Volume I · Discutindo o especismo · capítulo 12
Se a ética foi inventada para autoproteção, é justo desfavorecer os animais?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Mesmo que a ética tivesse surgido como autoproteção, descrever como uma atividade surgiu não justifica uma concepção dentro dela; e a ideia de que a ética é só autointeresse nem descreve bem como as pessoas agem.
Talvez os primeiros combinados entre pessoas tenham surgido para elas se protegerem. Mas hoje a gente sabe que é errado maltratar alguém fraco, mesmo que ele nunca possa se vingar. Os animais não podem se vingar, e mesmo assim sentem.
Os primeiros astrônomos acreditavam que o Sol girava em torno da Terra. Saber como a astronomia começou não diz que essa ideia está certa. Saber como a ética começou também não.
- P1 O argumento conclui que só devemos considerar quem pode nos ameaçar, porque a ética teria surgido do autointeresse.
- P2 Descrever a origem de uma atividade não é o mesmo que justificar uma posição dentro dela.
- P3 Além disso, se valesse, o argumento autorizaria desconsiderar humanos indefesos.
- C Logo, o apelo ao autointeresse não justifica o especismo.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “A moral existe para nos proteger uns dos outros; os animais não são uma ameaça.”
Resposta Bebês, idosos frágeis e pessoas com deficiência também não são ameaça, e ninguém conclui que podem ser maltratados. E a origem histórica da ética não diz o que é certo hoje.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume I, p. 37 da edição em PDF
12.1. O apelo ao autointeresse
Por vezes é afirmado que os humanos inventam a ética para se proteger. De acordo com essa visão as pessoas condenam coisas como o assassinato não porque realmente se importam com os outros, mas porque têm medo que os outros façam a mesma coisa com elas. Em algumas vezes essa visão é utilizada para defender que, se a base da ética é o autointeresse, então não há porque considerar os animais não humanos, uma vez que eles não tem poder para nos ameaçar38.
12.2. O apelo ao autointeresse poderia justificar o especismo?
Um primeiro problema com esse argumento é que ele não poderia justificar que é certo fazer atrocidades com os animais não humanos e que é errado fazer o mesmo com humanos. Ora, há também humanos que não tem poder algum para ameaçar outros humanos. Bebês, crianças até certa idade e vítimas de certas doenças e acidentes que incapacitam física ou mentalmente são bons exemplos. Se o que o argumento alega estivesse correto, então seria correto fazer a eles todo tipo de atrocidade, e não apenas aos animais não humanos39.
12.3. A afirmação sobre ética e autointeresse está correta?
O segundo problema é que é falso aquilo que o argumento alega quanto aos fatos, a saber, que as pessoas só respeitam quem elas temem. É claro, há pessoas que só respeitam quem tem poder de lhes ameaçar. Mas, felizmente, muitas outras pessoas não são assim. Muitas pessoas respeitam indivíduos altamente vulneráveis que não têm poder algum de lhes representar uma ameaça. O que o argumento afirma pode ser verdadeiro em relação aos proponentes do argumento. É possível que eles, sim, só respeitem quem tiver poder de lhes ameaçar. Entretanto, isso certamente é falso se refere-se à humanidade em geral. De fato, esse equívoco é algo muito comum: quando alguém diz "a humanidade é assim" por vezes está a fazer na verdade uma generalização apressada a partir da constatação de que ela própria é assim.
12.4. O apelo à origem da ética
Suponhamos, entretanto, que o argumento seja sobre a origem da ética, e não sobre como as pessoas a aplicam hoje. Por exemplo, poderia ser dito que os primeiros sistemas de ética da história surgiram por autointeresse, por parte de indivíduos que buscavam proteção mútua. Com base nisso, alguém poderia defender então que, por isso, não temos razões para considerar aqueles que não podem nos ameaçar.
Aqui há, novamente, dois problemas. O primeiro problema é que, novamente, a afirmação que o argumento faz quanto aos fatos provavelmente é falsa. Observações sobre o comportamento dos animais não humanos parecem sugerir que a ética surge a partir de comportamentos altruístas que provavelmente são uma herança genética40, muito mais antiga do que qualquer sistema de ética autointeressado.
Entretanto, há um problema ainda maior com o argumento. Suponhamos que a ética tivesse surgido por conta do autointeresse. Isso não implica que essa concepção de ética esteja correta. Por exemplo, os primeiros astrônomos tinham certas convicções sobre astronomia, mas isso não significa que necessariamente eles estavam certos. Com o tempo, aliás, foi provado que muitas das coisas que eles pensavam estavam erradas. O mesmo vale para a ética.
O argumento em questão confunde descrever como surgiu a atividade da ética com justificar uma determinada concepção em ética. Mesmo que o egoísmo fosse uma boa explicação para a origem da atividade da ética (e, como vimos, nem isso parece ser), isso não seria razão alguma para se pensar que o egoísmo está justificado. Pensar que sim é cometer o erro de pensar que descrições sobre o modo como as pessoas agem, ou sobre que motivações elas têm, poderia fundamentar questões que são normativas (que dizem respeito ao que é justo ou injusto, ao que devemos fazer ou não etc.). Isso seria o equivalente de tentar provar que um cálculo matemático está correto apontando que era a maneira como se fazia esse cálculo há milhares de anos atrás.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Qual confusão o capítulo aponta no apelo à origem da ética?
Se valesse o critério "considerar só quem pode nos ameaçar", quem mais ficaria de fora?
Para pensar
Você acha que só não faz mal aos outros por medo do que eles fariam com você? O que isso diz sobre o argumento?
Notas do autor 3
Fontes citadas neste texto 6
A lista completa do volume está em referências do Volume I.
- CARRUTHERS, P. Against the moral standing of animals. University of Maryland, 2011.
- DE WAAL, F. Good Good Natured: The Origins of Right and Wrong in Humans and Other Animals. Harvard: Harvard University Press, 1996.
- EHNERT, J. The argument from species overlap. Blacksburg: Virginia Polytechnic Institute and State University, 2002.
- HORTA. O. The Scope of the Argument from Species Overlap. Journal of Applied Philosophy, v. 31, p. 142-154, 2014.
- NARVESON, J. Animal rights. Canadian Journal of Philosophy, v. 7, p. 161-178, 1977.
- PETRINOVICH, L. Darwinian dominion: Animal welfare and human interests. Massachusetts: MIT Press, 1999.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Os humanos inventaram a ética para se proteger. Portanto, está justificado desconsiderar aqueles indivíduos que não têm poder de nos ameaçar. (I, cap. 12).
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