Volume VIII · Um ativismo eficiente · capítulo 7
Crenças morais, motivação para agir e o papel da reflexão sobre ética
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
O caso de especialistas em ética animal que consomem animais levanta a questão da motivação moral: talvez não achem errado, achem pouco errado, não sejam sinceros, tenham vontade fraca ou decidam não agir; nenhuma forma de persuasão escapa desses limites.
Às vezes alguém sabe que algo é errado e mesmo assim faz. Pode ser preguiça, hábito ou falta de coragem. Isso não quer dizer que conversar e explicar não adianta: quer dizer que as pessoas também precisam decidir mudar.
Muita gente sabe que deveria dormir mais cedo e não dorme. Saber não é suficiente, mas sem saber a mudança nem começa.
- P1 Há especialistas que escrevem contra o consumo de animais e continuam consumindo.
- P2 Isso pode ocorrer por várias razões: não acharem errado, acharem pouco errado, falta de sinceridade, vontade fraca ou decisão de não agir.
- P3 Nenhuma dessas explicações mostra que crenças morais não motivam.
- P4 E abandonar a persuasão racional não resolve, pois outras formas de persuasão têm os mesmos limites.
- C Logo, a reflexão ética continua tendo um papel central.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Nem os filósofos dos animais viram veganos; então argumento não adianta.”
Resposta Isso mostra que argumentos não bastam sozinhos, não que sejam inúteis. E qualquer outra forma de convencer também pode ser ignorada.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VIII, p. 55 da edição em PDF
7.1. O caso dos especialistas em ética animal que consomem animais
Este capítulo pretende ser uma breve reflexão sobre a questão da motivação moral, a partir de casos que por vezes ocorrem no debate sobre a consideração moral dos animais não humanos.
A ética animal é a área da ética aplicada que estuda a moralidade das nossas decisões que afetam os animais não humanos. Por vezes é defendido que o fato de existirem especialistas em ética animal que continuam consumindo animais é uma prova de que acreditar que algo é certo/errado não tem influência alguma em mudar as atitudes das pessoas.
Segundo essa visão, para as pessoas se importarem em mudar uma prática, é insuficiente que concluam que ela está errada: é necessário algo que as "toque", como uma imagem ou um vídeo chocante, uma música, um acontecimento em suas vidas pessoais, lerem uma história tocante etc. Em resumo, segundo essa visão, é sempre necessária a persuasão não racional.
Neste texto será defendido que é precipitado concluir, a partir do fato de que há especialistas em ética animal que consomem animais, que então a crença de que algo é certo/errado não cria uma motivação para se agir de acordo. Como veremos nos itens a seguir, há pelo menos outras cinco possibilidades, que podem estar a ocorrer no caso desses especialistas.
7.2. Talvez não considerem errado consumir animais
Uma possibilidade é algumas dessas pessoas serem especialistas em ética animal mas, por alguma razão, não concordarem que o consumo de animais seja injustificado. Se esse for o caso, essas pessoas estão a fazer exatamente o que acreditam ser correto. É claro, isso não quer dizer que elas estão corretas ao pensarem assim. Quer dizer apenas que, se for isso o que está a acontecer, então apontar para o caso dessas pessoas não mostra que a crença de que algo é certo/errado não influencia as atitudes (muito pelo contrário: é a sua crença de que consumir animais está justificado que as faz continuarem a consumir animais).
7.3. Talvez considerem pouco errado consumir animais
Há graus com que as pessoas consideram uma atitude certa ou errada. Por exemplo, normalmente consideramos atropelar um pedestre um erro muito grave. Por outro lado, chegar atrasado quinze minutos em uma reunião é normalmente considerado um erro leve. É por isso que tomamos muito mais cuidado para não atropelar alguém do que para evitar de chegarmos atrasados em uma reunião. Se é assim, então o quanto alguém acha que uma prática é certa ou errada tem muita influência no quanto ela vai se esforçar para agir de acordo.
Assim, é possível que alguns desses especialistas deem alguma aos animais não humanos, mas muito menor do que aquela dada aos humanos. Assim, mesmo que digam que consideram o consumo de animais algo errado, talvez não considerem isso como um erro lá muito grave. E, mais uma vez, o caso dessas pessoas não corrobora a tese de que as crenças de alguém sobre o que é certo e errado não tem influência em suas atitudes. Muito pelo contrário: se for isso o que está a ocorrer, isso mostra que sua atitude é reflexo justamente de acreditarem que a não é um erro muito grave.
7.4. Talvez não estejam sendo sinceros quanto ao que reportam
Poderia ser objetado que há pessoas que dizem que consideram o uso de animais para consumo algo muitíssimo errado, mas que tampouco param de consumi-los. Entretanto, isso ainda é insuficiente para se concluir que a crença de que uma prática é certa/errada não motiva alguém a agir de acordo. Isso se dá por duas razões, explicadas a seguir.
