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Volume I · Discutindo o especismo · capítulo 3

Características metafísicas poderiam justificar o especismo?

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Alma imortal, ser feito à imagem de uma divindade ou outras características metafísicas não justificam o especismo: não há como comprová-las, não se aplicariam só aos humanos e, sobretudo, nada têm a ver com poder sofrer.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume I, p. 15 da edição em PDF

3.1. O apelo a características metafísicas

Em algumas vezes é defendido que apenas os humanos deveriam receber (ou que deveriam recebê-la em maior grau) porque, alegadamente, os humanos são os únicos que possuem alguma das características a seguir15:

(a) Foram criados à imagem e semelhança de um criador; (b) Possuem uma relação especial com esse criador; (c) Possuem uma alma imortal; (d) Possuem dignidade; (e) Pertencem a uma categoria ontológica superior.

As ideias de dignidade e de categoria ontológica superior geralmente são utilizadas em um sentido bastante específico pelos proponentes dessas posições. Normalmente o que querem dizer é que os humanos possuem um valor especial que implica que devam ser os únicos a serem respeitados (ou que devam ser respeitados em maior grau), e que as razões que temos para respeitá-los não tem a ver com a possibilidade de prejudicá-los ou beneficiá-los, e sim com possuírem esse valor especial.

3.2. Problemas com o apelo a características metafísicas

Há três problemas principais com todas essas tentativas de defender o 16.

O primeiro é que é impossível comprovar se alguém cumpre ou não esses critérios. Não é apenas que é impossível de verificar empiricamente se alguém os cumpre ou não: também parece que não há como demonstrar de nenhum outro modo que os humanos satisfazem esses critérios e os animais não humanos não os satisfazem.

O segundo problema é que nenhuma dessas defesas explica por que possuir alguma daquelas características seria relevante para questões de consideração moral. Elas simplesmente assumem de antemão que são relevantes.

O terceiro problema é que há razões para pensarmos que possuir ou não essas características é irrelevante para questões de consideração moral. O que está em jogo em questões de consideração moral é a possibilidade de nossas decisões prejudicarem ou beneficiarem os afetados por elas. Então o que parece ser relevante para saber a quem dar consideração moral é saber quem é passível de ser prejudicado ou beneficiado. A posse daquelas características não determina quem é passível de ser prejudicado e beneficiado. O que determina isso é a senciência (isto é, ser capaz de ter experiências positivas e/ou negativas).

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume I
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Qual é o problema "principal" do apelo a características metafísicas, segundo o capítulo?

Por que o apelo à alma também enfrenta um problema de prova?

Para pensar

Se descobríssemos que algumas pessoas não têm alma, estaria tudo bem fazê-las sofrer? Por que a sua resposta muda, ou não, quando o ser é um animal?

Notas do autor 2
  1. 15 Exemplos são as posições defendidas por Harrison (1989) e Reichmann (2000). ↩
  2. 16 Para uma análise detalhada dos problemas com essas tentativas de justificar o antropocentrismo, ver (2007, p. 429-464). ↩
Fontes citadas neste texto 3

A lista completa do volume está em referências do Volume I.

  • HARRISON, P. Theodicy and animal pain. Philosophy, v. 64, p. 79–92, 1989.
  • HORTA, O. Un desafío para la bioética: la cuestión del especismo. Tese (Doutorado em Filosofia). Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, 2007.
  • REICHMANN, J. B. Evolution, animal ‘rights’ and the environment. Washington: The Catholic University of America Press, 2000.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Esses animais não possuem almas imortais e não foram criados à imagem e semelhança de uma divindade. (I, cap. 3).
Não é possível comprovar essas alegações. Mas, mesmo que fosse, o argumento não explica por que cumprir esses requerimentos seria relevante para receber consideração moral

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