus julgamentos morais (por terem sentimentos fortes em relação a essas questões), é possível que isso as incline não apenas a evitarem testar esses julgamentos, mas também a afirmarem que a reflexão racional em ética é inútil (não porque elas mesmas achem isso, mas por saberem que tal reflexão pode revelar que seus julgamentos estão equivocados). Ou ainda, pode ocorrer que elas realmente acreditem que a reflexão racional em ética é inútil simplesmente por conta da sua ignorância quanto à complexidade dessas questões. Por exemplo, podem afirmar algo como "essa coisa de refletir sobre o que é certo ou errado é para quem não nasceu sabendo o que é certo e errado". Paradoxalmente, é a sua própria ignorância do debate argumentativo em torno das diferentes questões éticas e de sua respectiva complexidade aquilo que as faz terem tanta certeza de que estão corretas em seus julgamentos morais. Em resumo, paradoxalmente, o fato de a própria pessoa se considerar muito inteligente e/ou moralmente muito íntegra é um dos principais fatores que a impede de corrigir suas falhas cognitivas e/ou morais. Essa tendência explica muito do alto (e até mesmo de rejeição) por parte de ativistas (da causa animal e de outras) em relação à argumentação em ética.
Quando discutem questões de ética, as pessoas tendem, ou a simplesmente repetir o que já afirmavam antes (sem tentar oferecer argumento algum para fundamentar sua posição), ou então a racionalizar suas crenças iniciais (isto é, tentam a todo custo apresentar algum argumento para mostrar que sua crença inicial é correta, sem colocar esses julgamentos iniciais à prova). O resultado é que a sua discussão sobre questões éticas particulares é feita geralmente de maneira que reflete os preconceitos que possui.
Especialistas em ética não estão isentos desse tipo de atitude. Na verdade, essa atitude é muito abundante entre os especialistas. Para confirmar isso, basta constatar a quantidade de trabalhos em filosofia moral nos quais o autor tentar construir uma argumentação que tem como objetivo justificar a crença inicial que ele já tinha quanto a determina questão. É menos perceptível que especialistas em ética também possuem o viés de tentar confirmar o que já pensavam antes porque, diferentemente do público não especialista nessas questões, possuem uma habilidade maior para utilizar as palavras para esconder suas atitudes enviesadas. É claro, pode ser que, após reflexão cuidadosa e imparcial, alguém chegue à conclusão de que suas crenças iniciais sobre determinado assunto eram plausíveis. Entretanto, isso é diferente de já começar o raciocínio com o objetivo de racionalizar a crença inicial sem colocá-la à prova. A atitude mais básica em termos de honestidade intelectual é estar preparado para mudar suas crenças iniciais se a reflexão mostrar que elas estavam equivocadas. Isso não ocorre quando alguém já "entra em campo" com o objetivo de, a todo custo, provar suas crenças iniciais.
Outro dos fatores que inclina as pessoas a confiarem em seus julgamentos intuitivos em questões éticas é que o trabalho do Sistema 2 envolve um gasto consideravelmente maior de energia70. Isso é expresso na linguagem popular como "pensar dá trabalho!". Simplesmente é mais confortável não colocar à prova nossos julgamentos. Além disso, evitar a avaliação crítica é também uma maneira de evitar a dissonância cognitiva (isto é, a sensação desconfortável que temos quando percebemos que temos crenças conflitantes entre si ou atitudes conflitantes com nossas crenças, ou quando percebemos que estamos errados).
Entretanto, como vimos, a reflexão crítica (que é uma operação do Sistema 2) tem o potencial de corrigir os impulsos do Sistema 1. Isso muitas vezes é difícil. Requer um esforço considerável e prática constante. Requer também a humildade necessária para aceitar a possibilidade de estarmos equivocados em nossas crenças, atitudes e comportamentos. É por essa razão que, quanto mais inteligente ou moralmente correto alguém julga a si próprio, mais difícil é para essa pessoa corrigir suas falhas, sejam cognitivas ou morais.
A percepção de que pensar criticamente sobre questões éticas pode mostrar que estamos equivocados, muito mais do que o gasto de energia considerável envolvido na atividade de deliberação, contribui para afastar as pessoas da reflexão sobre ética. Isto é, a maior virtude da reflexão crítica (poder corrigir nossos equívocos) é também aquilo que mais afasta as pessoas dela. Entretanto, isso não é um defeito da reflexão crítica. O defeito é das próprias pessoas: detestam saber que podem estar equivocadas, e isso ocorre porque possuem uma imagem excessivamente positiva de si próprias.
