Questão
de Ética
EN

Volume I · Discutindo o especismo · capítulo 13

Tentativas de justificar o especismo que apelam a autoridades

4 min de leituraNível básico1 notas1 fontes

Selecione um trecho para destacar, anotar ou compartilhar
Primeira vez neste assunto? Leia antes a versão simplificada, em linguagem para quem está começando (2 min).

Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original

O apelo a autoridades, religiosas ou não, não justifica o especismo: pelo dilema de Eutífron, ou a autoridade aprova algo por boas razões, e então o que importa são as razões, ou a aprovação é arbitrária.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume I, p. 39 da edição em PDF

13.1. Um padrão duplo de moralidade

O bem dos animais não humanos geralmente não recebe grande importância. Por exemplo, ao redor do mundo, os animais não humanos são explorados para os mais diferentes propósitos. Na vasta maioria dos casos isso envolve matá-los, depois de sujeitá-los a uma vida repleta de sofrimento intenso. Outro exemplo: quando os animais selvagens são vítimas de processos naturais como fome, sede, doenças e desastres naturais, a visão padrão é a de que não deveríamos ajudá-los: "devemos deixar a natureza seguir o seu curso".

Entretanto, em ambos os casos se as vítimas fossem humanas a atitude padrão seria a oposta. Isso mostra que a maioria das pessoas adota dois pesos e duas medidas, dependendo da espécie dos afetados por suas decisões. Esse padrão é : se são humanos, são respeitados e ajudados; se são animais não humanos, não são.

Várias tem sido as tentativas de justificar esse padrão antropocêntrico de moralidade. Neste texto, discutiremos uma em especial: a alegação de que esse padrão está justificado porque alguma autoridade moral o aprova.

13.2. O apelo a autoridades

A seguir daremos exemplos com tentativas de defender o consumo de animais. Entretanto, é importante lembrar que tudo o que for dito aqui vale igualmente para o morais na tentativa de defender qualquer outra prática ou atitude.

Frequentemente é afirmado que o consumo de animais está justificado porque, alegadamente, alguma autoridade moral o aprovou. Por exemplo, geralmente é citado que a Bíblia aprova o consumo de animais, e que Jesus comia peixes. Em outras vezes apela-se a outros tipos de autoridade moral (não necessariamente autoridades vinculadas a alguma religião). Em resumo, o padrão desses argumentos é o seguinte: "determinada autoridade moral aprovava certa prática; logo, a prática em questão está justificada".

13.3. Como não responder

Por vezes, algumas pessoas tentam contestar esse tipo de argumento negando que a autoridade em questão aprovava o consumo de animais. Entretanto, essa forma de contestar não aborda o problema principal do argumento (na verdade, também o assume), que é o próprio apelo a autoridades em debates sobre questões éticas. Vejamos:

13.4. O dilema de Eutífron

, 399 anos antes de Cristo, já havia percebido os problemas com esse tipo de argumentação (então, provavelmente, apelos à autoridades morais já eram bastante comuns naquela época). O principal problema é ilustrado por Platão no diálogo intitulado Eutífron41, que ficou por isso conhecido como .

Basicamente, o dilema consiste em perguntar o seguinte: "Uma autoridade aprova determinada prática porque a prática em questão é certa, ou ela se torna certa porque foi aprovado pela autoridade?". Isso mostra um grave problema com os apelos a autoridades morais, seja lá que resposta alguém dê a esse dilema. Vejamos:

13.5. As possíveis respostas ao dilema não dão suporte ao apelo à autoridade

Suponhamos que alguém afirme que é o segundo caso (a prática se torna certa porque foi aprovada pela autoridade). Se for assim, então a autoridade em questão aprova a prática não porque essa prática tem boas razões a seu favor, pois tudo o que a autoridade escolhesse aleatoriamente aprovar estaria correto. Se for assim, então não estamos diante de realmente uma autoridade moral, e sim, de alguém que escolhe arbitrariamente o que aprovar.

É claro, se alguém considera certa pessoa, livro ou divindade, uma autoridade moral, dirá que a autoridade em questão é uma autoridade porque possui muito conhecimento moral, e então, aprova determinadas coisas porque sabe que elas são certas (e não, que elas se tornam certas porque foram aprovadas pela autoridade). Então, parece que a única maneira de afirmar que

estamos diante de uma autoridade é defender a primeira opção: "a autoridade aprova determina prática porque sabe que a prática é correta".

Mas, então, isso implica que não é a vontade da autoridade que torna a prática certa: a autoridade apenas sabe de alguma razão que torna tal prática correta. Porém, se é assim, para avaliarmos se tal prática é mesmo correta, ou se a autoridade em questão se enganou, precisamos saber que razão é essa.

13.6. Não importa quem disse: importa avaliarmos as razões

Em resumo, o ponto é: apontar que certa autoridade aprova uma prática não é suficiente para justificá-la. Temos de saber quais razões essa autoridade teria endereçado para tentar mostrar que tal prática é certa. E, caso venhamos e descobrir que razões são essas, temos de avaliar essas razões por elas próprias.

Isto é, o argumento apresentado será ou não sólido independentemente de quem o apresentou. Se o argumento é bom, ele é bom, quer tenha sido endereçado por uma autoridade ou por qualquer outra pessoa. Por outro lado, se o argumento é ruim, ele continua sendo ruim, mesmo que tenha sido endereçado por uma autoridade.

É por essa razão que, se nosso objetivo é realmente descobrir quais práticas são justificáveis, rejeitaremos por completo apelos à autoridades morais. Avaliaremos a solidez dos argumentos independentemente de quem endereçou o argumento. Isso mostra então que o fato de que certas autoridades aprovaram práticas não é suficiente para mostrar que tais práticas estão justificadas.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume I
Ver todo o tema

Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

O dilema de Eutífron pergunta se...

O capítulo diz que a melhor resposta ao apelo à autoridade é...

Para pensar

Que autoridade você costuma aceitar sem pedir razões? Como seria avaliar o que ela diz pelo argumento?

Notas do autor 1
  1. 41 Ver Platão (1983[399 a.C.], p. 44-6). ↩
Fontes citadas neste texto 1

A lista completa do volume está em referências do Volume I.

  • PLATÃO. Eutífron, Apologia de Sócrates, Críton. 4a ed. Trad. José Trindade Santos. Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1983 [399 a.C.].

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Há autoridades morais (religiosas ou de outro tipo) que aprovaram a exploração animal. Logo, a exploração animal está justificada. (I, cap. 13).
O fato de uma autoridade aprovar determinada prática não implica que ela esteja necessariamente certa. O que teria de ser analisado são as razões que a autoridade em questão ofereceu para tentar justificar a prática. Entretanto, essas razões serão plausíveis ou implausíveis, quer tenham sido oferecidas por uma autoridade ou por qualquer outra pessoa. A vontade de uma autoridade não tem poder de tornar bom um argumento ruim. Portanto, é completamente irrelevante saber se quem ofereceu um argumento é ou não uma autoridade. O que importa é saber se o argumento que ofereceu é ou não sólido.

Textos recomendados

Continue no tema Discutindo o especismo.

Navegue pelos diferentes temas