A primeira é que há a possibilidade de alguém dizer que considera o consumo de animais algo muitíssimo errado, mas não estar sendo sincero e, na verdade, não considerar algo assim lá tão errado. A segunda é que, mesmo se estiver sendo sincero, é possível que tal pessoa apresente o problema conhecido como fraqueza de vontade, que abordaremos no próximo item.
7.5. Talvez tenham vontade fraca
Poder-se-ia alegar que há pessoas que sinceramente consideram o consumo de animais um erro muitíssimo grave e, ainda assim, não param de consumir os animais. Isto é, essas pessoas apresentam o problema conhecido como fraqueza de vontade.
Entretanto, apesar de casos de fraqueza de vontade mostrarem que as crenças morais não determinam sozinhas o comportamento de alguém, não mostram que as crenças morais não têm influência no comportamento. No caso dessas pessoas, a motivação gerada pela crença de que o consumo de animais é um erro gravíssimo provavelmente tem que competir com outras motivações contrárias (por exemplo, a pressão social, o prazer obtido com os alimentos que já está acostumada, a associação afetiva entre a comida de origem animal e eventos sociais etc.).
7.6. Talvez decidam não fazer o que se sentem motivados a fazer
Outra possibilidade, ainda, é a crença moral criar uma motivação para agir de acordo, não haver outras motivações conflitantes, mas a pessoa simplesmente decidir não fazer aquilo que considera certo e que se sente motivada a fazer. Esses casos parecem ser mais raros. Mas, novamente, tais casos mostrariam apenas que as crenças morais não determinam o comportamento de alguém, mas não mostrariam que elas não criam uma motivação para agir de acordo.
7.7. Conclusão
O fato de haver especialistas em ética animal que consomem animais é insuficiente para se concluir que as crenças de alguém sobre o que é certo/errado fazer não geram uma motivação para agir de acordo. Como vimos, há pelo menos outras cinco possibilidades do que está a ocorrer nesses casos: (1) não considerarem consumir animais um erro; (2) considerarem consumir animais um erro, mas não um erro grave; (3) dizerem que consideram consumir os animais um erro grave, mas estarem mentindo; (4) considerarem um erro grave mas a motivação gerada por essa crença ter de competir com outras motivações contrárias; (5) considerarem um erro grave e não haver motivações contrárias, mas decidirem não fazer aquilo que se sentem motivados a fazer.
Isso tudo pode gerar uma sensação de decepção em algumas pessoas, em relação à força dos argumentos em termos de mudar o comportamento das pessoas. Entretanto, isso é precipitado. O que vimos acima mostra apenas que argumentos não são ferramentas mágicas que nos dão controle sobre as decisões de quem vai ouvir os argumentos. Como vimos, o comportamento da pessoa é resultado de muitos fatores e, por mais que alguém argumente da melhor maneira possível, e a outra pessoa aceite o argumento, não temos poder de decidir se ela vai seguir na prática o que concluiu ou não. Isso só ela é capaz de fazer.
Diante disso, algumas pessoas poderiam então pensar que é melhor abandonar a persuasão racional e adotar táticas de persuasão não racional. Mas, o ponto é: qualquer outra forma de persuasão tem os mesmos limites. Diante de táticas de persuasão não racional a pessoa pode simplesmente não dar bola, ou pode dizer que concorda e não agir de acordo (novamente, pode haver motivações conflitantes, pode simplesmente decidir não seguir o que ela se sente motivada a fazer etc.). Aliás, as táticas de persuasão não racional parecem ter limites ainda maiores, pois a persuasão racional pelo menos consegue explicar as razões para se aceitar ou rejeitar determinada prática. Isso parece mostrar que a persuasão racional, com todos os seus limites, ainda é o melhor de que dispomos.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Qual destas NÃO é uma das explicações discutidas no capítulo?
Adotar táticas de persuasão não racional resolve o problema?
Para pensar
Que coisa você sabe que deveria fazer e ainda não faz? O que explica isso?
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Foco em mudança social ou tecnológica? (VIII, cap. 7, 12, IX, cap. 9).
Textos recomendados
Continue no tema Um ativismo eficiente.
Objeções normativas disfarçadas de objeções estratégicas
Às vezes quem discorda de uma meta (objeção normativa) a apresenta como dúvida estratégica ("seria ótimo,…
Foco no veganismo versus foco na redução do consumo
O debate entre focar no veganismo ou na redução do consumo é, em geral, sobre estratégia, e não sobre a…
Por que o termo bem-estarismo é altamente ambíguo
"Bem-estarismo" tem pelo menos sete sentidos, que dizem respeito a debates diferentes; aceitar ou rejeitar…