Volume XII · O essencial sobre ética animal · capítulo 2
A defesa da consideração por todos os seres sencientes
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Os principais argumentos pela consideração de todos os seres sencientes são o da sobreposição, o da relevância, o princípio da igual consideração e o da imparcialidade; o quadro também trata de testar o especismo, do benefício da dúvida, de prioridades e de merecimento.
Este capítulo mostra os argumentos principais de por que todos os que sentem devem ser respeitados: porque o que importa é poder sentir, porque a dor de cada um vale igual e porque ninguém escolheria regras injustas sem saber quem ia ser.
São como os pilares de uma ponte: cada um sustenta por um lado, e juntos tornam a estrutura firme.
- P1 Se a falta de certas capacidades não justifica tratar humanos pior, também não justifica tratar animais pior (sobreposição).
- P2 O relevante para a consideração é poder ser prejudicado e beneficiado, o que depende da senciência (relevância).
- P3 Prejuízos e benefícios iguais devem ter o mesmo peso (igual consideração).
- P4 Sem saber se nasceríamos humanos ou animais, não aceitaríamos o tratamento atual (imparcialidade).
- C Logo, todo ser senciente deve receber consideração moral plena.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Nem sempre o dano maior deve ter prioridade, por exemplo se a vítima mereceu.”
Resposta Para merecer um dano, é preciso ser responsabilizável e ter violado uma regra, o que não é o caso dos animais.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume XII, p. 11 da edição em PDF
Veremos agora os principais argumentos em defesa da dos animais não humanos5. Todos esses argumentos convergem para a conclusão de que todo ser senciente (isto é, todo ser capaz de sofrer e desfrutar) deveria receber consideração moral plena (e não apenas alguma consideração, mas em nível menor). Veremos também algumas questões relacionadas a esses argumentos. Na presente seção não discutiremos ainda as críticas que têm sido feitas à ética centrada na , nem como os seus proponentes a têm defendido. Isso será feito na próxima seção.
| Argumento | O que diz o argumento |
|---|---|
| Argumento da 6 sobreposição. (II, cap. 2). | Se a falta de certas capacidades e relações em certos humanos não justifica tratá-los pior do que os humanos que possuem essas capacidades e relações, então a falta dessas capacidades e relações nos animais não humanos não justifica tratá-los pior do que os humanos. |
| Argumento da relevância7. (II, cap. 1). | O que está em jogo em questões de consideração moral é a possibilidade de nossas decisões prejudicarem ou beneficiarem os afetados. Logo, devem receber consideração moral todos aqueles passíveis de ser prejudicados e beneficiados. A senciência é o que faz com que alguém seja capaz de experimentar as coisas como positivas ou negativas (logo, é uma condição necessária e suficiente para alguém ser passível de ser prejudicado e beneficiado). Portanto, a senciência é o que é relevante para a consideração moral |
| Princípio da igual consideração8. (II, cap. 5). | Não devemos ser tendenciosos na atribuição do peso do bem de cada indivíduo. O que importa é a magnitude dos prejuízos e benefícios, e não fatores que não resultam de mérito ou demérito (como a espécie, raça ou gênero aos quais alguém pertence). Benefícios e prejuízos de mesma magnitude devem receber o mesmo peso, independentemente da espécie, raça ou gênero de quem os receberia. |
| Argumento da 9 imparcialidade. (II, cap. 10). | Uma decisão justa deve ser imparcial (isto é, não pode ser tendenciosa). Uma decisão é imparcial se for a que escolheríamos se não soubéssemos qual posição ocuparíamos entre os afetados. Se não soubéssemos se nasceríamos como humanos ou como animais não humanos, não consideraríamos justo o modo como os animais são tratados atualmente. Logo, o modo como os animais são tratados atualmente não é justo. |
| Questões relacionadas | |
| Como testar se estamos sendo tendenciosos em relação aos animais? (II, cap. 11) | Podemos perguntar se manteríamos a mesma decisão: (1) se não soubéssemos a espécie dos afetados; (2) se não soubéssemos a espécie a qual pertencemos; (3) se as vítimas fossem humanas; (4) se tivéssemos que receber os prejuízos que ela causa para alcançar os benefícios obtidos por ela (ou, para que outros indivíduos alcancem esses benefícios). |
| E quanto aos animais que não temos certeza se são sencientes? (II, cap. 13). | Devemos aplicar o princípio do benefício da dúvida. Isso porque, se um animal é senciente, e agirmos como se ele não fosse, o dano resultante é maior do que se o animal não for senciente e nós o tratarmos como se ele fosse. Em resumo, o princípio do benefício da dúvida sugere errar para o lado da precaução. |
| Se dermos igual consideração, como decidir questões de prioridade? (II, cap. 8). | Alguns exemplos de critérios: (1) quanto pior a situação do indivíduo, maior sua prioridade; (2) quanto maior a quantidade de indivíduos em uma situação ruim, maior a prioridade; (3) quanto maior o tamanho do benefício possível de ser causado a quem está em uma situação ruim, maior a prioridade; (4) quanto maior o impacto positivo que um ou mais indivíduos teriam dali para frente se forem ajudados, maior sua prioridade. |
| Nem sempre o dano maior deveria receber prioridade (por exemplo, se quem padece do dano merece-o) (II, cap. 6). | Mesmo que isso faça sentido, não poderia justificar deixar de priorizar os animais não humanos quando padecessem do dano maior, uma vez que, para alguém merecer o dano do qual padece, precisa ser um agente responsabilizável e ter violado alguma regra que o faça merecedor do dano. Esse não é o caso dos animais não humanos, uma vez que não são agentes responsabilizáveis (o mesmo vale para os bebês e para humanos que carecem de certas capacidades cognitivas, por exemplo). |
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Que princípio sugere "errar para o lado da precaução" com seres de senciência incerta?
Qual destes NÃO é um critério de prioridade compatível com a igual consideração citado no quadro?
Para pensar
Qual desses quatro argumentos você acha mais forte? Por quê?
Notas do autor 5
Fontes citadas neste texto 7
A lista completa do volume está em referências do Volume XII.
- CUNHA, L. C. A igualdade, suas várias interpretações, e a ética interespécies. In: BARBOSA-FOHRMANN, A. P.; LOURENÇO, D. B.; AUBERT, A. C. P. (orgs.). Estudos e direitos dos animais: teorias e desafios. Porto Alegre: Editora Fi, 2022b, p. 104-128.
- CUNHA, L. C. Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente. Curitiba: Appris, 2021.
- EHNERT, J. The argument from species overlap. Blacksburg: Virginia Polytechnic Institute and State University, 2002.
- HORTA, O. Moral Considerability and the Argument from Relevance. Journal of Agricultural and Environmental Ethics, v. 31, n. 3, p. 369-388, 2018a.
- HORTA. O. The Scope of the Argument from Species Overlap. Journal of Applied Philosophy, v. 31, p. 142-154, 2014.
- ROWLANDS, M. Animal rights: Moral, theory and practice. 2. ed. New York: Palgrave Macmillan, 2009 [1998].
- SINGER, P. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1993].
Aprofunde cada ponto
Os capítulos indicados pelo autor nos quadros acima.
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