Quando a aversão que a pessoa sente à possibilidade de estar equivocada é muito grande, isso pode conduzi-la não somente a não querer refletir sobre questões éticas: pode querer enfatizar que tal reflexão é perda de tempo. Em casos extremos (e que, nem por isso, são pouco comuns) pode chegar a tentar impedir outras pessoas de colocarem a discussão em pauta (pois não quer, nem ela mesma saber que é possível que ela esteja equivocada, e muito menos que os outros saibam disso). A reação colérica que várias pessoas possuem contra o veganismo, e também a reação colérica que vários veganos têm contra a proposta de reduzir o sofrimento dos animais selvagens, em boa parte dos casos, é simplesmente isso: um reflexo de se sentirem incomodadas com a possibilidade de estarem equivocadas..
Vimos acima que três dos principais fatores que inclinam as pessoas a não examinarem suas posições em ética são: (1) aversão à possibilidade de se estar equivocado; (2) não vislumbrar a complexidade das questões e (3) aversão a atividades que requerem esforço. Entretanto, esses mesmos fatores também inclinam as pessoas a não examinarem suas crenças descritivas. Se é assim, por que então a negligência em relação a testar crenças morais é geralmente maior do que a negligência em relação a testar crenças descritivas? A seguir exploraremos essa questão.
Em primeiro lugar, poderia ser apontado que, em relação a crenças descritivas, percebemos que em muitos casos, se nos recusarmos a testá-las, corremos risco de sermos prejudicados por essas crenças. Por exemplo, se alguém acredita que não há piranhas em um lago, é prudente testar essa crença antes de entrar na água. Já no caso das crenças morais, quase sempre são os outros que são prejudicados por nos recusarmos a examinar essas crenças.
Além disso, a maioria das crenças morais (ainda que nem todas, como veremos a seguir) geram sentimentos mais fortes do que a maioria das crenças descritivas. Isso porque as crenças morais têm a ver com o modo como nós mesmos nos avaliamos enquanto pessoas (por exemplo, como pessoas que fazem a coisa certa, como pessoas que têm um bom caráter, enfim, como boas pessoas). Quanto mais forte um sentimento associado à ideia de que uma crença está correta, mais difícil é pensar na possibilidade de ela estar errada. Por exemplo, é mais fácil alguém corrigir sua crença inicial de que o Polo Norte é mais frio do que o Polo Sul (na verdade, o inverso é verdadeiro) do que corrigir sua crença inicial de que certo comportamento que praticou a vida inteira está errado – mesmo que também tenha acreditado durante a vida inteira que o Polo Norte é mais frio do que Polo Sul.
É claro, algumas crenças descritivas também geram sentimentos fortes de aversão a se pensar na possibilidade de elas estarem equivocadas (um exemplo é a crença de que o mundo é justo, e que não é repleto de sofrimento). Esses exemplos (e os do parágrafo anterior) sugerem que o principal fator em termos de influência no quanto alguém terá aversão a testar sua crença inicial não tem tanto a ver com o fato de a crença ser moral ou descritiva, nem com o tempo que alguém levou acreditando nela, mas sim no quão importante aquela crença é para sua visão de mundo. Por exemplo, saber qual dos polos da Terra é mais frio não é algo exerce um papel central na visão de mundo da maioria das pessoas; por outro lado, a ideia de que a natureza é um local paradisíaco, sim. O mesmo ocorre com mudanças de comportamentos. Por exemplo, se alguém precisa mudar o lado da calçada no qual coloca o seu lixo, isso não gera tanta resistência quanto a ter que mudar o que come (pois há muito mais fatores ligados ao prazer e a vínculos emocionais no caso da comida).
4.13.2. Efeito de falso consenso, racionalização e aversão a discutir argumentos
Frequentemente, ativistas da causa animal afirmam que é perda de tempo apresentar os argumentos a favor da dos seres sencientes, discutir o especismo, falar sobre ética, ou mesmo discutir e analisar seriamente qualquer questão. De acordo com essas pessoas, seria perda de tempo "porque ninguém quer ler e avaliar seriamente nada".
Entretanto, essa alegação pode estar a ser fortemente influenciada pelo efeito de falso consenso, que ocorre quando superestimamos o quanto os outros compartilham de nossas crenças, valores e comportamentos. Ele induz as pessoas a projetarem suas atitudes e ideias pessoais nos outros. Assim, esse viés pode induzir os ativistas a pensarem que, como eles próprios não se interessam por ler e discutir seriamente essas questões, então ninguém vai se interessar.
Entretanto, não necessariamente essa atitude é resultado do efeito de falso consenso. Por exemplo, dependendo do caso, pode ser que a alegação de que o público não se interessará por essas questões não seja motivo real pelo qual alguém quer nos convencer a não discutir essas questões. Pode ser que a própria pessoa não se interesse por essas questões, mas acredite que outras pessoas se interessariam. Entretanto, talvez ela esteja dizendo que as outras pessoas não se interessariam como uma tentativa de nos convencer a não discutirmos essas questões (mas porque ela própria não quer que essas questões sejam discutidas, apesar de dizer que é porque as outras pessoas não teriam interesse no tema). Quando esse é o caso, não estamos diante do efeito de falso consenso, mas de uma racionalização (afirmar que o motivo para um comportamento é um quando de fato é outro), e estamos também diante de uma objeção normativa disfarçada de objeção estratégica71.
4.14. Conclusões
Listamos alguns vieses que podem nos influenciar a resistirmos pensar em novas questões e a revisarmos nossos posicionamentos, seja sobre questões éticas, descritivas ou sobre estratégias para alcançarmos nossas metas. Vimos como esses vieses influenciam, em especial, nossas decisões que afetam animais não humanos.
Aqui nos limitamos a listar uma série de vieses sem uma análise mais detalhada do tamanho da influência que cada um exerce. Além disso, muitos vieses também foram deixados de fora. E, obviamente, muito do que foi dito neste texto precisará ser corrigido, e desenvolvimentos posteriores precisam ser adicionados. Por exemplo, poder-se-ia investigar se alguns dos vieses citados não são tendências inevitáveis de como o cérebro humano opera, o que permitiria avaliar quais deles são mais fáceis de tentarmos diminuir sua influência. Entretanto, a intenção aqui é apenas dar um pontapé inicial em uma discussão sobre a influência de vieses em decisões que afetam os animais, uma discussão que raramente é feita, e que precisa ser feita se nossa meta é sermos eficientes em tornarmos o mundo um lugar menos ruim.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O que é o viés de ponto cego?
O que é o efeito de verdade ilusória?
Para pensar
Use o Detector de vieses deste site. Qual viés você reconheceu em si mesmo?
Notas do autor 15
- 57 Ver taembém https://en.wikipedia.org/wiki/Status_quo_bias ↩
- 58 Sobre heurística de afeto, ver Kahneman (2012, cap. 13). ↩
- 59 Ver também https://en.wikipedia.org/wiki/Bandwagon_effect ↩
- 60 Sobre isso, ver https://en.wikipedia.org/wiki/Illusory_truth_effect ↩
- 61 Sobre ilusão de validade, ver Kahneman (2012, cap. 20). Ver também https://en.wikipedia.org/wiki/Illusion _of_validity. ↩
- 62 Sobre isso, ver Lichtenstein (1980). ↩
- 63 Ver também https://en.wikipedia.org/wiki/Na%C3%AFve_realism_(psychology) ↩
- 64 Ver também https://en.wikipedia.org/wiki/Dunning%E2%80%93Kruger_effect ↩
- 65 Para essas críticas, ver Gaze (2023) ↩
- 66 Para ler sobre isso, veja a seção "efeitos sistêmicos" de Pilat; Sekoul (2025 [2021]).. ↩
- 67 No original: “The fundamental cause of the trouble is that in the modern world the stupid are cocksure while the intelligent are full of doubt. Even those among the intelligent who are most sure of something are full of hesitation when it comes to action. Whereas the stupid, having no doubts, are full of a missionary zeal. Because of this, the voices of intelligent people are lost in the clamour of the ignorant, and the causes that deserve support are left without advocates". O ensaio de Russell foi publicado originalmente no New York American de 10 de maio de 1933, e foi republicado em Rusell (1998 [1931-1935], p. 27). ↩
- 68 Ver também https://en.wikipedia.org/wiki/Confirmation_bias ↩
- 69 Sobre heurística de afeto, ver Kahneman (2012, cap. 13). ↩
- 70 Sobre isso, ver Kahneman (2012, cap. 1). ↩
- 71 Essa questão é discutida em detalhes no capítulo 8 do Volume VIII desta coleção. ↩
Fontes citadas neste texto 4
A lista completa do volume está em referências do Volume X.
- GAZE, E. C. Debunking the Dunning-Kruger effect – the least skilled people know how much they don’t know, but everyone thinks they are better than average. The Conversation: Academic rigor, journalistic flair, 08 mai. 2023.
- KAHNEMAN, D. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
- LICHTENSTEIN, S; FISCHHOFF, B; PHILLIPS, L D. Calibration of probabilities: The state of the art to 1980. In KAHNEMAN, D; SLOVIC, P; TVERSKY, A (orgs.). Judgment Under Uncertainty: Heuristics and Biases. Cambridge University Press, 1982, p. 306–334.
- PILAT D.; SEKOUL K. Dunning–Kruger Effect. The Decision Lab, 18 ago. 2025 [2021].
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